Tendo colocado os termos do debate no texto anterior, estamos prontos, agora, para examinar a resposta sintetizadora de São Tomás.
Para isto, é preciso lembrar a sua filosofia, tào diferente da nossa. Para ele, a realidade se estrutura em forma e matéria, e as formas de fato são substanciais. A tendência da filosofia contemporânea, influenciada pelo cientificismo, é imaginar que a verdadeira substância seria alguma partícula fundamental, como o átomo ou o quark ou coisas do gênero. Assim, as coisas, como vistas hoje, são apenas compostos acidentais de partes menores, que, por seu turno, são feitas de moléculas, átomos ou quarks ou coisas assim. Para Tomás, como para a filosofia aristotélica, a substância é a coisa; os seus componentes deixam de existir realmente como substância, sempre que a coisa existe. Por exemplo, o ser humano é uma substância. Assim, digamos, o coração de alguém não existe realmente, não é uma substância, enquanto o respectivo ser humano existe. O meu coração tem existência apenas virtual, potencial, enquanto eu existir substancialmente. Pensemos numa figura geométrica: os pontos que compõem uma linha não existem realmente, mas apenas virtualmente, potencialmente, enquanto a própria linha existir. É importante entender estes conceitos para poder compreender a razão pela qual Tomás fala em percorrer atualmente ou potencialmente os infinitos pontos que se encontram na distância entre a partida e a chegada. Todo corpo tem extensão, é claro. Logo, os pontos aue o compõem existem apenas potencialmente, mas não realmente. Logo, quando um corpo se desloca, ele não percorre realmente os infinitos pontos intermediários, mas apenas potencialmente (já que os pontos, para um corpo extenso, são apenas virtuais ou potenciais). Compreendido este conceito (tão complexo e pouco intuitivo) podemos examinar a resposta sintetizadora de São Tomás.
Já sabemos que o anjo pode locomover-se:
1) De modo contínuo (quando se locomove juntamente com o corpo no qual exerce o seu poder, caso em que o movimento desse corpo, sendo contínuo, determina que o anjo esteja se movendo de modo contínuo, vale dizer, cruzando em sequência os pontos intermediários entre o lugar de partida e o de chegada). Neste caso, Tomás nos explica, citando Aristóteles, que o movimento contínuo implica sucessão de deslocamento no tempo e no espaço; ou:
2) De modo descontínuo (quando não percorre os pontos intermediários entre a partida e a chegada). É um movimento que os entes corpóreos não podem fazer no tempo e espaço; mas que é muito similar ao modo pelo qual nós navegamos na internet: para sair de um portal localizado num computador nos Estados Unidos e conectar com um provedor localizado, digamos, no Japão, não precisamos nos deslocar por todo o espaço entre estes dois países, mas passamos de um site ao outro diretamente. Quando se desloca descontinuamente, o anjo deixa de exercer seu poder sobre alguma coisa em algum lugar e passa em seguida a exercer poder sobre outra coisa em outro lugar, deslocando-se de uma coisa para outra sem percorrer os respectivos pontos intermediários.
Tendo explicado isto, Tomás passa a dar uma aula sobre deslocamento. E o faz a partir de dois princípios: 1) A geometria, como descrição do espaço e 2) A sua noção de ente corpóreo como substância cuja forma faz com que seus componentes existirem de forma apenas virtual ou potencial.
Como já ficou dito antes, o movimento local do anjo pode ser contínuo ou não contínuo. Se for contínuo, ele atravessará os espaços intermediários entre a partida e a chegada. Se descontínuo, não o fará. E São Tomás passa a demostrar como isto se dará. Ele o faz usando seus pressupostos (que não são os nossos, e por isto podem parecer complexos para nós; sigamo-lo com atenção, tentando visualizar as realidades que ele descreve por trás de sua linguagem e sua filosofia).
Vamos pensar, primeiro, geometricamente, na distância que existe entre o ponto “A” e o ponto “B”. Sabemos que, em geometria, pontos são figuras geométricas desprovidas de qualquer extensão. Logo, não é difícil perceber que, dados um ponto “A” e um ponto “B”, qualquer que seja a distância entre eles, há infinitos pontos. Uma vez que os pontos, por definição, não possuem extensão, chega-se naturalmente à conclusão de que, em qualquer espaço entre os pontos “A” e “B” é possível imaginar infinitos pontos.
