Se, no artigo anterior, debatíamos se o pensar do anjo era sua substância mesma; vale dizer, que aquilo que o anjo é, sua substância, se esgota em seu pensar, como a substância da estátua é o mármore esculpido, ou a substância do gelo é a água congelada; aqui o enfoque é ainda mais cartesiano: o pensamento do anjo explica a sua existência mesma? O anjo existe porque pensa? O anjo poderia legitimamente dizer: “penso, logo existo?”
O ponto é importantíssimo. É preciso lembrar que o existencialismo, muito forte em nosso tempo, defende que é cada um, por seu pensamento, que dá a si mesmo a sua substância e até a sua existência. Para esta filosofia, se eu me sinto mulher, o fato de ter órgãos sexuais masculinos significa muito pouco: eu me dou uma existência feminina, porque meu pensamento fundamenta minha existência mesma. Ora, no caso dos anjos, a situação é ainda mais aguda, já que eles não têm corpo. Assim, é preciso acompanhar com muita atenção este debate, porque ele envolve a distinção entre uma faculdade da criatura inteligente (sua inteligência mesma) e a sua existência mesma. Em Deus, o existir e o pensar coincidem perfeitamente, e um não é mais fundamental que o outro. Mas nas criaturas, mesmo as inteligentes, o existir é um dom, enquanto a inteligência é uma faculdade. Parece claro, portanto, que a existência precede o pensamento e o fundamenta, e não o contrário.  Mas admitir isto significa admitir que somos criaturas, e portanto confessar a existência do Criador. No caso dos anjos, portanto, é preciso deixar muito clara a sua criaturalidade. É o que este artigo propõe.
São apenas dois os argumentos objetores iniciais.
Nos seres vivos, diz o primeiro argumento  objetor, existir é viver; o argumento lembra, então, que, nos anjos, não há vida no sentido biológico, mas apenas no sentido espiritual mesmo: a dinâmica da vida, nos anjos, consiste na dinâmica intelectual. Ora, o próprio Aristóteles nos lembra, na obra ” De Anima”, que pensar é, de algum modo, viver. Se pensar, nos anjos, é viver, e viver, para os seres vivos, é existir, o argumento conclui que pensar, para os anjos, é existir.
O segundo argumento começa afirmando que duas causas estão relacionadas entre si quando seus efeitos estão relacionados entre si. Assim, lembrando que a teoria das causas admite as causas material, formal, eficiente e final, o argumento faz uma análise da causa formal do anjo. Os anjos, sendo seres estritamente espirituais, são dotados de perfeito autoconhecimento, diz o argumento. Ora, conhecer é quando aquele que conhece (o sujeito do conhecimento) possui, em sua inteligência, a forma daquilo que é conhecido (o objeto do conhecimento). Ora, no anjo, diz o argumento, a mesma forma pela qual ele existe está em seu intelecto como forma conhecida, e gera nele o autoconhecimento. Assim, se é uma e a mesma forma pela qual ele existe e pela qual se conhece, então, conclui o argumento, no anjo a existência e o autoconhecimento são idênticos: ou seja, seu pensamento é sua existência.
O argumento sed contra diz simplesmente, citando o Pseudo-Dionísio, que o pensamento é a dinâmica do anjo, ou seja, é, nele, a dimensão da transformação, da mudança. Mas, prossegue o argumento, existir não é uma dinâmica, não é um processo de mudança, senão a estabilidade da subsistência. Disso o argumento conclui que pensar e existir não podem ser equivalentes, nos anjos.
Em sua resposta sintetizadora, que passará a nos oferecer, São Tomás fará uma distinção muito interessante entre o ser e o agir, e, neste último caso, como os modos de agir revelam que, em qualquer criatura, o ser e o agir são coisas diferentes; e como o inteligir criatural não pode ser idêntico à sua existência, ao seu ser mesmo.
duas dimensões no agir, diz São Tomás. Há o agir que incide sobre algo exterior ao agente, ou seja, o agir que ele chama de transeunte; e que nós chamaríamos de “fazer“. Neste caso, a ação se inicia no sujeito mas causa modificação num objeto que é diverso do próprio sujeito. Assim, as ações de rasgar, cortar, esculpir, quebrar, construir, por exemplo, são todas ações transeuntes, quer dizer, são ações em que o sujeito faz algo com um ente que, sendo objeto do agir, é diverso do sujeito mesmo. Mas há um outro tipo de agir, em que a ação se inicia, se desenvolve e se conclui no próprio ser do sujeito. Aqui há mais propriamente uma práxis, um agir em sentido estrito, do que um fazer. Estão nesta categoria as ações de conhecer, querer e sentir, por exemplo.
É muito claro que o primeiro tipo de ação, a ação transeunte do fazer, não pode ser o próprio existir da criatura. O existir é algo intrínseco à criatura, mas o fazer é extrínseco a ela. E quanto às ações imanentes? Será que elas podem constituir-se na própria existência das criaturas, como querem, por exemplo, os filósofos existencialistas, que defendem que eu dou a mim mesmo a minha existência através da minha auto-construção? É o que estudaremos no próximo texto.