No texto anterior, vimos um pouco sobre o processo humano de aprendizagem, que pressupõe a relação sensível com as coisas individuais, a formação do “fantasma” (a imagem reconstituída das impressões sensíveis em nossa imaginação, que está em potência para a inteligibilidade) e a atuação de duas estruturas em nossa inteligência, o intelecto agente, que está em ato e é como uma lanterna que ilumina o fantasma, extraindo dele a sua inteligibilidade em ato, e o intelecto possível, que está em potência para o conhecimento, ficando em ato quando recebe a forma intencional da coisa inteligida. Vimos a hipótese controvertida de que estas estruturas existiriam também na inteligência angélica, e os dois argumentos objetores neste sentido. O primeiro é aristotélico, diz que todo ser vivente pressupõe, em suas operações de conhecimento, uma estrutura ativa e uma passiva para conhecer; e como o anjo é uma criatura inteligente, também pressuporia estas estruturas. O segundo argumento lembra que existem relações recíprocas de iluminar e receber, na comunicação entre anjos, em que o anjo mais elevado ilumina o inferior e este recebe a iluminação; isto demonstraria, segundo o argumento, que eles têm intelecto agente e possível em sua estrutura de conhecimento. Por fim, o argumento sed contra lembra que as estruturas chamadas intelecto agente e intelecto possível, nos seres humanos, existem com relação ao fantasma que formamos na imaginação, no processo de conhecimento; ora, como os anjos não formam fantasmas, eles não precisariam destas estruturas.

Examinamos agora a resposta sintetizadora de São Tomás.

Tomás segue e aprofunda a linha já apresentada no argumento sed contra. Na inteligência humana, o conhecimento está, fundamentalmente, em potência, ou seja, nós todos nascemos com a capacidade de conhecer, mas sem o conhecimento atual, real, efetivo, das coisas. Humanos precisam aprender. Esta capacidade passiva de conhecer, em nós, que é a capacidade de receber e reter as formas universais das coisas conhecidas, é chamada de intelecto possível.

Ocorre que as coisas existem, no mundo real, como seres individuais. Portanto, sua inteligibilidade, ou seja, a possibilidade de conhecê-los universalmente a partir do exame dos indivíduos da mesma espécie ou gênero, é apenas uma possibilidade, ou seja, nos indivíduos concretos a inteligibilidade da espécie ou do gênero, vale dizer, a sua universalidade, é apenas potencial.

Ora, por um lado, há uma inteligibilidade em potência dos entes. Por outro lado, um intelecto em potência dos humanos. Ora, nada pode passar da potência ao ato sem que haja uma causa eficiente em ato, capaz de fazer a atualização dos efeitos. Para dar um exemplo, imaginemos de um lado uma lata de tinta e do outro uma parede recém-construída. A lata de tinta é a cor em potência, e a parede é colorizável em potência; mas se não houver um pintor para passar efetivamente a tinta para a parede, a tinta vai ficar para sempre dentro da lata e a parede ficará para sempre sem cor. O pintor é a causa eficiente do colorido da parede, neste caso.

Assim, sé necessário admitir que, nos seres humanos, há uma estrutura em ato na inteligência, capaz de iluminar os inteligíveis potenciais e inscrevê-los no intelecto possível. Ele seria a causa eficiente de que aprendamos efetivamente sobre o mundo que nos cerca. O contato sensível com os seres individuais forma em nós o fantasma, na imaginação, que seria como a “lata de tinta” no exemplo acima. O intelecto agente seria, em nós, como o pintor, capaz de “colorir” (falando ainda metaforicamente) o intelecto possível com a inteligibilidade extraída do fantasma.

Ou seja, nosso intelecto está calibrado para conhecer as coisas com as quais podemos estabelecer uma relação sensível, por meio dos nossos sentidos. E estas coisas são, fundamentalmente, as coisas materiais. Vale dizer, a inteligência humana é uma inteligência em potência, cujo objeto natural de conhecimento são as coisas materiais. Nós chegamos ao conhecimento dos puros entes de razão, como os entes matemáticos, os entes lógicos ou os próprios anjos, como um conhecimento excepcional, derivado, não naturalmente calibrado para nós. Em suma, aprendemos pela experiência.

