o texto anterior, colocamos o debate sobre a hipótese de que, para o anjo, pensar é existir. Vimos os dois argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese, e o argumento sed contra. Começamos, então, a examinar a resposta sintetizadora de São Tomás.
Será que a existência de algum ente pode consistir no seu agir mesmo? Será que algum agir do ente é tão essencial e ele que representa sua existência mesma, como propõe Descartes ao afirmar “penso, logo existo”, de tal modo que o pensamento possa ser a própria existência, e que sejamos aquilo que pensamos, ou melhor, que sejamos porque pensamos? Este erro não está distante da nossa vida cotidiana, hoje, quando parece natural que muitas pessoas tenham a sensação de que são, no seu pensamento, algo muito diferente daquilo que são em seu ente mesmo – e assim, vemos pessoas que acham que são mulheres em corpos de homens, e até acreditam que são animais em corpos humanos. Tomam o seu próprio pensar como fundamento do seu existir, e, quando não coincidem (porque de fato não podem coincidir), sentem-se desajustados, injustiçados e até inspirados ao suicídio. Eis a importância daquilo que Tomás tem a nos dizer aqui. Ressaltando que ele está tratando de seres que, sendo inteligentes, são também incorpóreos, e por isto não poderiam, por exemplo, experimentar a dissociação entre corpo e mente que alguns seres humanos experimentam. Por outro lado, não seria difícil imaginar que um anjo, assumindo a ideia de que seu pensar é seu existir, sinta-se inclinado a pensar que é Deus. Mas deixemos de digressões e voltemos ao artigo.
Na sua resposta sintetizadora, explorando a necessidade de distinguir entre o existir criatural e o seu agir, Tomás nos dará uma aula magnífica sobre os dois tipos de agir, aquele que inicia no sujeito e se dirige à modificação de um objeto externo ao próprio sujeito, como, por exemplo, esculpir, construir, desenhar, e assim por diante; estas são as chamadas ações transeuntes, que podemos expressar simplesmente como fazer alguma coisa. Este tipo de agir, diz Tomás, obviamente não pode coincidir com a própria existência do ente, diz Tomás. O existir não pode ser um fazer. A existência constitui intrinsecamente o próprio ente, ao passo que fazer é modificar, por seu agir, algum objeto externo àquele que age.
E quanto àquelas ações que são imanentes, ou seja, aquelas ações que iniciam e concluem-se no próprio ente, como querer, conhecer ou sentir? Será que eu poderia dizer que o ente existe porque quer, ou porque conhece, ou mesmo porque sente? Será que existir seria um fazer-se?
As ações imanentes são naturalmente indeterminadas, diz Tomás, e neste sentido elas são ilimitadas. De fato, quando falamos na capacidade que um espírito (humano ou angélico) tem para conhecer, falamos de algo potencialmente ilimitado, infinito mesmo. Os antigos costumavam dizer, em sua sabedoria, que o conhecimento não ocupa espaço. Mas, para usar uma terminologia mais propriamente tomista, diríamos, com ele, que o objeto do conhecimento é a própria verdade, e a verdade nada mais é do que o próprio ser, visto sob o prisma da sua relação com uma inteligência. Estamos, aqui, no campo dos chamados transcendentais do ser: é sob esta maravilhosa doutrina que podemos entender a abertura ilimitada da inteligência ao infinito. Ela está aberta a conhecer o ser, vale dizer, ela está aberta à verdade em toda a sua extensão. O conhecer é, pois, aberto ao infinito, ou seja, absolutamente ilimitado. E é fácil perceber isto: estamos sempre em busca de saber mais, seja sobre os grandes segredos do universo, seja sobre a vida privada do vizinho. Nossa sede de conhecer é inesgotável.
O mesmo vale para a outra dimensão dos espíritos, que é o querer. O querer é a inclinação ao bem, diz Tomás. Mas o bem também é um transcendental do ser: ele é o próprio ser, visto sob o prisma de uma vontade. Ora, se o ser é aquilo que há de mais simples e indeterminado, isto significa que o querer também pode recair potencialmente sobre qualquer aspecto do ser, e portanto o querer também é, em si mesmo, infinito. É fácil perceber isto: por mais que queiramos coisas e bens, estamos sempre insatisfeitos.
Mesmo quando saímos do campo das coisas espirituais, como o saber e o querer, e entramos no campo das relações materiais, como no caso do sentir (que os anjos não têm, mas nós compartilhamos com os animais), vemos que há, aqui, uma indeterminação, que é uma abertura relativamente ilimitada. Dizemos, aqui, que é relativamente ilimitada, porque o sentir tem como objeto apenas as coisas materiais, e não aquelas propriamente espirituais. Mas o objeto do sentir, no campo das coisas materiais, é também ilimitado. Como diz o Eclesiastes (1, 8), o olho não se cansa de ver, nem o ouvido de escutar. Os sentidos são, assim, indeterminados em seu agir.
