Os animais conhecem as coisas sensivelmente. O que significa que eles conhecem os cheiros, as aparências, os timbres de voz, as texturas, enfim, tudo aquilo que os sentidos podem apresentar. Mas este é um conhecimento estritamente concreto e individual, porque é um conhecimento estritamente sensível. Este é o conhecimento próprio dos animais.
Por outro lado, há um conhecimento universal, abstrato, englobante, no qual o particular é apenas uma instância do universal, e o tempo e o espaço, ou qualquer outro fato de individuação, são menos importantes. Ele é, portanto, um conhecimento desvinculado da experiência sensível. Este é o conhecimento intelectual. Uma vez que é característico deste conhecimento o fato de ser desvinculado das categorias de tempo e espaço, de concretude, individualização e sensação, este é um conhecimento eminentemente imaterial. Próprio, portanto, dos anjos.
Os seres humanos têm o conhecimento sensível e o conhecimento intelectual, fortemente entrelaçados – um leva ao outro, o outro reinterpreta o primeiro. E os anjos? Teriam eles conhecimento sensível das coisas? Seriam capazes de experimentar as coisas?
Esta é a hipótese controvertida, aqui. Parece que os anjos não têm somente o conhecimento intelectual, mas têm também o conhecimento sensível da realidade. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento lembra que, em certa passagem de uma obra sua, Santo Agostinho diz que “nos anjos há vida que entende e sente”. Ora, desta citação o argumento conclui que o próprio Santo Agostinho reconhece que haveria conhecimento sensível nos anjos.
O segundo argumento cita Santo Isidoro. Para ele, “os anjos conhecem muita coisa por experiência”. Ora, prossegue o argumento, a experiência envolve os fatos que estão na memória; mas sabemos que a memória é uma estrutura com base material, e que envolve o armazenamento das informações sensíveis. Com isto, o argumento conclui, a partir da autoridade de Santo Isidoro, que os anjos não somente têm conhecimento sensível, mas também têm memória das experiências concretas que viveram.
Por fim, o terceiro argumento cita o Pseudo-Dionísio, que afirma que existe um tipo de fantasia pervertida nos demônios. Ora, diz o argumento, a fantasia pervertida é uma espécie de ilusão causada pela imaginação. Ocorre que a imaginação é uma faculdade relacionada com a matéria, com a sensibilidade, porque envolve a combinação de dados sensíveis. Assim, diz o argumento, segundo ensina este grande autor eclesiástico, uma vez que anjos e demônios têm a mesma natureza (a natureza angelical), todos eles teriam imaginação, e portanto teriam conhecimento sensível.
O argumento sed contra recorre à autoridade de São Gregório, que diz que os seres humanos sentem, como os animais, e inteligem, como os anjos. Portanto, segundo este argumento, nem os animais inteligem, nem os anjos conhecem por modo sensível; vale dizer, os anjos têm apenas o conhecimento intelectual.
Postos os termos do debate, São Tomás passa a oferecer sua própria resposta sintetizadora.
A alma humana tem determinadas capacidades que são relacionadas a órgãos corpóreos. Quando uma capacidade humana é relacionada a um órgão, ela é exercida sempre através daquela parte do corpo que é o órgão. Assim, por exemplo, a visão, que é a capacidade que temos de enxergar, é relacionada com os olhos, e a audição, com os ouvidos.
Mas há certas capacidades humanas que não são relacionadas a algum órgão determinado do nosso corpo. É o caso da inteligência, como é também o caso da vontade. Quando eu conheço ou aprendo alguma coisa, sou eu que conheço, sou eu que aprendo; não é simplesmente o meu cérebro que conhece. Do mesmo modo, quando eu quero alguma coisa, sou eu que quero, não apenas o meu cérebro nem apenas o meu coração. Para estas duas capacidades, portanto, não há um órgão corporal que as exerça com exclusividade. Precisamos ficar atentos aqui: não estamos falando do conhecimento empírico, nem da inclinação dos apetites, mas do conhecimento intelectual e da vontade mesma. Temos a tendência, nós pessoas do século XXI, a relacionar o intelecto e a vontade com o cérebro. É uma associação errônea; redutiva e insuficiente. É certo que usamos nosso cérebro para operar muitas capacidades relacionadas com a inteligência e a vontade; elas mesmas, porém, não estão adstritas ao cérebro.
