Vimos, no texto anterior, a hipótese controvertida inicial de que os anjos movem-se sempre instantaneamente, e os três argumentos objetores iniciais no sentido desta hipótese. O argumento sed contra, no entanto, sustenta que, uma vez que todo movimento se dá em algum tempo, também assim seria com os anjos.
Passamos a examinar a resposta sintetizadora de São Tomás.
É interessante notar, logo, que a explicação de São Tomás usa conceitos que a matemática e a física de hoje chamam de “tempo contínuo” e “tempo discreto“, para os quais existe toda uma matemática, com equações próprias para medir os respectivos movimentos. Pensemos num sistema de tempo contínuo como o velocímetro de um automóvel: ele acompanha, momento a momento, a velocidade de veículo, marcando-a “de dentro” do próprio movimento. Um sistema de tempo discreto seria, por outro lado, como as eleições, que, de quatro em quatro anos medem pontualmente a vontade popular majoritária com relação aos governantes, sem acompanhar, de momento a momento, a flutuação dessa mesma vontade. A aferição como que “forma”, constitui a legitimidade daquele governo para os próximos quatro anos, estabilizando o exercício do poder independentemente de flutuações momentâneas de simpatia popular para com os eleitos.
Depois destas pequenas analogias, voltemos a Tomás, que, sem possuir este instrumental contemporâneo, vai nos desenvolver ideias similares para explicar a sucessão de eventos que constitui o movimento dos anjos, que por um lado não está sujeita ao tempo cronológico (já que o tempo cronológico tem uma relação intrínseca com a matéria e suas transformações, e os anjos são imateriais), mas está sujeita à sucessão de eventos, já que a inteligência angélica tem os limites criaturais – não há a onisciência nos anjos, mas somente em Deus, e por isto eles também lidam com a realidade a partir da sucessão de eventos, e não, como Deus, na plena e total simultaneidade que constitui a vida divina.
Para iniciar, São Tomás cita a posição daqueles que entendem que a locomoção dos anjos é sempre instantânea. Para estes, o anjo move-se assim: dado um tempo “x”, ele fica no lugar original durante todo este tempo e, no termo deste tempo, ou seja, no instante que marca o final do tempo, ele estará no ponto de chegada.
Para responder àqueles que dizem que seria impossível marcar, no tempo, dois instantes sucessivos que não pudessem ser subdivididos em infinitos instantes intermediários, os que defendem esta teoria afirmam que o anjo está no lugar de chegada apenas no instante em que o tempo termina; ora, dizem, o instante em que um tempo termina é preciso e indivisível, e não pode ser subdividido – entre um tempo “x” e o seu término não há distância que permita a divisão, digamos, em minutos, segundos, décimos e centésimos de segundo, e assim por diante. O instante final, dizem estes, é o instante final e pronto.
Para provar sua posição com analogias da vida material, os que defendem esta posição comparam-na com dois fenômenos físicos: o acender de uma lâmpada, que marca o termo final do tempo de escuridão num momento final e indivisível, e o incendiar de um pavio, que marca o termo inicial do tempo de combustão também num momento indivisível. Nestes casos, dizem, há mudanças de estado num termo temporal que seriam similares à mudança de posição do anjo que se move. Nos três casos, dizem, não haveria um tempo “x” tal que pudesse ser demarcado um tempo ínfimo, ao final, em que o quarto escuro passou a estar iluminado, ou em que o pavio apagado pegou fogo. Trata-se de um tempo “x” que, no instante mesmo em que se encerra, ocorre a combustão, a iluminação ou o deslocamento angelical.
São Tomás nega que estes três fenômenos sejam similares. É impressionante a intuição de Tomás no sentido de que não há similaridade real entre fenômenos físicos muito rápidos, demarcados em frações de segundo, por um lado, e a liberdade espiritual que há no movimento dos anjos, por outro. São coisas de ordens diversas. E ele vai nos explicar porque.
