Na questão anterior, debatemos muito sobre a estrutura do intelecto angélico, e vimos que o intelecto é, sem dúvida, a estrutura mais importante no ser angélico, mas não é a própria substância do anjo, nem sua essência, nem sua existência. O anjo não é uma inteligência subsistente, que constrói a si mesmo por meio do próprio pensamento, mas uma criatura que recebe de Deus sua essência e sua existência.
A presente questão discutirá, agora, a maneira pela qual o anjo sabe. Vimos, nos debates da questão anterior, que a inteligência humana é uma tábua vazia que recebe toda a informação por meio da exploração sensorial do mundo, e extrai a inteligibilidade das coisas a partir do contato físico com seus acidentes. Ou seja, o corpo é o meio pelo qual nós, humanos, aprendemos. Mas e os anjos? Eles não têm corpos em sua composição ontológica. Como podem saber, como podem aprender? É exatamente o que veremos nesta questão, começando por este primeiro artigo.
Como se trata de uma questão sobre uma teoria do conhecimento que não nos é familiar, vamos começar com uma pequena analogia, para entender onde estamos pisando. Vamos imaginar que Mozart, o grande compositor, foi chamado para assistir a uma apresentação de uma orquestra estrangeira, regida por um jovem maestro, que executaria uma composição sua. Mas a apresentação é peculiar: o maestro não tinha as partituras de Mozart, mas cópias de péssima qualidade que não eram fiéis aos originais. Ora, a plateia, que não conhecia a música original, achou a apresentação muito boa, porque o maestro era um bom maestro e os músicos eram bons músicos, e a música transcrita na partitura, mesmo não sendo fiel ao original, era ainda boa música. Mas Mozart levantou enfurecido, e disse: o que vocês tocaram não é a minha música.
Fazendo uma pequena análise deste caso, constatamos o seguinte: o maestro conhecia a música de Mozart pelas partituras que recebeu. A plateia conheceu aquela música como sendo de Mozart, pela audição da execução realizada pela orquestra. O próprio Mozart, porém, não conhecia aquela música nem por causa da partitura, nem por causa daquela desastrosa execução; a música era criação sua, parte da sua substância mesma, tanto que, ao ouvi-la pela primeira vez executada pelo próprio Mozart, sua esposa dissera: “sim, esta música é realmente Mozart!”. Assim, mesmo em face das partituras e daquela execução desastrosa, Mozart mesmo era a única pessoa capaz de dizer: esta partitura é falsa, esta execução é ruim”, porque o conhecimento que ele tem daquela música não vem da partitura nem da execução, mas de si mesmo. Fazendo agora uma analogia com esta pequena parábola, diríamos que Mozart conhece aquela música de modo análogo àquele pelo qual Deus conhece a sua criação: examinando a si mesmo e vendo, no seu intelecto, qual a concepção original da peça. O maestro conhece a música porque recebe do compositor a partitura, e é capaz de lê-la e solfejá-la mentalmente, antes mesmo de ouvir a execução da peça. Ele conhece aquela música de um modo análogo àquela pela qual o anjo conhece as outras criaturas, independentemente de experimentá-las de modo sensível. E a plateia, que tomará contato com aquela música através da execução da orquestra, conhece aquela música à maneira humana, por recebê-la através dos sentidos, enquanto era executada. No caso do compositor, a música não é outra coisa do que uma parte do seu intelecto mesmo. No caso do maestro, o conhecimento que tem da música, ao solfejar mentalmente, é diferente do seu intelecto mesmo; a música, embora tenha sido aprendida por ele, permanece nele como algo estranho ao seu ser.
Postos estes pequenos esclarecimentos a título de introdução, vamos examinar agora estes artigos da questão 55. Esta questão trata dos meios pelos quais o anjo conhece. O anjo conhece como o compositor conhece sua obra, como o maestro que examina uma partitura ou como um espectador que ouve a música da plateia?
A hipótese controvertida, aqui, é a de que o conhecimento do anjo se dá por meio de sua substância mesma. Ele teria, das coisas criadas, um conhecimento parecido com aquele que o compositor tem de sua obra: examinando o seu intelecto, ele conhece as coisas independentemente de qualquer relação com ela. A hipótese tem lá seus encantos: já ficou claro, na questão 54, que os anjos não conhecem as coisas, como nós, através da experiência sensorial. Então, já que ele não possui sentidos para interagir com as coisas, a hipótese controvertida propõe que a única maneira que ele tem para conhecê-las é examinando a si mesmo. Todo o conhecimento do anjo se daria, portanto, por meio de sua substância mesma, diz a hipótese. São três os argumentos no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento cita o pseudo-Dionísio, que teria afirmado que os anjos conhecem as outras criaturas através da natureza mesma de sua mente. Ora, prossegue o argumento, a natureza do anjo é a própria essência angelical. Assim, o argumento conclui que o meio pelo qual o anjo conhece as coisas não é o exame da coisa, mas é o exame de sua substância angelical mesma.
O segundo argumento usa a teoria do conhecimento aristotélica. Sabemos que, para Aristóteles, o próprio conhecimento é imaterial. Assim, o argumento lembra que Aristóteles afirmava que, naqueles entes imateriais, o intelecto identifica-se com aquilo que é conhecido. Mas é claro que aquilo que se conhece, ou seja, o objeto do conhecimento, identifica-se com aquele que conhece, ou seja, com o sujeito do conhecimento, em razão do meio pelo qual se conhece. Portanto, juntando-se as duas afirmações, o argumento conclui que, sendo o anjo um ente imaterial, aquilo pelo que o anjo conhece identifica-se com sua própria substância.
Por fim, o terceiro argumento parte daquele conhecido princípio escolástico de que tudo o que está em outro, está ao modo deste outro. Voltando ao exemplo da música de Mozart, diríamos que a composição está no compositor como uma ideia, ou seja, espiritualmente, está na partitura como um registro, ou seja, documentalmente, e está na apresentação da orquestra como vibrações acústicas, ou seja, materialmente. Ora, prossegue o argumento, o anjo é um ser intelectual. Logo, todas as coisas que ele conhece estão nele como inteligidos. Ou seja, é a inteligibilidade mesma das coisas que está nos anjos, segundo o argumento. Ora, prossegue o argumento, se todas as coisas estão no anjo por sua inteligibilidade mesma, isto significa que o anjo contém em si o que há de mais profundo nas coisas. O argumento, então, recorre a mais uma citação do Pseudo-Dionísio, que diz que aquilo que é inferior está essencialmente naquilo que é superior, mas aquilo que é superior está naquilo que é inferior apenas por participação. Voltando ao exemplo parabólico de Mozart, o argumento diria que a sinfonia está substancialmente em Mozart, mas a partitura é apenas uma participação na mente de Mozart. O argumento lembra, então, que todas as coisas estão em Deus por sua substância mesma, mas Deus está nas coisas apenas por participação. Ora, conclui o argumento, se a inteligibilidade de todas as coisas está no intelecto do anjo, então todas as coisas estão em sua substância mesma, e é assim que ele as conhece.
Como argumento contrário, também há uma citação do Pseudo-Dionísio, que diz que os anjos são iluminados pelas próprias razões das coisas. Vale dizer, o conhecimento dos anjos se dá,segundo o argumento sed contra, pelas razões das coisas conhecidas, não pela substância do próprio anjo.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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