No texto anterior, colocamos o debate sobre a possibilidade de que a intelecção do anjo estivesse em sua essência mesmo. Neste caso, todo o conhecimento do anjo estaria sempre presente em ato a ele pelo simples fato de ele existir. Vimos os três argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial, e o argumento sed contra, que fez a distinção entre a substância, ou seja, aquilo que o ente é, a capacidade ou potência, que é aquilo que ele pode fazer ou vir a ser, e por fim a operação, que é o agir do ente. Vimos, no argumento contrário, que só em Deus coincidem o ser, o poder e o agir, e que, nas criaturas, uma coisa é ser, outra é poder, outra ainda é fazer.
E é deste ponto que parte a resposta sintetizadora de São Tomás.
Ele vai partir do binômio ato-potência, para explicar que, em qualquer criatura, há uma diferença entre a essência, por um lado, e a operação, por outro. De fato, diz Tomás, no binômio ato-potência, é preciso que cada potência corresponda especificamente a um ato. Ora, uma coisa é a potência para existir, que se refere a uma essência ainda não existente, mas que pode vir a existir, e, por outro, a potência ou capacidade para agir, que só existe, como obviamente se pode perceber, naqueles entes que já existem em ato. Por isto, se Deus concebe um anjo, mas ainda não o criou, a essência deste anjo está em potência para existir, mas ainda não está em potência para agir. Por outro lado, se o anjo efetivamente já existe, mas ainda não fez nada, sua essência está em ato para a existência, mas sua capacidade de ação está ainda em potência para uma determinada ação qualquer. É preciso que a criatura exista para que possa fazer alguma coisa, ainda que esta coisa seja simplesmente inteligir em ato algum aspecto de si mesmo ou de outro ente. Por isto, diz Tomás, no anjo o inteligir é diferente da essência. A essência relaciona-se com a existência como uma potência para existir, enquanto a inteligência relaciona-se com o conhecimento como uma potência para saber, que pressupõe a própria existência do ente que conhece. Em suma, existir é uma perfeição da essência, e é chamada de ato primeiro – existir é pressuposto para qualquer perfeição posterior do ente, que são chamados de atos segundos. Por isto, a capacidade de conhecimento do anjo não pode coincidir com sua essência mesma.
Estabelecidos os critérios, São Tomás vai passar a responder aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento lembra que o Pseudo-Dionísio equipara os anjos a suas inteligências mesmas, e chega a chamá-los simplesmente de “intelectos” ou “inteligências”; com isto, o argumento conclui que os anjos são essencialmente suas inteligências mesmas.
Não é isto, diz Tomás. Os anjos são essencialmente anjos. Mas a inteligência dos anjos é diferente da nossa. A nossa inteligência opera por meio da sensibilidade, e o conhecimento humano é em parte intelectual e em parte sensitivo. Mas o conhecimento angélico é puramente intelectual, porque eles não têm as operações sensíveis. É por isto que os antigos costumavam chamá-los simplesmente de intelectos.
O segundo argumento parte do binômio substância-acidente. Sendo essencialmente imaterial, o anjo é um ente simples, porque não tem, em si, a composição de forma e matéria que caracteriza os outros entes. Ora, diz o argumento, o filósofo Boécio costumava dizer que os entes simples não podem ser sujeitos de acidentes: tudo neles é substancial, nada é acidental. Ora, prossegue o argumento, isto significa que, no anjo, não poderia existir nada acidental (de acordo com Boécio). Mas se a capacidade intelectual do anjo não é sua essência mesma, então o conhecimento do anjo seria acidental com relação a ele (se não estiver em sua essência). Assim, o argumento conclui que a capacidade intelectual do anjo está em sua essência mesma.
São Tomás vai fazer um esclarecimento. Quando Boécio diz que a forma simples não pode ser sujeito de acidentes, ele está pensando num ser que não tem nenhuma composição em si. De fato, diz Tomás, ser sujeito de acidentes significa que o ente está em potência para determinados aspectos que não necessariamente fariam parte de sua essência, ou não o fariam de uma maneira determinada. Assim, somente Deus nunca está em potência para nada; ele é a simplicidade absoluta, e nele tudo é substancial. Mas o anjo tem, pelo menos, a potência para existir, já que sua essência não existe por si mesma: Deus concebe sua essência e lhe concede, por um ato de vontade, a existência. Ora, se o anjo tem, ao menos, a composição essência-existência, ele não é um ente absolutamente simples, como Deus. Então ele pode ser sujeito de acidentes, e a restrição de Boécio não se aplica a ele.
O terceiro argumento cita Santo Agostinho, que ensinava que Deus fez os anjos como entes mais próximos dele próprio. Por outro lado, a matéria-prima é a coisa mais próxima do nada. Ora, diz o argumento, a matéria-prima é pura potencialidade; logo, ela é essencialmente sua própria potência, quer dizer, a matéria-prima é, por essência, sua própria capacidade de ser. Assim, ela é simples em sua estrutura, como Deus é simples em estrutura. Ora, se a matéria-prima, sendo tão distante de Deus, guarda a simplicidade da estrutura, ou seja, não há nela diferença entre a essência e as capacidades, com mais razão, diz o argumento, poderíamos afirmar que, nos anjos, a capacidade intelectual não está separada da essência, mas se confunde com ela, porque, com isto, também o anjo seria simples em sua estrutura.
Esta analogia não funciona, diz Tomás. A matéria-prima não é um ente, mas apenas um componente estrutural dos entes, e não existe no mundo real em sua forma pura. Ou seja, a sua potência plena para existir determina que, sempre que ela existe, ela está compondo algum ente que está em ato. Assim, a capacidade de existir, que é a própria razão de ser da matéria-prima, coincide com a sua existência mesma, sempre manifestada como compondo a estrutura atual de algum ente material. Mas este ente material, por outro lado, só pode operar porque existe. Portanto, do fato de que a potência para existir é a própria razão de ser da matéria-prima, não se pode deduzir que a potência para conhecer seja a essência mesma dos anjos. Neles, a composição essência-existência determina que, para que possam operar, eles precisem primeiro existir. Por isto, a sua atividade de conhecer não é sua essência, mas sua operação.
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