O debate que estamos travando no presente artigo diz respeito ao modo pelo qual os anjos se locomovem pelo mundo criatural, quer dizer, como eles se deslocam pelo espaço.
Terminamos aquele texto lembrando que um ente corpóreo está num lugar porque o lugar o define, ou seja, ele se submete a uma posição espacial e temporal apenas por ser um ente material. E o seu deslocamento implica percorrer os pontos intermediários a uma certa velocidade, de modo que é impensável para um ente material deslocar-se instantaneamente entre dois pontos distantes geograficamente entre si.
Mas com os anjos não é assim. Eles não são determinados pelo lugar onde estão; não é o lugar que os define e marca, mas, ao contrário, dizemos que os anjos estão num lugar porque exercem ali seu poder. Assim, no seu deslocamento, os anjos não estão adstritos a percorrer todos os pontos intermediários entre um lugar e outro. De fato, para exercer o seu poder sobre o mundo material, os anjos precisam estar em algum lugar; e, como já vimos, eles não podem estar em vários lugares simultaneamente. Assim, para mudar de lugar, ou seja, para que passem a exercer poder sobre outro lugar, eles devem deslocar-se. Este é um limite criatural dos anjos. Mas seu deslocamento não sofre os condicionamentos que sofrem os deslocamentos dos seres materiais. Assim, eles podem perfeitamente passar daqui para ali sem percorrer os pontos intermediários. Ou seja, podem fazê-lo instantaneamente. Ou podem, se quiserem, fazê-lo progressivamente, percorrendo os pontos intermediários. Porque, ao exercer seu poder sobre um ente material, eles o fazem em toda a extensão desse ente. Logo, podem, com seu poder, percorrer extensões, embora não sejam eles mesmos extensos.
Uma boa analogia seria o modo pelo qual navegamos na internet. Em certa medida, os anjos “navegam” pela criação de um modo similar ao que usamos para navegar na internet. Para sair de um site localizado num provedor nos Estados Unidos e entrar num portal localizado na França, não precisamos nos deslocar por todo o espaço existente entre os Estados Unidos e a França. Apenas digitamos o endereço do novo sítio e instantaneamente deixamos de estar aqui para estar ali. Mas podemos, também, percorrer virtualmente, digamos, os jardins do Vaticano, ou a famosa Rota 66 nos Estados Unidos, por meio de sites que disponibilizam roteiros turísticos virtuais, inclusive com simulações de tridimensionalidade. Neste caso, podemos escolher uma locomoção que simula um deslocamento material ao longo de todo o percurso, como se estivéssemos fisicamente ali percorrendo todos os pontos intermediários do lugar.
De modo análogo, o anjo pode se locomover progressivamente, exercendo seu poder através dos pontos intermediários entre o ponto de partida e o ponto de chegada; haverá, então, movimento contínuo. Ou poderá deixar de exercer seu poder aqui, passando a exercê-lo, imediatamente, num lugar geograficamente distante do anterior, sem percorrer os pontos intermediários entre os dois lugares. É correto afirmar, então, que o anjo estava aqui e agora está lá, já que, uma vez que não tem onipresença, ele só pode estar em um lugar de cada vez. Neste caso, o seu movimento será espacialmente descontínuo.
Colocados os critérios para a resposta ao problema inicialmente proposto, São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais.
A primeira objeção tenta aplicar princípios da geometria clássica ao movimento dos anjos; aquilo que é indivisível, diz o argumento, não pode propriamente locomover-se, porque não pode percorrer extensões sendo, ele próprio, desprovido de extensão. Tudo o que se move deve estar simultaneamente abandonando uma posição e chegando em outra, o que só é possível quando se tem uma extensão capaz de ocupar simultaneamente mais de um ponto no espaço. Como os anjos não têm extensão, então o argumento conclui que não podem locomover-se.
