Deus intelige tudo, pensa tudo ao mesmo tempo e tem sempre todas as coisas, todos os conhecimentos, presentes em ato em sua inteligência. Ele não é como nós, que esquecemos das coisas, que conseguimos pensar apenas em algumas coisas de cada vez e que aprendemos as coisas processualmente. Na própria essência humana está inscrito que somos seres inteligentes, mas nossa inteligência é uma tabula rasa, um quadro vazio, que vai se enchendo de conhecimento ao longo da vida. Assim, se conhecemos a ciência do direito, a medicina ou a matemática é um acidente em nós, que decorre das escolhas e oportunidades que tivemos na vida. E mesmo as coisas que chegamos a aprender não ficam inscritas em nossa essência mesma. São inscritos em nossa inteligência como hábitos, quer dizer, como conhecimentos que podemos acessar a qualquer momento, mas não estão necessariamente ativos o tempo inteiro.
E nos anjos? Parece que a inteligência dos anjos está mais próxima da inteligência de Deus do que da nossa, em certa medida. De fato, os anjos não adquirem seu conhecimento por exploração da realidade, por raciocínio, ou pela via da experimentação sensível. Na própria forma do anjo, estão inscritas aquelas species, aquelas estruturas pelas quais eles conhecerão a realidade. Ou seja, a capacidade de conhecer é parte da estrutura mesma do anjo. Sua mente não é uma tabula rasa, mas algo como um computador que já vem com um sistema operacional. Isto significa que, como Deus, o anjo tem, por essência, todos os conhecimentos de todas as coisas simultaneamente presentes a ele, de modo que nenhum conhecimento, nele, é acidental, potencial ou habitual? Ou será que a sua capacidade de lidar com o conhecimento envolve também a necessidade de pensar sucessivamente, de ocupar-se com certo número de conhecimentos num momento, para em seguida pensar em outra coisa e deixar aqueles primeiros pensamentos como que armazenados para um acesso futuro? Se é assim, então o conhecimento do anjo também participa de um processo de potencialidade e atualidade, que, mesmo que não seja, a rigor, um processo de aprendizagem como o nosso, envolve também uma capacidade de conhecer que é limitada, não onisciente, e que também é composta de potência e ato, de hábito e atuação. Neste sentido, a mente do anjo pareceria muito mais com a nossa do que com a de Deus: ele teria os limites criaturais do conhecimento.
O conhecimento de Deus é causa mesma das coisas. Tudo existe porque Deus as conhece, pensa nelas todo o tempo e as quer. Não há, em Deus, conhecimento habitual ou potencial. Por isto, conhecer nunca é um acidente, em Deus: ele conhece tudo o tempo todo, pelo fato de ser Deus, e pelo fato de que seu conhecimento é o que dá consistência à criação. Mas não é assim com os anjos; eles conhecem porque as coisas são; logo, seu conhecimento não é fonte, mas resultado das coisas. Na sua limitação criatural, o anjo pode conhecer isto mas não aquilo, e mesmo quando conhece algo, pode não pensar nela neste exato momento. Mas estamos nos adiantando a Tomás. Voltemos ao artigo.
Será que o conhecimento do anjo é sua essência mesma? Ou seja, será que, pelo simples fato de ser, o anjo tem todo o seu conhecimento presente em ato a si o tempo todo? Esta é hipótese controvertida com que o debate é proposto, neste artigo.
São três os argumentos objetores no sentido desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento diz que a capacidade de inteligir, ou seja, de conhecer e de pensar, é chamada de inteligência ou intelecto. Ora, prossegue o argumento, o Pseudo-Dionísio, grande autoridade cristã em angelologia, chama várias vezes os anjos simplesmente de “inteligências” ou “intelectos”, em sua obra. Isto parece indicar que ele entendia que a capacidade de inteligir é a própria essência do anjo, conclui o argumento.
O segundo argumento vai na linha da oposição entre substância e acidente. Se a capacidade intelectual do anjo é diferente da sua essência mesma, diz o argumento, isto significa que teríamos que admitir que a capacidade que o anjo tem de conhecer e pensar é um simples acidente. Ou seja, o pensamento, no anjo, teria um ser acidental, seria um aspecto diferente da própria substância do anjo – vale dizer, o anjo não seria seu próprio conhecimento; antes, ele seria simplesmente o sujeito de um conhecimento acidental disto ou daquilo. Mas o anjo é pura forma, realidade espiritual; e, segundo Boécio, as puras formas não podem ser sujeito de aspectos acidentais. Disto, o argumento conclui que a capacidade intelectual não pode ser um acidente, no anjo, mas está na sua essência mesma.
O terceiro argumento começa citando Santo Agostinho. O grande mestre Agostinho, diz o argumento, ensinava que Deus fez os anjos como entes mais próximos dele próprio. Por outro lado, a matéria-prima é a coisa mais próxima do nada. Ora, diz o argumento, a matéria-prima é pura potencialidade; logo, ela é essencialmente sua própria potência, quer dizer, a matéria-prima é, por essência, sua própria capacidade de ser. Assim, ela é simples em sua estrutura, como Deus é simples em estrutura. Ora, se a matéria-prima, sendo tão distante de Deus, guarda a simplicidade da estrutura, ou seja, não há nela diferença entre a essência e as capacidades, com mais razão, diz o argumento, poderíamos afirmar que, nos anjos, a capacidade intelectual não está separada da essência, mas se confunde com ela, porque, com isto, também o anjo seria simples em sua estrutura.
Eis agora o argumento sed contra. Mais uma vez, uma citação da autoridade do Pseudo-Dionísio. Ele ensina que a estrutura ontológica do anjo se divide em 1) substância, ou seja, aquilo que o anjo é; 2) Capacidade ou potência, que é aquilo que o anjo pode ou é capaz de ser ou fazer, e 3) Operação, ou seja, aquilo que o anjo efetivamente fez ou faz. Assim, o argumento sed contra conclui que, no anjo, a capacidade de inteligir é diferente da essência angelical.
Artigo complexo, cheio de densidade metafísica. Mas estão colocados os termos do debate. No próximo texto examinaremos as respostas de São Tomás.
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