Como é que os anjos conhecem o mundo? No último texto, usei uma analogia do compositor, do maestro e da plateia; o compositor conhece a sinfonia em sua alma mesma. O maestro a conhece pela partitura, antes mesmo de ouvi-la. A partir dessa analogia, poderíamos dizer: Deus conhece o mundo olhando para si mesmo, como o compositor conhece a sinfonia. Nós conhecemos o mundo, metaforicamente, como a plateia que vê a sinfonia sendo executada. E os anjos? Como podem conhecer as coisas? Eles não fizeram o mundo, nem têm corpo para conhecê-lo sensivelmente. Teriam que ter algum tipo de “partitura”, como o maestro, no exemplo acima. Que partitura é esta?

Esta resposta vai ser dada ao longo de toda a questão 55. No presente artigo, ficará claro, apenas, que o anjo não é como o compositor; ele estaria numa posição mais análoga à do maestro. Vamos à resposta sintetizadora de São Tomás.

Ele vai começar lembrando a importância da forma na sua teoria do conhecimento. Sabemos que o binômio matéria – forma é um dos binômios fundamentais da sua visão do mundo. Ora, quando o intelecto conhece, o objeto do conhecimento está para o intelecto como forma. Aquilo que faz o intelecto conhecer alguma coisa, portanto, é a forma da coisa que está no intelecto do sujeito do conhecimento. No nosso exemplo acima, a forma é a própria sinfonia; ela está na mente do compositor, está na partitura que o maestro recebe e está na execução da orquestra. Trata-se da mesma forma; metaforicamente falando, portanto, a forma está na coisa e está também naquele intelecto que conhece aquela coisa. É a mesma forma, que está nos dois, portanto; mas está em cada um de um modo diferente. Como a mesma sinfonia está na mente do compositor, na partitura e na execução da orquestra, aquela flor no meu jardim está como concepção na mente de Deus, como flor no meu jardim e como conhecimento na minha mente. Mas nos três casos é a mesma forma, a forma da flor, que está nos três casos. Como substância divina em Deus, como ser material na natureza, como abstração intencional em minha mente.

Entra, agora, um outro binômio fundamental: o binômio ato – potência. A forma de qualquer ente existente é sempre ato. Nos seres materiais, a matéria é plenamente potencial. Logo, ela pode assumir qualquer forma, exatamente porque a matéria-prima está desprovida de qualquer forma. É por isto, diz Tomás, que qualquer forma de ente material que exista no mundo não esgota a potencialidade da respectiva matéria. É fácil entender isto se pensarmos no ciclo alimentar: as substâncias minerais presentes no solo são absorvidas pelas plantas, que, por seu turno, são comidas pelos herbívoros, que, por seu turno, são alimento dos carnívoros. Estes, quando morrem, são decompostos por fungos, bactérias e pequenos animais, que deixam os resíduos no solo – e por seu turno o solo sustentará novos vegetais, e assim por diante. A mesma matéria, portanto, adquire diversas formas neste processo. É por isto que Tomás afirma que, nos seres corruptíveis, as formas não esgotam jamais a potência da matéria, porque esta potência se estende para mais coisas do que a forma pela qual existe num determinado momento. A mesma matéria que agora está na planta mais tarde estará num corpo animal, depois num fungo, depois de novo no solo e assim por diante.

Esta é a relação da forma com a matéria nos seres materiais

Lembremos, agora, que, no processo de conhecimento, a forma do objeto inscreve-se no intelecto, onde passa a existir como ente de razão. O intelecto seria, analogicamente, a matéria-prima na qual a forma conhecida se inscreve como atualidade. Tomando, agora, o intelecto, analogicamente, como a matéria do processo de conhecimento, lembramos que, na questão 54, já determinamos que o intelecto do anjo não é a sua essência, mas apenas um dos aspectos da estrutura do seu ser.

O intelecto angélico está aberto à verdade; isto significa que ele tem a capacidade potencial de conhecer todas as coisas. Isto significa que o intelecto do anjo pode ter em si todas as formas criadas, porque tem a capacidade de conhecer todas elas. Nenhuma forma em especial pode esgotar a capacidade cognitiva dos anjos.

E eis aqui a importância de diferenciar, nos anjos, sua essência de seu intelecto. Quanto à essência, que é a forma mesma do anjo, ela esgota completamente a potencialidade de existir do anjo. Assim, a forma do anjo, pela qual o anjo é o que é, ou seja, existe como existe, é apenas a forma do anjo e nada mais. Todas as formas que existem no seu intelecto, portanto, são formas diversas da forma angélica pela qual ele é. Ele é do gênero angélico, e é o único de sua espécie. Por isto, todas as outras espécies que estão no seu intelecto são diversas dele mesmo.

Mas não é assim com Deus. A essência de Deus é existir. Ele não está em nenhum gênero e em nenhuma espécie, mas todos os gêneros e espécies estão nele. Para voltar àquela analogia com o compositor, diríamos: a criação é como uma imensa sinfonia que está, em primeiro lugar, na mente do criador. Assim, Deus não conhece as coisas por formas que são diferentes dele mesmo, uma vez que todas as formas estão antes nele do que nas coisas.

Por isto, Deus conhece todas as coisas em sua essência mesma. O anjo, por outro lado, precisa que as formas das coisas, as suas espécies (species, como termo técnico do conhecimento) estejam no seu intelecto, atualizando-o, Como algo diferente de sua essência mesma. Usando a velha analogia, o anjo conhece a sinfonia porque recebeu a partitura.