Os anjos, como já vimos, são seres incorpóreos. Assim, nenhuma capacidade humana diretamente relacionada com algum órgão corporal seria compatível com a natureza imaterial dos anjos. Portanto, de todas as capacidades humanas, apenas a inteligência e a vontade, por não estarem adstritas à matéria, seriam convenientes aos anjos.
Os anjos são as criaturas mais parecidas com Deus, lembra Tomás. São espirituais, imateriais, incorpóreas, inteligentes e com vontade. É muito adequado, portanto, que as criaturas mais perfeitas tenham esta perfeição sem mistura; assim, é conveniente que a criatura mais intelectualmente perfeita tenha a inteligência de modo puro, sem mistura com a sensibilidade. Nós, seres humanos, temos uma inteligência misturada com a sensibilidade animal. Nos anjos, a inteligência ocorre puramente, a ponto de serem chamados mesmo de Intelectos ou Inteligências, como já vimos em textos anteriores.
Lembramos, agora, das três objeções iniciais. A primeira é a que cita Santo Agostinho, que afirmou, numa oportunidade, que os anjos “inteligem e sentem”. A segunda cita Santo Isidoro, que afirmou que os anjos aprendem por experiência, ou seja, têm memória dos dados sensíveis. A terceira cita o Pseudo-Dionísio, que afirma que há algo como uma “fantasia degenerada” nos anjos maus; mas a fantasia é função da imaginação, que é a capacidade de reunir dados sensíveis de modo ordenado, e disto o argumento conclui que os entes que são puros espíritos inteligentes (anjos ou demônios) têm conhecimento sensível.
São Tomás diz, então, que vai responder a todas as objeções de uma só vez, considerando duas coisas:
1) A grande fonte de equívocos neste assunto tem sido imaginar que os anjos e demônios têm alguma espécie de corpo, como elemento do seu ser; a relação deles com a realidade circundante, então, seria no fundo uma relação do tipo corpóreo, envolvendo sensações, imaginação e memória; ora, estes três aspectos, sensibilidade, imaginação e memória, são aspectos profundamente fundamentados na matéria, e, em seu sentido próprio, apenas na matéria podem existir. Alguns grandes escritores eclesiásticos não conseguiram se livrar completamente desta noção, nem sempre consciente, de que os aspectos do conhecimento próprios dos seres materiais devessem estar de alguma forma presentes nos anjos. O próprio Santo Agostinho, diz Tomás, algumas vezes cai nesta tentação, embora sem jamais afirmar tais aspectos como coisa consumada e verdadeira. O próprio Agostinho diz, em suas obras, que não iria gastar muito tempo com estes assuntos. Em todo caso, se não conseguirmos purificar nossas concepções sobre os anjos, nunca nos livraremos da tendência de projetar neles o modo animal e humano de conhecer, que envolve sensibilidade, imaginação e memória, coisas incompatíveis com a natureza estritamente espiritual daqueles seres.
2) A segunda fonte de erros, aqui, é a de tomar por unívocas certas expressões que, aplicadas a anjos e a seres humanos, podem ser tomadas apenas como análogas ou mesmo metafóricas. Assim, de fato, podemos admitir dizer que, quando nos deparamos com a verdade em nosso intelecto, o nosso juízo crítico, que é estritamente intelectual, possa de certa forma “sentir” que ali está a verdade; e é por causa dessa expressão analógica que chamamos os juízos verdadeiros de “sentenças”; há, portanto, uma certa “sensibilidade” estritamente espiritual, que leva a admitir, por exemplo, que os anjos possam alegrar-se com o bem e desesperar-se com o mal, sem que estes movimentos sejam relacionados a paixões corporais ou sentimentos no sentido estrito, físico, do termo. Assim, quando dizemos que os anjos não têm sensibilidade, não queremos dizer que eles são frios como gelo, incapazes de reagir ao bem com afinidade e ao mal com repulsa, mesmo porque, se fosse assim, não poderíamos distinguir entre os anjos bem-aventurados na alegria celeste, por um lado, e os demônios condenados ao desespero do inferno, do outro. É preciso, porém, lembrar que estes movimentos não têm o mesmo significado, o mesmo conteúdo, nos seres humanos e nos anjos. Eles são apenas análogos; nos seres humanos, a bem-aventurança envolve o corpo, integra a sensibilidade e a purifica, de tal modo que nunca teremos uma felicidade completa apenas no plano espiritual, e a ressurreição dos corpos será sempre pressuposta, para o gozo integral da felicidade final pelos humanos. Mas os anjos são capazes desta felicidade completa ou desta desesperança completa apenas na espiritualidade dos seus seres.
