Como vimos no último texto, Tomás nos dá uma lição sobre a diferença entre “tempo de repouso” e “tempo de movimento” para nos explicar que essas teorias que tentam enquadrar o movimento dos anjos numa analogia com certos movimentos físicos muito rápidos não funcionam. Ele se recusa a admitir, em especial, a ideia de um movimento qie seria o “termo final” de um tempo que seria de repouso até o último instante. Isto já está bem explicado. Agora vamos examinar propriamente a relação entre os anjos e o tempo, naquilo que diz respeito à mudança.
É preciso lembrar, diz São Tomás, que os anjos não estão determinados pelo espaço e pelo tempo quando se movem. Eles não estão contidos no espaço e no tempo; antes, eles o contêm em seu poder, quando exercem-no sobre alguma realidade material. E é neste sentido que podemos dizer que o anjo está aqui ou ali. É sempre bom lembrar que anjos não são onipotentes ou onipresentes, e por isto exercem seu poder sobre um lugar de cada vez. Assim, quando mudam de lugar, fazem-no de modo relativamente independente com relação ao tempo e ao espaço dos lugares sob seu poder. Por isto, e por quanto foi explicado no texto anterior, seria absurdo dizer que o anjo esteve num lugar num tempo “x” e que, no termo desse tempo, deslocou-se para outro lugar.
Isto não significa, diz São Tomás, que não se pudesse determinar que de fato um lugar estivesse sob o poder angelical até o momento “x”, e que a partir do momento “y” ele exerce seu poder sobre outro lugar. Existe, necessariamente, no agir dos anjos, uma sucessão de eventos. Se ele sai do lugar “x” e passa a estar no lugar “y”, é claro que o faz de tal modo que o tempo passou, cronologicamente, entre um evento e outro. Um anjo não tem o poder de fazer voltar o tempo cronológico, embora não esteja submetido a ele do mesmo modo que os entes materiais. Anjos não ficam velhos. Mas relacionam-se com as coisas que ficam.
Assim, o tempo, no sentido cronológico mesmo, não atinge o anjo no seu ser mesmo, mas a sucessão universal de eventos também o vincula. Neste sentido, poderíamos dizer que o tempo passa também para o anjo; mas não passa nele.
Por isso, diz São Tomás, quando um anjo faz um movimento contínuo, ele percorre o espaço num tempo contínuo; quando faz um movimento descontínuo, ele o faz num tempo discreto, mas certamente verá que a história caminhou para a frente, quando ele mesmo se moveu de modo descontínuo. Então haveria, aqui, uma relação peculiar entre os anjos e o tempo: dada a sua limitação criatural, a sucessão histórica de eventos o atinge e condiciona sua relação com o resto da criação, ou seja, com os entes materiais. Mas dada a sua imaterialidade, o tempo cronológico não o vincula, porque o tempo, cronologicamente falando, é o ritmo dos movimentos materiais, e este ritmo não submete os próprios anjos. São Tomás não o diz expressamente aqui, mas já estudamos anteriormente na Suma (questão 10, artigo 5, aqui: https://lerasumateologica.wordpress.com/2017/06/10/primeira-parte-tratado-de-deus-uno-questao-10-artigo-5-se-o-evo-e-diferente-do-tempo-1-de-2/ ) que a sucessão de eventos para os anjos se dá no evo, ou eviternidade, que não é tempo nem eternidade.
É basicamente disto que tratamos aqui. Da complexa relação entre as criaturas que estão submetidas ao tempo, por um lado, e aquelas que existem no evo, por outro.
Assim, se o anjo faz um movimento contínuo, acompanhará o ritmo do passar do tempo em seu próprio deslocamento. Mas se faz um movimento descontínuo, isto ocorrerá num tempo discreto, que certamente envolve a sucessão de eventos históricos, mas não se submete ao ritmo cronológico. Nenhuma relação com a velocidade da luz e da combustão; talvez a relação com a navegação pela internet seja menos imprecisa.
No próximo texto veremos as respostas de São Tomás para os argumentos objetores iniciais.
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