Havendo lançado os fundamentos para enfrentar o debate, São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento cita o Pseudo-Dionísio, que afirma que é por sua própria natureza que os anjos conhecem as outras criaturas. Mas se a natureza do anjo é a sua essência mesma, o argumento conclui que é por sua essência que os anjos conhecem as coisas.

Mas São Tomás vai responder simplesmente que a capacidade de conhecimento do anjo está, de fato, na sua essência: ele é um ser essencialmente intelectual, quer dizer, um ser que conhece. Mas o fato de que a capacidade de conhecer está em sua essência não faz significar que o próprio objeto de conhecimento esteja em sua essência. Aquilo que o anjo conhece, conhece-o por meio de uma species que é diversa da sua essência mesma. Mantendo a analogia, diríamos que o anjo tem que ter a partitura para conhecer a sinfonia do universo.

O segundo argumento cita Aristóteles, quando afirma que, nos seres imateriais, a inteligência se identifica com aquilo mesmo que é inteligido, ou seja, nos seres imateriais o conhecedor se faz um com o objeto do conhecimento. Assim, o argumento conclui que nos anjos o objeto de conhecimento é idêntico à própria essência do anjo.

A resposta de Tomás é muito técnica e parece complexa, mas é simples, se pensarmos em termos de ato e potência.

Pensemos nos órgãos dos sentidos. Vamos imaginar que alguém nunca tocou, com os próprios dedos, numa lixa. O tato está em potência para a textura da lixa; como a própria lixa está em potência para ser conhecida por aquela pessoa. Quando o dedo toca a lixa, o seu tato fica em ato para a textura da lixa, que passa a ser conhecida pela pessoa; a própria aspereza da lixa torna-se atual, no dedo daquela pessoa. Mas não é que o dedo se torne a lixa. É que a potencialidade para perceber a aspereza, que naquele dedo era potencial, passa a ser atual, quando a própria forma da lixa une-se à capacidade táctil do dedo, tornando-se com ele uma coisa só, como conhecimento sensível.

Na inteligência dá-se algo análogo. O conhecimento intelectual em ato é o encontro entre a inteligibilidade da coisa e a capacidade de conhecer do sujeito. Não é a própria coisa, por sua substância, que está no intelecto daquele que a conhece; quem conhece uma pedra, por exemplo, não carrega uma pedra, materialmente falando, dentro da mente. Mas o conhecimento da pedra consiste na abstração da species, ou seja, da própria forma da pedra, que passa a existir na mente do conhecedor, de modo intencional, tornando-se um com ele. Ora, se o conhecedor for uma inteligência sem matéria, uma vez que o próprio conhecimento é uma forma sem matéria, então fica ainda mais clara esta unidade entre conhecedor e conhecido, já que ambos tornam-se um no conhecimento – mas não em essência. Resgatando aquela analogia da sinfonia, diríamos que o maestro, ao estudar a partitura, passa a ter em sua mente a música; mas isto não significa que a música agora seja de sua autoria. Ele conhece em si a música, mas sabe que ela, substancialmente, se originou em outra mente. Como conhecimento, aquela música se faz um com ele. Mas em termos substanciais, a música é de outro.

Por fim, o terceiro argumento parte da ideia, muito escolástica, da hierarquia do ser. Há uma velha regra escolástica que diz que tudo o que existe em outro, existe ao modo deste outro. Assim, se a sinfonia existe no compositor, existe ali como uma ideia numa mente. Se ela existe na partitura, existe como um conjunto de símbolos num suporte material. E se ela existe na orquestra, existe como vibrações sonoras musicais. Assim com as coisas: a pedra existe em Deus como concepção, existe no mundo físico como um ente material e existe em mim como forma intencional abstrata. Mas o argumento prossegue, dizendo que, pela hierarquia dos seres, os seres inferiores existem no superior essencialmente, mas o ser superior existe no inferior apenas por participação. É assim que a essência de todas as coisas existe de fato em Deus, que é o superior, mas a semelhança de Deus existe nas criaturas apenas como participação, ou seja, analogicamente. Ora, prossegue o argumento, o anjo é a criatura mais perfeita, superior a todas as outras; assim, as coisas que ele conhece devem estar nele substancialmente, conclui.

Voltando novamente à sua bela teoria do conhecimento, Tomás nos esclarece que as coisas que o anjo conhece estão, de certa forma, na sua substância, sejam elas superiores ou inferiores. Não estão, porém, de modo perfeito, ou pela razão própria, porque o próprio anjo é distinto delas. O anjo é outra coisa com relação àquilo que conhece, porque sua essência mesma é limitada, e é a essência de um anjo, não de pedras, ou planetas, ou qualquer outra coisa. Em Deus, as coisas estão propriamente por sua razão mesma, pelo fato de que ele mesmo as fez.

Esta resposta dá margem àquela velha analogia com o compositor (Deus) e o maestro (os anjos), que já revisamos tantas vezes.

É certo que a resposta continua parecendo um pouco misteriosa. Mas é porque ela só ficará clara nos próximos artigos, nos quais veremos que os anjos são criados já com todas as species inscritas nele, e é por estas species que ele conhece todas as coisas. É como se eles fossem maestros que já nascessem com as partituras inscritas nas suas próprias mentes. E é assim que conhecem todas as coisas. Mas não vamos adiantar: esta discussão acontecerá nos próximos artigos.