O anjo é fundamentalmente um ser imaterial que intelige e quer. Para nós, humanos, é muito difícil imaginar como é o próprio ser do anjo. E existe para nós a grande tentação de imaginar o anjo como uma grande dinâmica: a sua atividade de entender, de inteligir, seria sua própria substância; ele existiria porque intelige, e inteligiria porque existe. Inteligir seria, para esta concepção, não apenas um sinal de que o anjo existe, ou seja, uma operação, mas a própria existência do anjo, seu fundamento existencial. Este artigo, portanto, que parece tão obscuro e ultrapassado, tão pouco prático e relevante, é na verdade relevantíssimo: poucos séculos depois da Suma, um filósofo, René Descartes, propôs que o inteligir seria a própria substância humana, quando afirmou: “penso, logo existo” (cogito, ergo sum), e fez do pensar (que até então era considerado como ato segundo, ou seja, como operação da inteligência humana), verdadeiro ato primeiro, quer dizer, o próprio fundamento da existência humana. Assim, para Descartes, nós somos porque pensamos, e o nosso pensar é o próprio fundamento da nossa existência. Seríamos, para Descartes, seres essencialmente pensantes, cujo existir é o próprio pensar, e cuja relação com o corpo é acidental, externa. Ora, nem os anjos, dirá Tomás, têm no pensar o fundamento do seu existir, como veremos aqui. Este é um atributo exclusivamente divino: só em Deus o pensar e o ser coincidem. Ou seja, mais do que nos equiparar a anjos, Descartes nos equipara a deuses. Erro que Tomás já havia denunciado alguns séculos antes.
É interessante, portanto, perceber que, neste artigo 54 da primeira parte da Suma Teológica São Tomás tenha se antecipado a Descartes para demonstrar que nem no caso dos anjos, que são essencialmente seres imateriais pensantes, o pensamento constitui a substância; muito menos no caso dos humanos.
Mas deixemos de delongas. Vamos ao artigo.
Para provocar o debate, a hipótese controvertida inicial é a de que, nos anjos, o inteligir seria a própria substância angelical. Ou seja, de acordo com esta hipótese, o anjo existe porque pensa, e a sua existência é o seu pensar. Os anjos, segundo esta hipótese, poderiam tranquilamente afirmar: cogito, ergo sum. Pensar e ser, neles, seria a mesma coisa; quer dizer, não é que o pensar seja consequência de ser, ou mesmo a operação que decorre do fato de que eles existem, de tal modo que pudéssemos dizer: os anjos inteligem, logo eles não podem não existir, como diríamos de um cão: o cão late, logo ele não pode não existir. Não é isto; a hipótese vai mais longe, e afirma que, neles, a própria substância consiste nesse pensar. Seria uma espécie de “cogito de Descartes” para os anjos.
São três os argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese controvertida.
O primeiro argumento objetor afirma que, na inteligência humana, há uma estrutura ativa que a filosofia clássica chama de “intelecto agente”, e que é responsável por buscar, na memória humana, as impressões sensoriais particulares para extrair delas, por abstração, o conhecimento intelectual propriamente dito. Assim, nossos olhos vêem, digamos, muitas árvores, nossos dedos sentem sua textura, nossos ouvidos sentem o farfalhar das folhas, sentimos os cheiros das flores e o sabor das frutas. Nosso sentido comum certifica-se de que todas estas sensações vêm do mesmo ente, e nossa memória arquiva essas informações, relacionando-as e formando em nós a figura (phantasmata) das árvores con as quais já nos deparamos. A partir desta figura, o intelecto agente abstrai as condições concretas de tempo e lugar em que nos encontramoscom cada árvore e, extraindo daí sua species, ou seja, a estrutura formal básica da árvore, guarda no intelecto possível a forma de árvore, de tal modo que passamos a conhecer universalmente as árvores, e podemos dizer, quando enxergamos, digamos, um poste de luz: “isto não é uma árvore”.
Esta estrutura da nossa inteligência, que chamamos “intelecto agente”, prossegue o argumento, existe exatamente na sua atividade, ou seja, ele existe apenas e tão somente quando atua extraindo das imagens mentais o conhecimento intelectual.
