Como os anjos conhecem? Se conhecer é ter em si a forma do conhecido, ou seja, sua species, como debatemos no texto anterior, como é que os anjos conhecem? Eles não são como Deus, que conhece porque concebeu todas as coisas, nem são como nós, que temos órgãos sensoriais que nos permitem explorar e descobrir, ou seja, aprender.
Anjos não aprendem. Eles não recebem as formas das coisas, ou seja, as species pelas quais conhecem, através da aprendizagem empírica, como nós. Na verdade, eles já têm como que impressas em sua natureza todas as formas, todas as species que precisam conhecer. E para explicar a razão disto, São Tomás recorrerá à sua visão hierárquica do universo, tão própria de sua concepção belíssima da criação.
Nos seres corporais, diz Tomás, aqueles menos perfeitos têm como que uma forma maleável, capaz de receber mudanças e aperfeiçoamentos. Pensemos nas pedras, capazes de serem esculpidas, ou no barro, capaz de ser moldado. Os seres corporais mais perfeitos têm formas mais completas, mais finalizadas, menos maleáveis, como é o caso dos seres vivos. Há pouco espaço neles para que fossem moldados ou esculpidos, porque a perfeição e complexidade de sua forma aperfeiçoa a matéria a um nível que deixa pouca maleabilidade. É muito difícil aperfeiçoar aquilo que já é perfeito.
Esta hierarquia que vemos nos seres materiais também se repete nos seres espirituais. Nosso espírito humano, que é de natureza inferior ao dos anjos, é como o barro ou a pedra bruta; pode e deve ser moldado, esculpido e edificado para adquirir gradativamente mais perfeição. Este é o processo de aprendizagem: o processo de esculpir a alma humana de modo a torná-la, pela aprendizagem e pela educação, mais perfeita, mais rica, mais virtuosa. Sendo assim modelável, ela precisa adquirir gradativamente sua perfeição, aprendendo, pelo contato sensorial com os demais entes, as species com as quais conhece a criação.
Mas os anjos são formas muito mais perfeitas espiritualmente. Como naquela analogia com a hierarquia dos seres corporais, em que os corpos superiores são, cada vez, menos maleáveis porque cada vez mais completos naturalmente em perfeição, também os espíritos superiores são mais naturalmente perfeitos, e portanto menos necessitados de processos de educação, de aprendizagem, de crescimento em virtudes naturais. Isto significa que, ao contrário da nossa inteligência, a inteligência dos anjos já é dotada naturalmente das species das coisas que eles conhecem, porque eles as recebem diretamente de Deus, quando são concebidos e criados. Seguindo aquela analogia da sinfonia, que estamos utilizando desde o primeiro artigo desta questão, Deus, que é o compositor, cria os anjos já com as partituras da sua sinfonia cósmica impressas em suas naturezas intelectuais. Eles conhecem todas as coisas porque receberam de Deus mesmo as species com que Deus as criou. Nós, por outro lado, nascemos com almas em branco, tabulas rasas, e dependemos integralmente dos nossos corpos, dos nossos sentidos, da nossa experiência, para moldá-las.
E faz sentido que seja assim, ensina Tomás. De fato, isto é coerente com o modo de ser dessas criaturas, nós e os anjos. De fato, somos compostos de corpo e alma espiritual num único e mesmo ente. Nossa alma não é puro espírito, porque é simultaneamente a forma viva de um corpo. É razoável, portanto, que seja pelo corpo e com o corpo que a alma chega ao seu próprio aperfeiçoamento espiritual. Há, aqui, o fundamento para toda uma teologia sacramental, eclesial e da encarnação, que será desenvolvida no momento adequado da Suma, mas que está em perfeita harmonia com a própria estrutura do universo criado. A ligação da alma com o corpo não é, pois, acidental nem supérflua, mas é o próprio meio pelo qual a criatura humana atinge a sua perfeição.