É preciso acompanhar muito atentamente a explicação dele.
O que é um tempo de repouso? É aquele tempo, diz São Tomás, em que a coisa permanece imutável em todos os seus momentos. E um tempo de mudança, ou de movimento? É um tempo em que, dados dois momentos, o ente está numa situação diferente em cada um deles. Portanto, num tempo de repouso, se eu tomo dois momentos quaisquer e os comparo, o ente estará numa situação igual em cada um deles. Num tempo de mudança, porém, dados dois momentos quaisquer em seu interior, o ente estará diferente em cada um destes momentos, comparado com aquilo que ele era no outro momento. Assim, é próprio de um tempo de mudança que, ao seu termo, o ente esteja mudado; e é próprio de um tempo de repouso que ele seja a mesma coisa no início, no meio e no termo final do tempo. Assim, seria contraditório postular uma mudança que ocorra no tempo e possa ser descrita como o termo de um tempo “x” durante o qual o ente permaneceu do mesmo modo, mas no termo final ele surge transformado ou deslocado. Por isto, diz São Tomás, mesmo quando temos um deslocamento instantâneo, a rigor estamos falando de um movimento no tempo em que o deslocamento dá-se num tempo ínfimo, mas, ainda assim, é um deslocamento no tempo, e não um “termo final” de um tempo que foi de repouso e termina em movimento. Portanto, todo movimento no tempo, mesmo instantâneo, é sempre um movimento contínuo. A física contemporânea confirmou as conclusões a que Tomás chegou por vias filosóficas, e hoje sabemos que o movimento de clarear o ambiente, pelo acendimento de uma lâmpada, ou mesmo a combustão aparentemente instantânea de um corpo, são de fato movimento contínuo que ocorre num tempo mais rápido que a capacidade de percepção humana. Não são análogos ao movimento dos anjos, portanto.
No próximo texto aplicaremos estes princípios ao movimento dos anjos.Vimos, no texto anterior, a hipótese controvertida inicial de que os anjos movem-se sempre instantaneamente, e os três argumentos objetores iniciais no sentido desta hipótese. O argumento sed contra, no entanto, sustenta que, uma vez que todo movimento se dá em algum tempo, também assim seria com os anjos.
Passamos a examinar a resposta sintetizadora de São Tomás.
É interessante notar, logo, que a explicação de São Tomás usa conceitos que a matemática e a física de hoje chamam de “tempo contínuo” e “tempo discreto“, para os quais existe toda uma matemática, com equações próprias para medir os respectivos movimentos. Pensemos num sistema de tempo contínuo como o velocímetro de um automóvel: ele acompanha, momento a momento, a velocidade de veículo, marcando-a “de dentro” do próprio movimento. Um sistema de tempo discreto seria, por outro lado, como as eleições, que, de quatro em quatro anos medem pontualmente a vontade popular majoritária com relação aos governantes, sem acompanhar, de momento a momento, a flutuação dessa mesma vontade. A aferição como que “forma”, constitui a legitimidade daquele governo para os próximos quatro anos, estabilizando o exercício do poder independentemente de flutuações momentâneas de simpatia popular para com os eleitos.
Depois destas pequenas analogias, voltemos a Tomás, que, sem possuir este instrumental contemporâneo, vai nos desenvolver ideias similares para explicar a sucessão de eventos que constitui o movimento dos anjos, que por um lado não está sujeita ao tempo cronológico (já que o tempo cronológico tem uma relação intrínseca com a matéria e suas transformações, e os anjos são imateriais), mas está sujeita à sucessão de eventos, já que a inteligência angélica tem os limites criaturais – não há a onisciência nos anjos, mas somente em Deus, e por isto eles também lidam com a realidade a partir da sucessão de eventos, e não, como Deus, na plena e total simultaneidade que constitui a vida divina.