Mas quando falamos de figuras geométricas com alguma extensão, como os corpos o são, lembramos que, nelas, os pontos não existem realmente, mas apenas virtualmente. Ou seja, apenas de modo potencial. O que existe realmente, então, é o próprio corpo, com sua extensão. Ora, prossegue Tomás, neste caso a distância entre o ponto de partida e o ponto de chegada não apresenta a característica da infinitude geométrica real, já que, entre eles, não cabe infinitas vezes o corpo extenso. É por isto que um ente sem extensão, como um ponto, jamais percorreria realmente uma distância – ele teria que percorrer infinitas vezes a sua própria (in)extensão, o que seria impossível. Mas um corpo, sendo extenso, pode mover-se, já que a medida que terá que mover-se entre a partida e a chegada é atualmente finita (embora potencialmente infinita) em extensão.
Esta infinitude em potência também fica clara quando se imagina que mover-se significa nunca estar no mesmo ponto em dois momentos sucessivos de tempo. Como os momentos, para o tempo, são grandezas sem extensão, como os pontos o são para o espaço, em tese o movimento de um corpo, uma vez que se dá na sucessão de espaço e tempo, também poderia ser infinitamente dividido em instantes temporais sem extensão, somente o fato de que o próprio corpo tem extensão evita que qualquer deslocamento tome um tempo infinito para concluir-se – já que é apenas virtualmente que o corpo extenso percorre os pontos geométricos do trajeto, também é apenas virtualmente que ele percorre os infinitos instantes de tempo do respectivo deslocamento. Vale dizer: num percurso contínuo de um corpo extenso, as infinitudes são virtuais (ou potenciais), enquanto as finitudes são reais. São Tomás nos dará, aqui, um exemplo prático de deslocamento de corpo extenso: imagimemos um bloco de madeira com um palmo de extensão, que tem se percorrer um caminho com dois palmos de extensão. Ele está em repouso no primeiro palmo do percurso, e deve, ao final do movimento, repousar inteiramente no segundo palmo do percurso. A locomoção consistirá, portanto, em abandonar paulatinamente a posição no primeiro palmo e dirigir-se ao segundo palmo. Neste percurso, ele estará, em cada momento, num ponto diferente: sempre abandonando os pontos do primeiro palmo e chegando aos pontos do segundo palmo. Ele percorrerá, com certeza, todos os infinitos pontos do caminho, nos infinitos instantes em que o movimento pode dividir-se. Mas como ele é extenso, os pontos intermediários são apenas potencialmente infinitos para ele (uma vez que a sua extensão é real, mas a sua subdivisão em infinitos pontos é apenas potencial, tanto geometricamente quanto temporalmente), o movimento contínuo terá começo, meio e fim. É a extensão que torna o movimento contínuo atualmente possível (lembrando que atualmente, na filosofia de Tomás, não significa agora, mas efetivo, verdadeiro). Assim, embora efetivamente passe por todos os infinitos pontos intermediários do caminho, é a própria extensão corporal que faz o deslocamento possível.
Mas o que ocorreria se o movimento fosse descontínuo? Neste caso, não haveria um corpo, com sua extensão, deslocando-se ao longo de uma distância, mas uma espécie de filme projetado, em que cada fotograma estaria um ponto à frente do outro. Ora, neste caso, se o ente em movimento descontínuo tiver que percorrer todos os pontos intermediários do percurso, o movimento seria interminável, já que os pontos de qualquer percurso são infinitos. Por isto, Tomás conclui que, no movimento descontínuo, não se pode percorrer os pontos intermediários, sob pena de tornar impossível o deslocamento; ele se tornaria interminável.
Assim, as coisas corporais estão adstritas ao deslocamento contínuo, por sua natureza mesma. Estão submetidas à geometria, pelo simples fato de serem extensas. Mas os anjos são, a um só tempo, incorpóreos e capazes de exercer poder sobre os entes materiais. Assim, tanto podem deslocar-se continuamente, quando submetem a seu poder um ente extenso (e neste caso não são os próprios anjos, mas o ente extenso que submeteram, que se subordina à geometria do deslocamento contínuo), quanto o podem descontinuamente – caso em que não precisam percprrer os pontos intermediários.
No próximo texto veremos a resposta de São Tomás aos argumentos objetores iniciais.
. Ora, mover-se de um extremos para outro, sem passar pelo meio, pode convir ao anjo, não porém ao corpo. Porque este, sendo medido e contido pelo lugar de necessidade há de obedecer às leis do lugar, no seu movimento. Mas a substância do anjo não está sujeita ao lugar como contida por este, ao qual é superior, como continente; por isso, no poder do anjo está o aplicar-se ao lugar, como quiser, quer por um meio termo, quer sem ele.Tendo colocado os termos do debate no texto anterior, estamos prontos, agora, para examinar a resposta sintetizadora de São Tomás.