Ora, prossegue o argumento, o anjo tem uma estrutura muito mais simples e elevada do que o nosso intelecto. Assim, se, no ser humano, o intelecto agente existe na sua operação, sendo a sua operação a sua existência mesma, muito mais no anjo, conclui o argumento, que é um ser inteligente por essência, teríamos que equiparar o pensar com o existir; assim, o argumento conclui que, nos anjos, o pensar, como ato da inteligência, é a própria substância angelical.
O segundo argumento dirige-se a uma citação de Aristóteles, mal digerida por muitos pensadores do tempo de Tomás. Aristóteles diz que a ação do intelecto é própria do vivente: a ação do intelecto é vida, diz Aristóteles. Mas viver, para os seres vivos, é a expressão em ato da sua essência, segundo o argumento lê em Aristóteles; em suma, o argumento conclui que, para os seres vivos, a vida é a sua essência mesma. Ora, para os anjos a vida consiste em pensar. Logo, por este raciocínio, o pensar, que é a ação do intelecto e corresponde integralmente à vida angelical, e portanto os anjos, conclui o argumento, são essencialmente pensamento. Assim, o argumento afirma que o pensamento é a própria substância do anjo. Vale dizer, ele existe, segundo este argumento, por seu próprio pensamento.
Por fim, o terceiro argumento afirma que, em qualquer processo, se os extremos são idênticos, o meio também será. Imaginemos uma fruta sendo gerada por uma árvore: desde o broto há uma fruta, embora ainda verde. Quando madura, ela é uma fruta, embora já tenha sido desprendida do pé. Logo, a fruta que ainda está no pé, mas está no meio do processo de maturação, nada mais é do que uma fruta. Tenho estabelecido isto, o argumento passa a examinar o processo pelo qual o anjo se conhece. Ora, neste caso o ente que conhece é o próprio anjo. O objeto de seu conhecimento é ele mesmo – lembrando que, sendo um ente imaterial, o anjo tem sempre pleno conhecimento de si mesmo, por necessidade. Ora, se, no processo de conhecimento angelical um extremo (o cognoscente) e o outro extremo (o objeto de conhecimento) são idênticos, então, conclui o argumento, o meio entre estes dois extremos, ou seja, o próprio conhecimento que o anjo tem de si mesmo, tem que ser idêntico ao anjo e ao seu intelecto. Logo, o argumento conclui que a existência do anjo e o seu próprio pensamento são idênticos.
Por fim, o argumento sed contra traz à memória a estrutura metafísica dos entes criados. Em qualquer criatura, aquilo que ela é, a sua essência, está mais distante daquilo que ela faz do que do fato de que ela existe. O que o argumento quer dizer com isto é que, em qualquer criatura, sua essência e sua existência vêm de fora, são dons de Deus a ela; mas seu agir vem de dentro, é resultado de que ela existe, e tem determinada essência. A essência e a existência das criaturas, portanto, têm entre si o fato comum de serem recebidos de Deus, enquanto o seu atuar é responsabilidade sua. Além disso, nas criaturas, a sua essência, ou seja, o seu modo de ser, é diferente da sua existência: se um indivíduo humano, por exemplo, deixar de existir, nem por isso a essência humana deixará de existir. Mesmo nos anjos, nos quais a existência nunca acaba, já que são imortais, e nos quais cada indivíduo esgota a essência daquela espécie de anjo, a existência é diversa da essência: Deus pensa no anjo, numa essência angélica com estes ou aqueles atributos, e é perfeitamente livre para fazê-lo existir ou não. Apenas no próprio Deus a essência é igual ao existir, porque só Deus não tem limites na essência nem recebe a existência de fora. Assim, conclui o argumento, nem para os anjos, nem para nenhuma criatura, o agir pode constituir-se na sua própria substância. Nem os anjos nem os seres humanos, portanto, poderiam dizer propriamente “cogito ergo sum“. Só Deus poderia dizer esta frase no seu sentido próprio.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.