Colocados os termos do debate e os critérios para enfrentá-lo, São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor afirma que, na alma humana, a estrutura ativa, que é chamada classicamente de “intelecto agente”, existe porque age, ou seja, sua existência é seu próprio funcionamento no processo humano de conhecimento. Ora, a essência do anjo é ser uma inteligência espiritual. Logo, com muito mais razão do que o intelecto agente, a sua existência coincide com seu próprio agir, ou seja, com o seu inteligir.
São Tomás responde que esta estrutura, que existe na inteligência humana e é chamada de intelecto agente, caracteriza-se exatamente por ser o intelecto em ato, ou seja, aquela luz do intelecto que ativamente busca o conhecimento nas estruturas sensíveis do ser humano, e o traz para a alma, imprimindo-o no chamado “intelecto possível”, quer dizer, naquela estrutura passiva do intelecto, que se conformará ao objeto do conhecimento. Assim, como estrutura, o intelecto agente consubstancia-se no seu próprio agir; de certa forma pode-se dizer que ele é o seu agir. Mas isto não significa que ele seja o próprio pensamento substanciado. Portanto o argumento está equivocado, e a analogia não funciona. É bom registrar que nesta pequena objeção está consignada toda uma discussão medieval entre Tomás, por um lado, e os chamados “averroístas”, por outro. Os averroístas pleiteavam que existe um só “intelecto agente” para toda a espécie humana, uma estrutura substancial e suprapessoal causadora do conhecimento em toda a espécie humana, enquanto Tomás defendia, com razão, que esta é uma estrutura estritamente individual. E é verdade, e o fato de que São Tomás estava certo no particular levou a todo o desenvolvimento da doutrina da dignidade pessoal, que seria impossível se a mente humana fosse coletiva, como propunham os averroístas. Mas, uma vez compreendida a individualidade do intelecto agente, não há razão para fazer paralelismo entre uma simples estrutura do intelecto humano, por um lado (que existe só e enquanto age) e o próprio anjo como substância individual, de outro.
O segundo argumento objetor parte da ideia de que, sendo uma criatura inteligente e espiritual, o anjo não tem uma vida biológica, porque não é um animal. Assim, a vida do anjo consiste propriamente na ação do intelecto. O argumento lembra, então, que, segundo Aristóteles, dizer que um ente é um ser vivo significa dizer que viver é, nele, a sua essência. Ora, se no anjo a vida consiste na ação do intelecto, e se a vida é da essência do anjo, então o argumento conclui que o anjo é substancialmente pensamento.
Em sua resposta, São Tomás nos explica que a relação entre o substantivo “vida” e o verbo “viver” não é análoga à relação entre a essência e a existência; ela é análoga, isto sim, à relação entre o substantivo “corrida” e o verbo “correr“. Logo, pelo fato de que, para o anjo, viver é existir, não se pode concluir que a vida, na sua dinâmica intelectual, seja a própria essência do anjo. O anjo é essencialmente uma criatura espiritual inteligente, mas pensar pressupõe a existência da sua essência angelical, e não o contrário. É certo, prossegue Tomás, que algumas vezes vemos alguns grandes pensadores falar na vida como essência; mas não se trata, aí, de confundir a operação da inteligência, por um lado, com a própria substância do ente que pensa, por outro. Para pensar, é preciso ser, e não o contrário.
Não é assim, diz São Tomás. De fato, nas chamadas ações transeuntes, ou seja, naqueles processos que implicam transformações externas, como o florescer de uma flor. Mas nas chamadas ações imanentes, ou seja, naquelas que começam e terminam no próprio interior do ente que age, este princípio não se aplica. De fato, por exemplo, no processo de conhecimento, a coisa a ser conhecida existe substancialmente como ente no mundo real; mas existe como universal na mente daquele que conhece; o modo de existir da coisa, como conhecida, é intencional, e não substancial. Assim, o fato de que o anjo se conhece não faz deduzir que a substância do anjo seja esse conhecer.
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