Mais uma vez (e será assim para esta questão 55 toda) precisamos lembrar daquela parábola do compositor, o maestro e a plateia. Deus conhece como o compositor, contemplando em si mesmo a sua obra. Ele não precisa da partitura nem da orquestra para saber sobre todas as coisas, simplesmente porque as concebeu na sua própria inteligência desde toda a eternidade. Já vimos, no artigo anterior, que o anjo não conhece as coisas como compositor, porque não foi ele quem as concebeu em sua própria inteligência.

No presente artigo, a discussão é se o anjo intelige as coisas de modo análogo à plateia, ou seja, se ele precisa contemplar e examinar as coisas para conhecê-las; se ele precisa aprender sobre as coisas, mediante uma exploração empírica, submetendo-as a exame para descobrir o que elas são, como nós, humanos, fazemos.

Nunca é demais lembrar a noção de espécie, ou species, que em Tomás é muito diferente do que a noção de espécie que temos hoje. Uma espécie é o próprio arquétipo da coisa, ou seja, a species é a própria coisa em sua inteligibilidade. Não é, como na nossa ideia contemporãnea de espécie, um mero conceito para agrupar seres semelhantes. A espécie, para Tomás, é a própria essência da coisa em sua abstração. Assim, a espécie humana está, como arquétipo, na mente de Deus; a mesma espécie humana está, como indivíduo, em cada ser humano, que a realiza concretamente na sua materialidade mas não a esgota. E a mesma espécie humana está na mente da inteligência criada que a conhece. Por isto, posso dizer que, quando eu aprendo o que é a espécie humana, eu passo a conhecer, na minha mente, o que é um ser humano, e a espécie humana passa a existir em minha inteligência. Não arquetipicamente, como em Deus, nem concretamente, como em cada indivíduo da mesma espécie, mas intencionalmente, vale dizer, como um direcionamento da minha mente à coisa efetivamente conhecida. Aprender, portanto, é assimilar espécies, recebê-las em nossa inteligência.

A hipótese controvertida, aqui, para causar o debate, é a de que os anjos conhecem mediante informações obtidas a partir do exame das próprias coisas; ou, falando mais tecnicamente, eles inteligem por espécies que recebem das coisas. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento objetor lembra que, quando se conhece, há uma assimilação do conhecido pelo conhecedor, de tal modo que a mesma species que existe concretamente no conhecido passa a existir intencionalmente na inteligência do conhecedor. Ora, prossegue o argumento, só há duas maneiras pelas quais a própria forma de uma coisa pode existir em outra, que são: 1) como causa exemplar, vale dizer, quando a mente que conhece é também a mente que concebeu a própria coisa conhecida. Assim, a mente do compositor é causa exemplar de todas as edições das partituras das sinfonias que ele próprio concebeu. Afinal, todas as edições têm que guardar identidade com a ideia que está na sua mente. Assim é a realidade criada, com relação à mente de Deus: as espécies de todas as coisas, antes de estarem nas próprias coisas, estão na mente de Deus como causa exemplar da criação. 2) Como intencionalidade, ou seja, similitude; vale dizer, quando a própria coisa, ao ser examinada empiricamente pelo ser inteligente, causa nela o conhecimento, imprimindo-se em sua inteligência assim como é. Mais uma vez, ressaltemos que não se trata aqui de uma representação, de uma imagem ou de um conceito, mas da mesma forma que, estando na mente de Deus e na coisa, imprime-se agora na mente do conhecedor. E o argumento prossegue, constatando que o anjo não é causa exemplar das coisas existentes, porque não foi ele quem as criou. Logo, diz o argumento, devemos concluir que ele conhece as coisas pela similitude que as próprias coisas imprimem em sua inteligência.

O segundo argumento compara a inteligência do anjo com aquela estrutura da inteligência humana (que já estudamos em outros textos, especialmente na questão 54) chamada de intelecto agente. O intelecto dos anjos, diz o argumento, é mais poderoso do que o intelecto humano; logo, diz o argumento, é necessariamente mais poderoso do que o intelecto agente humano. Ser mais poderoso significa poder fazer tudo o que ele faz e ainda poder fazer mais, prossegue. Ora, mas se o intelecto agente do ser humano consegue extrair a inteligibilidade das coisas a partir do exame das imagens formadas em nós pela exploração empírica que nós, humanos, fazemos da realidade à nossa volta, então com muito mais razão, diz o argumento, temos que admitir que o intelecto dos anjos consegue extrair tal inteligibilidade das próprias coisas com as quais se depara; então o anjo conhece a partir da informação que recebe pelo exame das próprias coisas a serem conhecidas, conclui.

Por fim, o terceiro argumento lembra que aquilo que está no nosso intelecto, está ali como abstração, como universal, e portanto dissociado de todas as circunstâncias de tempo e lugar que condicionam os seres individuais. Mas como estas informações abstratas são recebidas, por nós, a partir do exame das coisas concretas, nós sabemos situá-las (e situar-nos) no espaço e no tempo, porque sabemos onde e quando conseguimos aquelas informações, mesmo as mais abstratas. Ora, prossegue o argumento, se os anjos não adquirissem seu conhecimento a partir do exame das coisas concretas, mas possuísse apenas o conhecimento universal e abstrato das coisas, então as noções de tempo e espaço não fariam nenhum sentido para ele, e ele não teria como interagir concretamente ou exercer seu poder sobre as coisas individuais que efetivamente existem, o que, como sabemos por debates anteriores, o anjo faz. Logo, é imperioso, conclui o argumento, que o anjo obtenha seu conhecimento a partir do exame das coisas concretas.

O argumento sed contra cita simplesmente a autoridade do Pseudo-Dionísio, que, falando do conhecimento que os anjos têm das coisas, assegura que eles não é a partir do exame das coisas sensíveis ou divisíveis que os anjos obtém o conhecimento que têm, mas seu conhecimento tem origem divina.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.