Para isto, é preciso lembrar a sua filosofia, tào diferente da nossa. Para ele, a realidade se estrutura em forma e matéria, e as formas de fato são substanciais. A tendência da filosofia contemporânea, influenciada pelo cientificismo, é imaginar que a verdadeira substância seria alguma partícula fundamental, como o átomo ou o quark ou coisas do gênero. Assim, as coisas, como vistas hoje, são apenas compostos acidentais de partes menores, que, por seu turno, são feitas de moléculas, átomos ou quarks ou coisas assim. Para Tomás, como para a filosofia aristotélica, a substância é a coisa; os seus componentes deixam de existir realmente como substância, sempre que a coisa existe. Por exemplo, o ser humano é uma substância. Assim, digamos, o coração de alguém não existe realmente, não é uma substância, enquanto o respectivo ser humano existe. O meu coração tem existência apenas virtual, potencial, enquanto eu existir substancialmente. Pensemos numa figura geométrica: os pontos que compõem uma linha não existem realmente, mas apenas virtualmente, potencialmente, enquanto a própria linha existir. É importante entender estes conceitos para poder compreender a razão pela qual Tomás fala em percorrer atualmente ou potencialmente os infinitos pontos que se encontram na distância entre a partida e a chegada. Todo corpo tem extensão, é claro. Logo, os pontos aue o compõem existem apenas potencialmente, mas não realmente. Logo, quando um corpo se desloca, ele não percorre realmente os infinitos pontos intermediários, mas apenas potencialmente (já que os pontos, para um corpo extenso, são apenas virtuais ou potenciais). Compreendido este conceito (tão complexo e pouco intuitivo) podemos examinar a resposta sintetizadora de São Tomás.
Já sabemos que o anjo pode locomover-se:
1) De modo contínuo (quando se locomove juntamente com o corpo no qual exerce o seu poder, caso em que o movimento desse corpo, sendo contínuo, determina que o anjo esteja se movendo de modo contínuo, vale dizer, cruzando em sequência os pontos intermediários entre o lugar de partida e o de chegada). Neste caso, Tomás nos explica, citando Aristóteles, que o movimento contínuo implica sucessão de deslocamento no tempo e no espaço; ou:
2) De modo descontínuo (quando não percorre os pontos intermediários entre a partida e a chegada). É um movimento que os entes corpóreos não podem fazer no tempo e espaço; mas que é muito similar ao modo pelo qual nós navegamos na internet: para sair de um portal localizado num computador nos Estados Unidos e conectar com um provedor localizado, digamos, no Japão, não precisamos nos deslocar por todo o espaço entre estes dois países, mas passamos de um site ao outro diretamente. Quando se desloca descontinuamente, o anjo deixa de exercer seu poder sobre alguma coisa em algum lugar e passa em seguida a exercer poder sobre outra coisa em outro lugar, deslocando-se de uma coisa para outra sem percorrer os respectivos pontos intermediários.
Tendo explicado isto, Tomás passa a dar uma aula sobre deslocamento. E o faz a partir de dois princípios: 1) A geometria, como descrição do espaço e 2) A sua noção de ente corpóreo como substância cuja forma faz com que seus componentes existirem de forma apenas virtual ou potencial.
Como já ficou dito antes, o movimento local do anjo pode ser contínuo ou não contínuo. Se for contínuo, ele atravessará os espaços intermediários entre a partida e a chegada. Se descontínuo, não o fará. E São Tomás passa a demostrar como isto se dará. Ele o faz usando seus pressupostos (que não são os nossos, e por isto podem parecer complexos para nós; sigamo-lo com atenção, tentando visualizar as realidades que ele descreve por trás de sua linguagem e sua filosofia).
Vamos pensar, primeiro, geometricamente, na distância que existe entre o ponto “A” e o ponto “B”. Sabemos que, em geometria, pontos são figuras geométricas desprovidas de qualquer extensão. Logo, não é difícil perceber que, dados um ponto “A” e um ponto “B”, qualquer que seja a distância entre eles, há infinitos pontos. Uma vez que os pontos, por definição, não possuem extensão, chega-se naturalmente à conclusão de que, em qualquer espaço entre os pontos “A” e “B” é possível imaginar infinitos pontos.