Nós, humanos, somos animais inteligentes, que aprendem a partir da sensibilidade. Os anjos não são animais. São inteligências imateriais, desprovidas de corpo. Portanto, os anjos não passam por este processo de aprendizagem que nós passamos. O intelecto dos anjos, portanto, não é uma tábua em branco. O seu conhecimento das coisas, aquilo que eles conhecem naturalmente, não é, portanto, um conhecimento adquirido. Mas, para os anjos, o objeto natural de conhecimento é diferente do nosso. Para eles, o individual, o particular, o sensível, não são objeto natural de conhecimento, mas o imaterial, o abstrato, o inteligível. Se eu pudesse ousar, diria que os anjos são profundos racionalistas ou idealistas, à moda de Descartes, Hegel ou Kant. Mas esta é uma observação minha; anacrônica e forçada.

Ora, se é assim, se os anjos não têm um processo de aprendizagem sensível, nem têm como objeto natural de conhecimento as coisas materiais, mas as coisas imateriais, diz Tomás, então os anjos não têm nenhum potencial em seu intelecto; aquilo que eles conhecem, conhecem em ato. Assim, não há razão para pleitear a existência de uma estrutura como o intelecto possível num ser que não tem potencialidades no intelecto. Por outro lado, não há razão de pleitear a existência de um intelecto agente num ser que não obtém seu conhecimento por meio do contato sensível com coisas cuja inteligibilidade está em potência. Os inteligíveis imateriais, que são o objeto natural de conhecimento do anjo, já estão em ato. Por isto, mesmo que se fale em alguma iluminação intelectual, ou mesmo em alguma recepção inteligível, no anjo, estes termos simplesmente não têm o mesmo sentido que o intelecto agente e o intelecto possível dos seres humanos; não são sequer realidades análogas àquelas. São, pois, descrições de fenômenos não comparáveis entre si, ou seja, fenômenos equívocos.

Colocados, pois, os termos da resposta, São Tomás passa a examinar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento é aquele que lembra Aristóteles, que defende que, em toda natureza, há sempre um princípio que faz e um princípio que recebe; assim também com a alma humana. Ora, diz o argumento, o anjo também é uma natureza, ou seja, uma essência que faz alguma coisa. Logo, nele, que é puro intelecto, teria que existir uma estrutura agente e uma estrutura possível, como nos seres humano.

Tomás vai nos explicar que Aristóteles está falando, neste caso, daquelas naturezas sujeitas à geração e à transformação. Mas anjos não estão sujeitos à geração de conhecimento, nem à transformação deste conhecimento ou à sua perda, como nós. Nos anjos, o conhecimento é natural e definitivo: anjos não aprendem nem esquecem. Assim a inteligência do anjo não precisa de uma estrutura agente e de outra estrutura passiva.

O segundo argumento parte da constatação de que, na relação entre os anjos, existe uma comunicação que se dá como iluminação e recepção: aquele anjo mais elevado, mais perfeito, é capaz de infundir as luzes do seu conhecimento naquele outro njo inferior, menos elevado; e este é capaz de receber esta iluminação como uma comunicação de verdades naturais ao anjo superior, mas além do anjo inferior. Assim, o argumento conclui que há, neles, intelecto agente, que ilumina, e intelecto possível, que recebe a iluminação.

Não é assim, diz Tomás. A estrutura do intelecto agente existe para extrair inteligibilidade das coisas sensíveis e iluminar, com esta inteligibilidade recebida, a mesma inteligência na qual ele existe. Tudo se passa, pois, no interior da mesma alma.

No caso do intelecto possível, trata-se de uma estrutura da alma humana que está em potência para o seu objeto próprio, que é o conhecimento de entes materiais por meio da sensibilidade; atualizando-se pela ação do intelecto agente.

Quanto aos anjos, quando eles iluminam, há uma relação entre mais de um anjo: ele sempre ilumina outro anjo, não a si mesmo. Não é, pois, uma estrutura interna de iluminação, mas uma relação, mesmo. Por outro lado, o objeto da iluminação angelical é sempre um objeto imaterial ou sobrenatural, portanto, não se trata do mesmo objeto do intelecto possível humano. Portanto, diz Tomás, não é o mesmo fenômeno, e se alguém quiser usar as mesmas palavras para descrevê-lo, estará a mudar a própria significação das palavras para fazê-las descrever fenômenos não homólogos nem análogos. Isto seria, pois, uma briga simplesmente semântica, que, uma vez esclarecidos os significados, não atrai Tomás. Ele não quer brigar por causa de palavras.