Aqui, mais uma vez, a discussão de São Tomás sobre a inteligência dos anjos é, acima de tudo, uma discussão profundamente antropológica. De fato, a forma pela qual Tomás retrata a inteligência angelical parece profetizar a forma pela qual, séculos mais tarde, uma parte da filosofia moldará, pelas teorias idealistas, uma teoria antropológica profundamente desencarnada, que de certo modo quer equiparar a inteligência humana com a inteligência angélica. São diferentes.

Vamos, portanto, adiantar um pouco um assunto que somente mais à frente será debatido por Tomás: a estrutura da inteligência humana. Somos animais inteligentes. Assim, aprendemos por meio dos sentidos. Nossos sentidos captam as informações do real, estruturam-nas e armazenam-nas na memória. Mas há uma questão, aqui: toda e qualquer informação sensível é, na verdade, uma informação individual: trata-se desta cor, daquela textura, deste som, deste cheiro, deste sabor, etc. Mas o conhecimento intelectual é sempre universal e abstrato. Portanto, os elementos que conhecemos sensivelmente são apenas conhecimento potencial quanto ao universal e abstrato. Assim, a nossa inteligência precisa ter uma estrutura capaz de iluminar os dados sensíveis, transformando a sua informação concreta em conhecimento intelectual atual. Ora, para levar alguma coisa da potência para o ato, é preciso que haja uma estrutura em ato, porque somente algo em ato é capaz de atualizar uma potência. Assim, na inteligência humana, existe uma estrutura em ato, que funciona como uma espécie de farol a iluminar os dados sensíveis e extrair deles sua inteligibilidade. O nome desta estrutura é intelecto agente.

Por outro lado, conhecer é receber na inteligência a forma da coisa, de modo universal. Abstraída das particularidades de tempo e espaço, a forma existe sem a matéria. Ora, em Deus as forma existem como originantes, porque Deus pensa nas coisas para que elas existam. Em nós, seres humanos, as formas puras existem como originadas do conhecimento sensível. Assim, há uma estrutura no intelecto humano capaz de receber estas formas assim como elas são na realidade, mas desprovidas de matérias. Esta estrutura receptiva do conhecimento humano, capaz de ser informado pelo conhecimento, chama-se intelecto possível. Ele está em potência para o conhecimento, e é nele que o intelecto agente deposita o conhecimento que obtemos. É assim que aprendemos.

Após esta rápida introdução, podemos introduzir agora a hipótese controvertida, que provocará o debate. Será que, na inteligência angelical, existem estas mesmas estruturas que encontramos na inteligência humana? Os anjos têm, em sua inteligência, um intelecto agente e um intelecto possível, como nós? Como os anjos aprendem?

São dois os argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento cita Aristóteles (o “Filósofo”, como o chama Tomás). Ele ensina que na alma, como em qualquer natureza, há sempre uma estrutura que pode tornar-se qualquer coisa (ou seja, que tem uma receptividade potencial), e uma estrutura que pode fazer com que ela venha a tornar-se algo (uma estrutura ativa, agente, portanto). Ou seja, o argumento explica a razão pela qual a inteligência humana deve ter, por natureza, um intelecto agente e um intelecto possível. Mas um anjo também faz parte da natureza, ou seja, é natiralmente intelectual. Logo, conclui o argumento, ele deve ter as mesmas estruturas que, por natureza, os entes intelectuais têm, vale dizer, o intelecto agente e o intelecto possível.

O segundo argumento explica que a função própria do intelecto possível é a de receber, e a do intelecto agente, de iluminar. Mas, dentre os anjos, prossegue o argumento, sabemos que há um relacionamento em que o mais elevado ilumina o menos elevado com seu conhecimento mais alto, e o menos elevado, por seu turno, recebe iluminação daqueloutro mais elevado. Ora, conclui o argumento, se entre os anjos há as funções intelectuais de iluminar e de receber, haverá necessariamente neles as estruturas que, respectivamente, iluminam e recebem, vale dizer, o intelecto agente e o intelecto possível.

O argumento contrário traz de volta a noção de fantasma, que é uma noção técnica em Tomás. O fantasma é a imagem que se forma em nós a partir da composição dos dados sensíveis que obtemos sobre a coisa. A nossa imaginação reúne em nós os dados sensíveis daquilo que impressionou nossos sentidos (sons, cores, cheiros, texturas, sabores), formando esta noção de que aquilo não é um simples acumulado de informações, mas um ente. Este fantasma forma-se na nossa imaginação, e grava-se em nossa memória como informação individualizada daquilo com que tivemos contato. Esta estrutura existe também nos animais, e é por isto que meu cãozinho consegue saber que eu sou eu, que eu sou seu amigo e sente prazer com a minha presença, mas jamais vai chegar a ter uma concepção intelectual, abstrata, de ser humano. Ora, diz o argumento sed contra, a presença de fantasmas é essencial para o conhecimento, no caso dos seres materiais inteligentes, porque o intelecto possível precisa dos fantasmas para informar-se (o argumento diz que os fantasmas são, para o intelecto possível, o que as cores são para a visão, ou seja, o próprio conteúdo do que está nele). Por outro lado, o intelecto agente volta-se para o fantasma a fim de iluminá-lo, ou seja, extrair dele aquilo que é universal, abstrato, inteligível, a partir do que é contingente, temporal e individual, como, poderíamos dizer metaforicamente, a luz incide na cor para torná-la visível. Mas os fantasmas são compostos na imaginação pelas nossas estruturas materiais, como os órgãos dos sentidos. Uma vez que os anjos não têm estruturas materiais de conhecimento nem órgãos de sentido, são desprovidos de imaginação e, portanto, não formam fantasmas. Daí o argumento conclui que tampouco eles demandam, em sua estrutura intelectual, a existência de intelecto agente e intelecto possível para aprender.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.