Mas quando falamos de figuras geométricas com alguma extensão, como os corpos o são, lembramos que, nelas, os pontos não existem realmente, mas apenas virtualmente. Ou seja, apenas de modo potencial. O que existe realmente, então, é o próprio corpo, com sua extensão. Ora, prossegue Tomás, neste caso a distância entre o ponto de partida e o ponto de chegada não apresenta a característica da infinitude geométrica real, já que, entre eles, não cabe infinitas vezes o corpo extenso. É por isto que um ente sem extensão, como um ponto, jamais percorreria realmente uma distância – ele teria que percorrer infinitas vezes a sua própria (in)extensão, o que seria impossível. Mas um corpo, sendo extenso, pode mover-se, já que a medida que terá que mover-se entre a partida e a chegada é atualmente finita (embora potencialmente infinita) em extensão.
Esta infinitude em potência também fica clara quando se imagina que mover-se significa nunca estar no mesmo ponto em dois momentos sucessivos de tempo. Como os momentos, para o tempo, são grandezas sem extensão, como os pontos o são para o espaço, em tese o movimento de um corpo, uma vez que se dá na sucessão de espaço e tempo, também poderia ser infinitamente dividido em instantes temporais sem extensão, somente o fato de que o próprio corpo tem extensão evita que qualquer deslocamento tome um tempo infinito para concluir-se – já que é apenas virtualmente que o corpo extenso percorre os pontos geométricos do trajeto, também é apenas virtualmente que ele percorre os infinitos instantes de tempo do respectivo deslocamento. Vale dizer: num percurso contínuo de um corpo extenso, as infinitudes são virtuais (ou potenciais), enquanto as finitudes são reais. São Tomás nos dará, aqui, um exemplo prático de deslocamento de corpo extenso: imagimemos um bloco de madeira com um palmo de extensão, que tem se percorrer um caminho com dois palmos de extensão. Ele está em repouso no primeiro palmo do percurso, e deve, ao final do movimento, repousar inteiramente no segundo palmo do percurso. A locomoção consistirá, portanto, em abandonar paulatinamente a posição no primeiro palmo e dirigir-se ao segundo palmo. Neste percurso, ele estará, em cada momento, num ponto diferente: sempre abandonando os pontos do primeiro palmo e chegando aos pontos do segundo palmo. Ele percorrerá, com certeza, todos os infinitos pontos do caminho, nos infinitos instantes em que o movimento pode dividir-se. Mas como ele é extenso, os pontos intermediários são apenas potencialmente infinitos para ele (uma vez que a sua extensão é real, mas a sua subdivisão em infinitos pontos é apenas potencial, tanto geometricamente quanto temporalmente), o movimento contínuo terá começo, meio e fim. É a extensão que torna o movimento contínuo atualmente possível (lembrando que atualmente, na filosofia de Tomás, não significa agora, mas efetivo, verdadeiro). Assim, embora efetivamente passe por todos os infinitos pontos intermediários do caminho, é a própria extensão corporal que faz o deslocamento possível.
Mas o que ocorreria se o movimento fosse descontínuo? Neste caso, não haveria um corpo, com sua extensão, deslocando-se ao longo de uma distância, mas uma espécie de filme projetado, em que cada fotograma estaria um ponto à frente do outro. Ora, neste caso, se o ente em movimento descontínuo tiver que percorrer todos os pontos intermediários do percurso, o movimento seria interminável, já que os pontos de qualquer percurso são infinitos. Por isto, Tomás conclui que, no movimento descontínuo, não se pode percorrer os pontos intermediários, sob pena de tornar impossível o deslocamento; ele se tornaria interminável.
Assim, as coisas corporais estão adstritas ao deslocamento contínuo, por sua natureza mesma. Estão submetidas à geometria, pelo simples fato de serem extensas. Mas os anjos são, a um só tempo, incorpóreos e capazes de exercer poder sobre os entes materiais. Assim, tanto podem deslocar-se continuamente, quando submetem a seu poder um ente extenso (e neste caso não são os próprios anjos, mas o ente extenso que submeteram, que se subordina à geometria do deslocamento contínuo), quanto o podem descontinuamente – caso em que não precisam percprrer os pontos intermediários.
No próximo texto veremos a resposta de São Tomás aos argumentos objetores iniciais.
. Ora, mover-se de um extremos para outro, sem passar pelo meio, pode convir ao anjo, não porém ao corpo. Porque este, sendo medido e contido pelo lugar de necessidade há de obedecer às leis do lugar, no seu movimento. Mas a substância do anjo não está sujeita ao lugar como contida por este, ao qual é superior, como continente; por isso, no poder do anjo está o aplicar-se ao lugar, como quiser, quer por um meio termo, quer sem ele.
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