Ora, diz Tomás, a indeterminação da inteligência, da vontade e do sentir tomam seu limite do objeto. Quando examino esta montanha, é esta montanha que será vista e conhecida por mim, e é esta montanha que eu desejarei escalar. Assim, é o objeto, (neste exemplo a montanha), que fornece a espécie ao conhecer, ao querer e ao sentir. O meu conhecimento, agora, especifica-se em conhecer a montanha. O meu querer especifica-se em querer subir esta montanha. O meu olhar dirige-se a esta montanha. É neste sentido que se diz que é o objeto que dá o limite ao agir imanente.
Mas obviamente o limite do próprio ser do ente não vem do objeto do seu conhecimento, nem do objeto do seu querer, nem do objeto do seu sentir. Quando conheço uma montanha, sou essencialmente um ser humano conhecendo uma montanha. O meu conhecer é potencialmente ilimitado, mas não o meu existir. Começa com meu nascimento, termina com a morte, determina-se pelo meu gênero (animal) e pela minha espécie (humano). O que dá espécie ao meu conhecimento (o objeto) não é a mesma coisa que dá espécie a mim, que sou sujeito do conhecimento porque sou humano. O meu querer, o meu sentir, são todos aspectos ilimitados de um ente existente de modo limitado, que sou eu. Assim, nem a minha inteligência, nem o meu querer, nem o meu sentir, constituem meu existir.
Não assim em Deus. Em Deus, o ser é ilimitado; a inteligência de Deus é o fundamento da verdade dele mesmo e de todas as criaturas por consequência. O seu querer é o seu ser mesmo, já que tudo o que existe só existe porque ele quer. Assim, apenas em Deus o existir, o conhecer e o querer são idênticos em serem absolutos e ilimitados. Do mesmo modo que o ser de Deus não está em gênero e espécie, também seu conhecimento e seu querer não se especificam pelo objeto. Na verdade, é o conhecimento de Deus (e seu querer) que especifica tudo o que existe.
Colocados, pois, os fundamentos da resposta, São Tomás passará a examinar as objeções iniciais.
O primeiro argumento objetor lembra que viver, para os seres vivos, é existir mesmo. Ora, uma vez que não possui vida biológica, o viver dos anjos, diz o argumento, é inteligir. Logo, o argumento conclui que, neles, pensar é existir.
É preciso distinguir, diz Tomás, entre o fato de que a vida está inscrita na existência mesma daqueles entes que são vivos, por um lado, e, por outro, com o fato de que as operações vitais, ou seja, aqueles fenômenos pelos quais a vida se manifesta, e que pressupõem que o ente que as realiza esteja vivo. É neste sentido que podemos dizer que a vida é, por um lado, a própria existência manifestada do ente e, por outro, afirmar que as operações vitais não são a própria existência do ente, mas resultam dela.
O segundo argumento diz que, quando há relação entre os efeitos, há relação entre as causas. Ora, a causa formal do anjo é a sua inteligência mesma, já que ele é uma inteligência espiritual, incorpórea. Mas o anjo, ao conhecer a si mesmo, conhece integralmente a sua forma, ou seja, tem a sua forma impressa na sua inteligência. Logo, a mesma forma pela qual ele existe é a mesma forma pela qual ele se intelige. Logo, se há uma e só causa formal para os dois efeitos, a existência e o inteligir do anjo, isto significaria que, nele, pensar e existir são idênticos, conclui o argumento.
Mas não é assim, diz Tomás. De fato, a essência do anjo, que é a sua forma, é a causa formal do seu existir, e o é completamente, isto é, é por sua forma, que é a essência da sua substância angélica, que ele existe. Mas a sua forma, embora seja a explicação causal formal da sua existência, não é a causa formal de todo o seu inteligir. De fato, o objeto formal do inteligir do anjo é o ser, através do transcendental do verdadeiro – vide a discussão sobre os transcendentais do ser que já fizemos em tantos textos aqui da nossa caminhada. Assim, é sob a razão de verdadeiro que a forma do anjo está em sua inteligência; vale dizer, ela está na sua inteligência intencionalmente, e não substancialmente. Assim, embora seja a mesma forma que responde pela existência do anjo e que se encontra em sua inteligência em razão de seu autoconhecimento, no entanto esta forma está, em cada um destes casos, sob uma razão diferente. Assim, o argumento não permite concluir que o pensar do anjo é seu existir mesmo.
Registro, com alegria, que hoje, 28 de janeiro de 2021, é a festa de São Tomás de Aquino – o arquiteto e construtor desta linda catedral que é a Suma.
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