Postos, nos textos anteriores, os termos deste complexo debate e a resposta sintetizadora de São Tomás, é hora de examinar os argumentos objetores iniciais e a resposta que Tomás oferece a cada um deles.
O primeiro argumento diz que todo ente que se locomove atravessa necessariamente um espaço intermediário, entre o ponto de partida e o de chegada, que é maior do que ele próprio; mas, indubitavelmente, no percurso, para atravessar o lugar maior, obrigatoriamente atravessa um espaço que lhe é igual em extensão. Aqui, o argumento faz uma afirmação geométrica: o anjo é sem dimensões, sem extensão. Logo, o lugar geométrico que lhe equivale é o ponto. Assim, se o anjo, ao locomover-se, deve necessariamente atravessar um lugar geométrico equivalente a si mesmo, então ele terá que percorrer os pontos intermediários entre a partida e a chegada. Ora, entre quaisquer dois pontos distantes entre si no espaço há infinitos pontos. Mas seria impossível percorrer infinitos pontos no espaço atravessando-os um a um. Disto o argumento conclui que o anjo, ao locomover-se, não atravessa os espaços intermediários entre a partida e a chegada.
O erro desta objeção, diz São Tomás, é a equiparação indevida entre o lugar geométrico do anjo, por um lado, e a figura geométrica do ponto, do outro. É falso dizer que o lugar do anjo no espaço é sempre um ponto. O que define o lugar do anjo não é o fato de que ele é indivisível e sem dimensões. O lugar do anjo é definido por aquilo sobre o que ele exerce seu poder. Este lugar pode, portanto, ser pontual ou extenso, a depender da atividade do próprio anjo. Logo, o lugar do anjo no espaço não necessariamente é pontual. Por outro lado, os lugares intermediários entre a partida e a chegada são sempre infinitos, mesmo que sejam tomados de modo extenso e não pontual, como foi explicado na resposta sintetizadora de São Tomás. No entanto, para o corpo extenso, essa infinitude é potencial, e portanto ele pode de fato atravessar os espaços intermediários num movimento contínuo. Assim, quando os anjos escolhem fazer um movimento contínuo, atravessam tranquilamente os espaços intermediários, porque exercem seu poder sobre algo extenso.
O segundo argumento objetor quer fazer uma analogia entre o pensamento humano, que pode vagar de lugar em lugar sem passar pelos espaços intermediários, por um lado, e o movimento dos anjos, seres puramente espirituais e, portanto, ainda mais livres que as almas humanas. Assim, o argumento conclui que a própria natureza da espiritualidade angélica excluiria a possibilidade de que os anjos adotassem uma locomoção contínua.
Mas essa analogia não é adequada, diz São Tomás. Há uma diferença no que acontece na mente humana, ao pensar em um lugar, por um lado, e o espírito angélico, ao aplicar seu poder sobre um lugar, por outro. Quando um humano pensa sobre um lugar, não é a mente humana que está naquele lugar, mas é o lugar que está na mente humana. Quando o anjo aplica seu poder sobre um lugar, é o anjo que está naquele lugar, e não o lugar que está na mente do anjo. Assim, não há, aí, verdadeira analogia. O anjo pode escolher ente deslocar-se de modo contínuo ou descontínuo. A mente humana não se desloca quando pensa.
Por fim, São Tomás passa a responder ao argumento sed contra, que é algo que ele raramente faz, na Suma.
O argumento sed contra constrói o seguinte raciocínio: quando alguém está no ponto de chegada, já está em repouso; logo, já não se move mais. Quando ainda está no ponto de partida está em repouso, pois ainda não se move. Logo, todo o movimento se dá apenas e tão-somente nos pontos intermediários. Disso o argumento conclui que não é possível existir movimento descontínuo.
Para responder, São Tomás constrói para nós os conceitos de movimento contínuo e de movimento descontínuo. No movimento contínuo, a chegada ao ponto final já não é parte do movimento, mas seu termo, no repouso. Assim, o movimento contínuo consiste na locomoção que se dá entre o ponto de partida e o ponto de chegada, excluindo o repouso nestes dois pontos. É por isto que este tipo de movimento exige, analiticamente, a existência de pontos intermediários percorridos. Mas no movimento descontínuo, a sequência de posições de partida e chegada diferentes no espaço constitui o próprio movimento, fazendo parte intrínseca do mover-se. Neste caso, o ponto de chegada diverso espacialmente do ponto de partida, e vice-versa, constituem o próprio movimento, independentemente de pontos intermediários percorridos. É por isto que, neste tipo de movimento, as posições médias não são intrinsecamente necessárias, em razão de sua definição mesma.
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