Este  artigo é muito interessante, por dois motivos: primeiro, ele nos mostra Tomás tentando explicar o modo pelo qual os anjos podem “navegar” pelo mundo, de um modo muito análogo àquele pelo qual explicaríamos a um sujeito daquela época como seria a navegação pela internet, mas sem usar toda a terminologia que temos para descrever esta ação. São Tomás usa o instrumental terminológico que possui para descrever os anjos a fazer, no mundo, algo muito similar ao que os internautas fazem na Rede Mundial de Computadores.
O outro aspecto interessante nesta questão que nos parece tão árdua e um tanto anacrônica é perceber o quanto a internet é um ambiente, digamos, “angelical”. Deste modo, ela não é um habitat adequado aos seres humanos. Fomos criados para o mundo material, e a internet não preenche esta necessidade de relação com a materialidade, que está inscrita em nós. Somos seres, digamos, essencialmente “sacramentais“, vale dizer, somos seres que chegam às coisas espirituais sem prescindir da materialidade. Assim, podemos e devemos navegar na internet; mas sem perder jamais a noção de que ela não nos basta.
Anjos, por outro lado, não têm sacramentos. A matéria é, para eles, algo sempre externo e acidental. Para nós, a matéria é intrínseca à nossa substância mesma. É por isto que toda “espiritualidade” desencarnada é equivocada para os seres humanos, torna-se uma “gnose” atrativa e sedutora mas, no fundo, incapaz de nos levar a Deus. Mas estamos nos alongando em digressões. Voltemos ao tema do artigo.
Ainda estamos debatendo, aqui, a locomoção dos anjos. Sendo incorpóreos, ou seja, essencialmente imateriais, como eles poderiam fazer qualquer deslocamento contínuo? Como os anjos poderiam submeter-se à geometria?
A hipótese controvertida aqui é de que eles não poderiam, mesmo que quisessem, submeter-se à geometria em seus deslocamentos. Ou seja, mesmo que quisessem, os anjos não poderiam fazer um deslocamento que os fizesse percorrer todos os espaços intermediários entre o início e o final de um percurso. Este artigo tem dois argumentos objetores e um argumento sed contra (e, como peculiaridade, o argumento sed contra será devidamente respondido por Tomás, já que expressa uma posição muito exagerada).
O primeiro argumento objetor afirma que qualquer coisa que se move precisa percorrer um espaço que, por definição, é mais extenso do que aquele ente que se move. Ninguém nem nada pode mover-se quando a distância a ser percorrida é igual à sua própria extensão corporal. Não é difícil visualizar isto: se eu estou completamente preso numa caixa que tem a mesma largura do meu corpo, jamais poderei me mexer. Agora vem a parte interessante deste argumento. Ele afirma, categoricamente, que, se o anjo é incorpóreo, ele deve ser, forçosamente, geometricamente indivisível. Ora, prossegue o argumento, a figura geométrica indivisível é o ponto. Logo, a descrição geométrica que corresponderia ao anjo seria o ponto. Mas, prossegue o argumento, entre dois pontos quaisquer no espaço existe um número infinito de pontos intermediários. Ora, se o anjo é um ponto, ele teria, ao locomover-se, que percorrer todos e cada um destes pontos intermediários entre o ponto de partida e o ponto de chegada. Mas, conclui o argumento, percorrer o infinito é impossível. Assim, seria impossível para o anjo, conclui, atravessar os pontos intermediários num movimento de locomoção contínua.
O segundo argumento quer construir uma analogia entre o modo pelo qual o anjo “navega” pelo mundo material, por um lado, e o modo pelo qual nossa mente humana é capaz de pensar nele. O anjo, diz o argumento, tem uma estrutura existencial mais simples do que a alma humana. A alma é parte da estrutura de um ser composto de matéria e forma, que é o ser humano. O anjo, por seu turno, subsiste como forma pura, e neste sentido é mais análogo a Deus, e portanto mais perfeito do que nós. Ora, mas a mente humana é capaz de pensar, digamos, sobre a Itália, e logo em seguida mover seu pensamento para o Japão, sem percorrer os espaços intermediários. Logo, conclui o argumento, com muito mais razão poderíamos afirmar que o anjo se desloca assim, movendo-se daqui para lá sem percorrer os espaços intermediários.
Por fim, o terceiro argumento aqui é o argumento sed contra. Ele tenta construir um raciocínio que submete o anjo à geometria espacial, em seus deslocamentos. Se o anjo é capaz de mover-se de um lugar para outro, diz o argumento, este movimento se dá como uma sucessão anterior ao repouso no lugar de chegada, mas posterior ao repouso no lugar de partida. Aquilo que repousa no lugar de chegada já não se move; mas com certeza se moveu, ou não teria chegado ali. Aquilo que repousa no lugar de partida ainda não se move, mas se moverá, ou então nunca chegará ao seu termo. Ora, conclui o argumento, seria forçoso reconhecer, portanto, que, se o anjo se move, este movimento é algo que ocorre entre o repouso inicial e o repouso final. E isto se dá, diz o argumento, pelo fato de que aquele que se move percorre o que está entre a partida e a chegada. Portanto, conclui, se admitimos que anjos se movem, deveríamos forçosamente admitir que eles percorrem os espaços intermediários.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.