Colocados os critérios para a adequada compreensão dos termos do debate, São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor quer fazer uma analogia entre a relação peso-potência, conhecida pela física, e a velocidade de deslocamento dos anjos. Quanto mais potente o motor e mais leve o corpo, maior a velocidade do veículo. Ora, o anjo tem um poder imenso e nenhuma massa corporal. Logo, conclui o argumento, ele deve mover-se instantaneamente.
Esta é, no entanto, uma analogia descabida, diz São Tomás. Em primeiro lugar, devemos lembrar que o movimento dos anjos pode ser descontínuo. Neste caso, sua relação com o tempo é também descontínua, como vimos acima: seu deslocamento seria descrito por tempo discreto, e não por tempo contínuo, o que tornaria impossível calcular a velocidade em termo de espaço vezes tempo. Nós tratamos da diferença entre tempo contínuo e tempo discreto num texto anterior deste mesmo artigo.
Se, porém, o anjo tiver escolhido mover-se continuamente, sua velocidade poderá ser calculada em termos físicos, porque seu deslocamento se dará de modo sucessivo espacialmente. Mas esta velocidade relaciona-se ao modo pelo qual o anjo exerce seu poder no espaço, e portanto não tem relação com a ideia da proporção entre peso e potência. O anjo não é um motor no sentido físico da palavra. Ele não é algum tipo de mecanismo que gera empuxo, mas um ser pessoal que tem aquilo que poderíamos chamar de “força de vontade”. Ou seja, seu poder sobre o mundo físico decorre da capacidade de sua vontade, não de alguma eficiência mecânica.
O segundo argumento objetor parte daquela comparação entre determinados fenômenos físicos que parecem ocorrer em tempos discretos, sem movimento no sentido de continuidade, como é o caso da luz que, acendendo, clareia instantaneamente o compartimento em que está a lâmpada. Para a física do tempo de Tomás, a iluminação física era uma mudança discreta, diferentemente do aquecimento, que era claramente gradual e progressivo, e a eletrificação, como a queda de um raio, que era visivelmente progressiva também. Assim, o argumento conclui que o movimento dos anjos é similar ao da luz quando clareia; ocorre num instante, um instante temporal e mensurável, que submete e mensura o movimento dos anjos.
São Tomás não conhece a teoria da relatividade nem as descrições de hoje sobre a luz. Mas ele tem a intuição correta, em sua resposta, de que não há analogia entre o fenômeno físico que leva a luz a clarear aquilo que atinge, por um lado, e o movimento dos anjos, por outro. São Tomás explica, em sua resposta, que, ainda que a luz não faça um movimento progressivo (era isto o que a melhor ciência da época ensinava), mas é, ainda assim, o termo de uma mudança que altera, no tempo, o mundo material. A luminosidade é, portanto, mudança material com causa material, e se submete, assim, ao mundo material e suas regras físicas, para produzir suas alterações. Hoje sabemos, inclusive, que ela é processual sim, e é termo de um movimento contínuo, físico, embora muito rápido. Em todo caso, São Tomás aponta que não há analogia entre os dois casos: o movimento dos anjos pode ser contínuo ou descontínuo, mas não está submetido às regras do mundo físico; ao contrário, as submete. O poder do anjo é que age no tempo e no espaço, e não o contrário.
O terceiro argumento objetor trata com a questão de que o movimento contínuo envolve alterações de posição no espaço, e portanto parece contradizer aquela ideia de que o anjo é imaterial e, portanto, não tem um corpo que pudesse obedecer a regras geométricas ou dividir-se entre dois lugares diferentes. Se somente a matéria pode ser dividida e subdividida em porções menores, seria impensável dizer que um anjo pudesse estar “parte num lugar e parte em outro” porque aquilo que é imaterial, diz o argumento, não tem partes.
Assim, o argumento conclui qie o anjo permanece em repouso num lugar durante um tempo e, subitamente, no termo desse tempo, surge instantaneamente em outro lugar. Disso o argumento conclui que os anjos movem-se sempre instantaneamente.
São Tomás explica que esta objeção explica bem o movimento descontínuo nos anjos, com as ressalvas colocadas na resposta sintetizadora a respeito da relação entre os anjos e o tempo. Mas no caso do movimento contínuo, diz São Tomás, o raciocínio do argumento não procede. De fato, no movimento contínuo dos anjos, ele realmente percorre os infinitos pontos intermediários entre a partida e a chegada – porque o anjo está, aqui, num corpo extenso, e portanto este infinito é potencial, como vimos no artigo anterior. Neste movimento contínuo, o anjo de fato está parte num lugar, parte em outro, saindo do lugar de partida para o lugar de chegada. Mas isto se dá em razão da extensão do lugar sobre o qual o anjo exerce seu poder, e não em razão de alguma corporeidade do anjo. Uma metáfora adequada seria comparar com o nosso olhar: quando contemplo, digamos, uma floresta, meu olhar se desloca de uma árvore para outra sem deixar de ser único e indivisível.
Deixe um comentário