O mesmo se pode dizer da memória, que envolve a capacidade de experimentação e retenção da informação sensível. Os anjos, sem dúvida, caminham na sucessão de eventos e estão cientes de que esta sucessão existe; ademais, são capazes, por caminhos diferentes dos nossos, de conhecer e reter as informações sobre as coisas particulares e contingentes, que hoje existem e amanhã não existem mais. Mas esta percepção da sucessão de eventos e da singularidade dos seres com os quais se deparam no mundo material não tem a mesma natureza que a memória nos seres humanos. Em nós, há também a retenção dos conhecimentos intelectuais na própria alma, no intelecto possível, que é diferente da memória física; esta se perde por doença, pelo tempo ou mesmo pela morte. Aquela não. Assim, apenas de modo análogo pode-se dizer que há experiência e memória nos seres espirituais, como os anjos.
Por fim, a questão da imaginação deturpada, ou pervertida. Em sentido próprio, esta expressão diz respeito à falta de prudência, nos seres humanos, para lidar adequadamente com o material sensível que lhe chega à imaginação, fazendo com que nossas estimativas estejam equivocadas, deturpadas, como no caso dos delírios ou dos sonhos, ou sejam simplesmente más. É por isto que tendemos a deturpar os fatos do passado, lembrar seletivamente das coisas que nos incomodam ou agir mais com base em nossas expectativas pecaminosas do que no princípio de realidade mesmo. Neste sentido, trata-se de uma característica do ser humano, porque relaciona-se com nossa imaginação, nossa sensibilidade e nossa memória. Mas nos anjos maus, lembra Tomás, podemos falar metaforicamente numa certa “fantasia pervertida”, não porque eles estimem ou imaginem erradamente a realidade, mas porque trocaram o bem absoluto, que é Deus, pelo mal, excluindo-se da verdadeira vida.
Ou então, de outro modo, pode-se responder que tais autoridades, e outras semelhantes, devem ser interpretadas como por comparação. Pois, assim como o sentido tem apreensão certa do sensível próprio, assim é costume dizer-se que também o intelecto sente as coisas por uma apreensão certa, chamada, igualmente, sentença. Porém a experiência, podendo ser atribuída aos anjos, por semelhança das coisas conhecidas, não o pode pela virtude cognoscitiva. Assim, há em nós experiência quando conhecemos o singular pelos sentidos; mas os anjos, embora conheçam o singular, como a seguir se verá8, não o conhecem pelos sentidos. A memória, contudo, podemos admiti-la, nos anjos, na acepção que Agostinho a admite em a nossa alma, se bem não lhes possa convir considerada como parte da alma sensitiva. Semelhantemente, a fantasia proterva é atribuída aos demônios por termo uma falsa estimação prática do verdadeiro bem; pois, o engano, em nós, propriamente resulta da fantasia, pela qual, à vezes, tomamos as semelhanças das coisas pelas próprias coisas, como acontece com os adormecidos e os loucos.
Portanto, é preciso que tomemos muito cuidado ao falar dos anjos, ao concebê-los. Teremos que usar termos de modo análogo, ou mesmo metafórico, para descrever realidades, neles que estão fora ou além da nossa própria capacidade de expressão unívoca. Não devemos, porém, permitir que isto nos leve a concepções errôneas, quer da natureza angelical, quer da nossa própria.
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