Mas esta objeção está duplamente equivocada, diz São Tomás. Em primeiro lugar, ela se equivoca ao tentar tratar a imaterialidade angelical como equivalente à falta de extensão geométrica, que é característica da figura do ponto. O ponto é uma figura sem extensão, e portanto ocupa um lugar indivisível, absolutamente não extenso, no espaço. Mas, ainda assim, é uma figura geométrica, e portanto está numa posição espacial que a determina. Os anjos são seres imateriais e incorpóreos, e deles não se pode dizer que são entes pontuais, sem extensão. Mesmo porque os anjos, como vimos na questão anterior, está em algum lugar na medida que exerce ali o seu poder. E os anjos podem exercer poder sobre corpos extensos; portanto, o anjo pode ocupar um lugar extenso espacialmente, enquanto o ponto, por definição, não pode. A analogia espacial entre o anjo e o ponto geométrico não funciona.
A segunda inadequação do argumento é que ele diz respeito ao movimento por locomoção contínua. De fato, no movimento contínuo do ente corporal, há uma sucessão de posições; o ente sempre está numa posição da qual ele sairá e numa outra à qual está chegando. Mas, como vimos, o anjo pode mover-se descontinuamente, ou seja, ele pode abandonar o ponto de partida e surgir no ponto de chegada sem ocupar os pontos intermediários, exatamente como um internauta pode sair de um site sitiado nos Estados Unidos e chegar a um blog hospedado no Japão sem passar pelos países intermediários. Neste caso, não há dúvida de que ele se deslocou, mas não por locomoção contínua, pelo que o enunciado de Aristóteles tampouco se aplica.
Mas e se o anjo estiver em movimento contínuo, como no caso do Arcanjo Rafael acompanhando Tobias? Neste caso, diz Tomás, o movimento se dá porque o anjo exerce seu poder sobre algo extenso; assim, move-se porque aquilo a que aplica seu poder se move. É perfeitamente possível que o poder do anjo se desloque com o deslocamento daquilo sobre o que exerce seu poder, como é perfeitamente possível que o próprio poder do anjo faça com que este corpo extenso se mova, deixando de ocupar o ponto do qual partiu e tendendo a ocupar os pontos intermediários até o ponto de chegada. É assim que os anjos se locomovem sem submeter-se aos limites da matéria: submetendo-a.
O segundo argumento também cita Aristóteles. O movimento, diz Aristóteles, é quando o ser imperfeito tende ao ato, vale dizer, tende à sua própria perfeição.
Mas os anjos, em especial os Santos Anjos, já são plenos, estão completamente em ato. Assim, não seria racional que se movessem. Daí o argumento conclui que os anjos bem-aventurados não se locomovem.
O movimento dos anjos não se dá neles como uma passagem da potência ao ato, responde São Tomás. Isto seria assim se eles fossem seres potenciais caminhando para a perfeição, através do poder de alguma outra coisa ou de alguém. Ao contrário, no caso dos santos anjos, trata-se de seres atuais que exercem o poder sobre algum ente potencial, de modo a levar este ente potencial à perfeição. Assim, o movimento dos anjos não visa o seu próprio aperfeiçoamento, mas, por seu poder, visa a perfeição de outro ente.
O terceiro argumento objetor vai no mesmo sentido, apontando que todo movimento ocorre porque aquele que se move carece de alguma coisa que encontrará no termo do movimento. Mas os santos anjos não são carentes de nada; logo, não há razão para que se movam.
São Tomás diz que a razão para que eles se desloquem não está em alguma carência deles; ao contrário, é a perfeição dos anjos que os leva a moverem-se para suprir as carências humanas. Ou seja, os anjos se movem porque a sua abundância atende às nossas necessidades. É por nós, por nossa causa, que eles se locomovem. E Tomás citará, aqui, Hebreus 1, 14: “Não são todos os anjos espíritos a serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação?”
Podemos nos orgulhar: os santos anjos, embora plenos na sua contemplação de Deus, movem-se pela nossa salvação. Riquíssimos que são, abalam-se para nos enriquecer da única riqueza que realmente importa: a Glória de Deus.
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