Mas os anjos são puros espíritos, ou seja, não são formas de corpos. São subsistentes imaterialmente, subsistem pela inteligibilidade daquilo que eles mesmos são. De fato, como já vimos, toda forma está sempre numa mente ou na matéria. Não existe um reino platônico de formas separadas. Os anjos, portanto, são seres peculiares; são formas que subsistem na sua própria mente, e mentes que subsistem por conhecerem a própria forma. Portanto, como neles conhecer é subsistir, eles recebem de Deus, junto com sua existência mesma, (que é puro autoconhecimento), a perfeição intelectual de conhecer naturalmente, em razão de sua natureza mesma, as species de todas as coisas que conhecerão. De tal forma recebem de Deus este conhecimento, com prioridade e perfeição, que Santo Agostinho chegava a afirmar o conhecimento dos anjos precede mesmo a própria existência concreta das outras coisas: “aquelas coisas que são inferiores aos anjos existem primeiro no conhecimento natural da criatura inteligente, e só depois existem em si mesmas como naturezas.”
Havendo, pois, lançado os fundamentos da solução do debate, São Tomás passa a revisitar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento diz que as species estão nas mentes de duas maneiras apenas, ou como causa exemplar, quando a mente as cria (como o compositor cria a sinfonia em sua mente antes mesmo de escrevê-la na partitura, e sabe, em sua mente, se a partitura foi alterada por terceiros e já não corresponde à sua intenção original, ou como Deus cria todo o universo), ou como resultado de um processo de aprendizagem, como efeito da assimilação do objeto de conhecimento por alguma inteligência. E os anjos, segundo o argumento, estariam neste último grupo.
Mas não estão apenas de duas maneiras; há uma terceira, diz São Tomás. As species, quer dizer, o conhecimento das criaturas, estão na mente dos anjos não por um processo de aprendizagem, nem como autores de alguma criação, ou seja, por exemplariedade, mas de outro jeito. Eles recebem diretamente de Deus todas as razões de todas as coisas, ao serem concebidos e criados. Se Deus é o compositor do universo, os anjos seriam como músicos que recebessem em primeira mão a partitura, antes mesmo que ela fosse executada. Claro que a comparação é limitada, já que os próprios anjos são criaturas; mas a imagem permite que compreendamos, por exemplo, o que Santo Agostinho quer nos dizer quando afirma quea inteligibilidade de todas as criaturas está em primeiro lugar na mente de Deus, antes mesmo que ela seja criada, e está mais propriamente ali do que na própria criatura; e que, mesmo antes que a criatura exista concretamente, a sua inteligibilidade é dada a conhecer aos anjos.
O segundo argumento afirma que, se o intelecto agente do ser humano é capaz de extrair a inteligibilidade das próprias criaturas que examina, muito mais o intelecto angélico, que é muito mais potente, o seria. Assim, o argumento afirma que os anjos extraem das próprias coisas as species pelas quais conhecem.
Todo caminho, apar ser percorrido do começo ao fim, deve passar pelos pontos intermediários, diz Tomás em resposta a este argumento. Assim, o processo de aprendizagem humana vai do exame da coisa em sua materialidade, no início, com a formação do fantasma, que é a imagem que se fixa na memória pela coordenação das experiências sensíveis, no meio, e por fim o exame do fantasma pelo intelecto agente, de modo a abstrair dele as condições particulares em que se formou e chegar ao conhecimento intelectual. Portanto, se o anjo tivesse que passar por este processo de aprendizagem tão humano, faltaria a ele o ponto de partida: os órgãos dos sentidos, com os quais pudesse examinar empiricamente a realidade para formar o fantasma na imaginação. Ele não teria outro caminho para extrair das coisas materiais particulares as formas inteligíveis, a não ser o do exame e aprendizagem. Portanto, seria impossível que o anjo percorresse este caminho. Mas mesmo que de alguma maneira inesperada ele pudesse extrair o conhecimento inteligível diretamente das coisas concretas, ele não o faria, simplesmente porque não precisaria: ele já tem, naturalmente, este conhecimento.
Por fim, o terceiro argumento diz que apenas o conhecimento obtido empiricamente garante a apreensão das respectivas condições de tempo e espaço, já que, se tivesse apenas o conhecimento abstrato, o anjo seria incapaz de se localizar e se locomover no mundo material, o que, como já vimos nas questões anteriores, ele é capaz de fazer. Assim, o argumento conclui que o anjo intelige aprendendo empiricamente.
Tomás responderá que, de fato, o conhecimento do anjo é independente de circunstâncias de tempo e lugar; é um conhecimento intelectual, não empírico. Mas isto não significa que o anjo não consiga situar-se no mundo material. Mas o anjo se relaciona com o mundo material com seu poder, com sua vontade, para agir, não para aprender.
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