Mais uma vez estamos numa discussão que é de difícil penetração para nós. Tomás usa uma terminologia que nos é estranha, uma física que nos parece ultrapassada, para falar de um assunto que, hoje em dia, soa completamente desinteressante: o movimento dos anjos. Aqui, para complicar, ele fala da relação entre este movimento e o tempo. Se falar de anjos é complicado, e falar de tempo é complicadíssimo, falar da relação entre os dois soa como uma complicação elevada ao cubo. Mas não devemos perder de vista duas coisas: primeiro, os princípios que Tomás usa para abordar a realidade, e que temos debatido aqui tantas vezes. Segundo, que, ao falar da relação entre as inteligências imateriais e o tempo, ele está mostrando, por contraste, a relação entre nós, inteligências materiais, e o tempo. É uma aula de antropologia filosófica. E nos ajuda a escapar dos riscos de gnoses como a new age ou os espiritismos, que querem nos convencer de que, no fundo, os seres humanos são anjos acidentalmente presos na matéria. Não somos. A contemporaneidade, ao esquecer da importância de estudar os anjos, tornou-se alvo fácil das gnoses. Que nada mais são do que erros antropológicos que fazem nos confundir com anjos. Estudá-los pode nos devolver à noção de que somos humanos, e portanto estruturalmente diferentes de anjos.
Mas vamos ao artigo, sem mais digressões. Estivemos debatendo, nos últimos artigos, sobre a relação entre anjos e espaços, tanto no repouso quanto no deslocamento. Agora estudaremos a relação entre anjos e tempo, especialmente no deslocamento. Vimos que os anjos não se subordinam ao espaço, mas, ao contrário, dominam-no e subordinam-no. Mas e quanto ao tempo? Bem, a hipótese controvertida inicial é a de que “os anjos podem deslocar-se instantaneamente”. Este é um debate muito sutil, como veremos, porque, mesmo que admitíssemos que os anjos deslocam-se instantaneamente, estaríamos admitindo que, de algum modo, eles estão subordinados ao tempo, como nós. E de algum modo eles estão, mas não como nós. Não vamos passar o carro adiante dos bois, porém.
A hipótese controvertida inicial tem três argumentos objetores iniciais a seu favor, e um argumento sed contra.
O primeiro argumento é físico mesmo. Ele inicia com a seguinte afirmação: quanto mais potente é um motor, e quanto menos resistente é aquilo a que a força do motor se aplica, tão mais rápido será o movimento resultante. Seria algo parecido com aquilo que a física de hoje chama de “relação peso-potência”. Um carro muito pesado e com um motor fraco move-se lentamente. Um carro com um motor muito potente e uma carroceria muito leve é capaz de mover-se muito rápido. Um carro com um motor poderosíssimo, a ponto de controlar a própria matéria, e por outro lado fosse um carro imaterial, sem peso nenhum, mover-se-ia instantaneamente, diz o argumento. Ora, o anjo tem um poder extraordinário sobre a matéria; neste sentido, é um motor poderosíssimo. Por outro lado, não tem matéria. A relação peso-potência dele seria tal que permite a ele mover-se sempre instantaneamente, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor vai também no sentido da analogia física. Mesmo entre os seres corpóreos, há certas modificações de estado que são instantâneas, diz o argumento – note-se que estamos tratando aqui da física do século XIII. A luz, diz o argumento, clareia o ambiente instantaneamente. Quando aquecemos alguma coisa, é possível perceber a progressão do aquecimento: a coisa aquece progressivamente. Mas o raio de luz, diz o argumento, não atinge o que está perto antes do que está longe; clareia tudo no mesmo instante. Ora, se a luz, que é um elemento do mundo material, é capaz de mover-se instantaneamente pelo ambiente, conclui o argumento, com muito mais razão poderíamos afirmar que o anjo o faz.
O terceiro argumento debaterá a própria noção do que é instantâneo, para discutir o movimento dos anjos no tempo. Se o movimento dos anjos de um lugar para outro se dá no tempo, isto significa que, dado um tempo “x”, o anjo estará no ponto de chegada no último instante desse tempo; assim, abrem-se duas possibilidades. 1) ele esteve durante todo o tempo precedente, até o penúltimo instante, no lugar anterior, considerado como ponto de partida, ou 2) ele esteve, até o penúltimo instante, parte no ponto de partida e parte no ponto de chegada. Mas esta última alternativa, diz o argumento, não seria possível, porque pressupõe que o anjo tenha uma extensão que possa ser dividida entre os dois pontos. Mas anjos não têm extensão geométrica. Logo, eles não podem dividir-se entre dois lugares, o lugar de partida e o de chegada. Portanto, prossegue o argumento, a única alternativa é a número 1 acima, ou seja, que eles tenham repousado todo o tempo no lugar de partida e no último instante surjam no lugar de chegada. Por isto o argumento conclui que os anjos sempre movem-se instantaneamente.
O argumento sed contra afirma que em todo movimento há a posição anterior e a posterior. Ora, diz o argumento, só há sentido falar-se numa sucessão de posições se elas estão sendo medidas pelo tempo, já que a sequência de movimentos é exatamente o que caracteriza o tempo. Se o anjo muda de posição numa sequência de movimentos, conclui o argumento, então seu movimento tem uma grandeza temporal, e portanto o movimento dos anjos, conclui, não seria instantâneo.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.