Vimos, então, no texto anterior, a hipótese controvertida inicial de que, nos anjos, o pensamento coincide com a própria substância, ou seja, o pensar do anjo não é uma operação decorrente da sua existência, mas é o fundamento mesmo do seu existir, sendo equivalente a ele. Segundo esta hipótese, o anjo poderia dizer: sou e penso, ou melhor, porque penso, então sou. Vimos o argumento sed contra no sentido de que qualquer criatura precisa receber de Deus sua essência e sua existência para poder operar sua inteligência, e por isto, uma vez que são criaturas, nos anjos o pensar decorre do ser, e não equivale a este.
Veremos agora a resposta sintetizadora de São Tomás.
É impossível, diz São Tomás, que o agir do anjo possa ser a sua substância. Ora, qualquer ação, mesmo a ação angélica de inteligir, é expressão atual, efetiva, do poder da sua inteligência; ora, para que a inteligência possa atuar, ela precisa existir. Ora, a própria essência do anjo, que é a essência de um ente espiritual inteligente, precisa receber de Deus a existência para poder ser. Ou, usando uma terminologia mais técnica, a essência tem em si apenas o potencial para existir, enquanto for apenas uma concepção na mente divina. Ela está em potência para a existência, até que seja efetivamente criada por Deus.
Tomás prossegue nos ensinando mais sobre a estrutura metafísica criatural do anjo. Todo agir criatural, diz São Tomás, é a atualização de uma potência da criatura. Do mesmo modo que a essência do anjo não pode dar a si mesma a existência, tampouco o agir do anjo pode dar a si mesmo a capacidade de agir. Nenhuma potência pode dar a si mesma o seu próprio ato, porque a potência é apenas uma promessa de ser, enquanto o ato é um ser perfeito. Ora, se um ser potencial tivesse a possibilidade de dar a si mesmo uma perfeição que ele mesmo não tem, isto seria uma verdadeira contradição.
Por outro lado, Deus não tem potências, no sentido de aspectos do seu ser que ainda não sejam perfeitos; não há potenciais, ou seja, algo incompleto, em Deus. Em Deus, a essência e a existência coincidem, porque a própria essência de Deus é existir. Sendo assim, também o pensamento de Deus coincide perfeitamente com sua essência e sua existência; fazendo uma pequena digressão, diríamos que o pensamento de Deus coincide tão perfeitamente com sua essência e sua existência que forma, nele, uma Pessoa subsistente, a segunda pessoa da Trindade.
E é este o ponto deste artigo. Quando falamos na possibilidade de que o pensar possa ser a própria substância de um ente, falamos num pensamento que subsiste como a sua própria inteligência. Ora, somente em Deus o pensar subsiste, como inteligibilidade que é fonte, que fundamenta a si mesma e a todas as coisas inteligíveis que existiram, existem e podem existir. Só pode haver, portanto, um pensar substancial, que é o pensar de Deus, já que o pensar substancial seria necessariamente universal e fundamento para todas as coisas. Se o pensar de um anjo fosse substancial, ele seria igual ao pensar de Deus, que é a Segunda Pessoa da Trindade, e portanto o anjo seria indistinto dela – estaríamos declarando que no fundo os anjos seriam um só entre si, porque seriam um só com a Segunda Pessoa da Trindade.
Além disso, diz Tomás, neste caso todo pensamento do anjo seria perfeito, porqie seria inteligibilidade substancial; não seria possível falar em graus de inteligência nos anjos.
Não podemos deixar de registrar que esta resposta pode aplicar-se a toda filosofia que coloca o pensamento humano como ponto de partida, como fundamento de realidade; não somente a filosofia cartesiana, mas toda a filosofia idealista, ao colocar o pensamento humano como ponto de partida para a própria substância humana, transforma o ser humano em fundamento de inteligibilidade do próprio universo e o deifica. No fundo, todo idealismo é gnóstico.
No próximo texto veremos as respostas de São Tomás aos argumentos objetores iniciais.