Para iniciar, São Tomás cita a posição daqueles que entendem que a locomoção dos anjos é sempre instantânea. Para estes, o anjo move-se assim: dado um tempo “x”, ele fica no lugar original durante todo este tempo e, no termo deste tempo, ou seja, no instante que marca o final do tempo, ele estará no ponto de chegada.
Para responder àqueles que dizem que seria impossível marcar, no tempo, dois instantes sucessivos que não pudessem ser subdivididos em infinitos instantes intermediários, os que defendem esta teoria afirmam que o anjo está no lugar de chegada apenas no instante em que o tempo termina; ora, dizem, o instante em que um tempo termina é preciso e indivisível, e não pode ser subdividido – entre um tempo “x” e o seu término não há distância que permita a divisão, digamos, em minutos, segundos, décimos e centésimos de segundo, e assim por diante. O instante final, dizem estes, é o instante final e pronto.
Para provar sua posição com analogias da vida material, os que defendem esta posição comparam-na com dois fenômenos físicos: o acender de uma lâmpada, que marca o termo final do tempo de escuridão num momento final e indivisível, e o incendiar de um pavio, que marca o termo inicial do tempo de combustão também num momento indivisível. Nestes casos, dizem, há mudanças de estado num termo temporal que seriam similares à mudança de posição do anjo que se move. Nos três casos, dizem, não haveria um tempo “x” tal que pudesse ser demarcado um tempo ínfimo, ao final, em que o quarto escuro passou a estar iluminado, ou em que o pavio apagado pegou fogo. Trata-se de um tempo “x” que, no instante mesmo em que se encerra, ocorre a combustão, a iluminação ou o deslocamento angelical.
São Tomás nega que estes três fenômenos sejam similares. É impressionante a intuição de Tomás no sentido de que não há similaridade real entre fenômenos físicos muito rápidos, demarcados em frações de segundo, por um lado, e a liberdade espiritual que há no movimento dos anjos, por outro. São coisas de ordens diversas. E ele vai nos explicar porque.
É preciso acompanhar muito atentamente a explicação dele.
O que é um tempo de repouso? É aquele tempo, diz São Tomás, em que a coisa permanece imutável em todos os seus momentos. E um tempo de mudança, ou de movimento? É um tempo em que, dados dois momentos, o ente está numa situação diferente em cada um deles. Portanto, num tempo de repouso, se eu tomo dois momentos quaisquer e os comparo, o ente estará numa situação igual em cada um deles. Num tempo de mudança, porém, dados dois momentos quaisquer em seu interior, o ente estará diferente em cada um destes momentos, comparado com aquilo que ele era no outro momento. Assim, é próprio de um tempo de mudança que, ao seu termo, o ente esteja mudado; e é próprio de um tempo de repouso que ele seja a mesma coisa no início, no meio e no termo final do tempo. Assim, seria contraditório postular uma mudança que ocorra no tempo e possa ser descrita como o termo de um tempo “x” durante o qual o ente permaneceu do mesmo modo, mas no termo final ele surge transformado ou deslocado. Por isto, diz São Tomás, mesmo quando temos um deslocamento instantâneo, a rigor estamos falando de um movimento no tempo em que o deslocamento dá-se num tempo ínfimo, mas, ainda assim, é um deslocamento no tempo, e não um “termo final” de um tempo que foi de repouso e termina em movimento. Portanto, todo movimento no tempo, mesmo instantâneo, é sempre um movimento contínuo. A física contemporânea confirmou as conclusões a que Tomás chegou por vias filosóficas, e hoje sabemos que o movimento de clarear o ambiente, pelo acendimento de uma lâmpada, ou mesmo a combustão aparentemente instantânea de um corpo, são de fato movimento contínuo que ocorre num tempo mais rápido que a capacidade de percepção humana. Não são análogos ao movimento dos anjos, portanto.
No próximo texto aplicaremos estes princípios ao movimento dos anjos.
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