Os anjos são criaturas. Fazem parte, pois, deste mesmo universo em que vivemos; aqui agem, aqui interagem, aqui se relacionam. E, como vimos, é característica da sua criaturalidade que não sejam onipotentes ou onipresentes. Dedicam-se a um evento por vez, exercem seu poder em um lugar por vez; este lugar sobre o qual exercem o poder, como vimos, é material. É neste sentido que dizemos que o anjo “está” num lugar: ele exerce ali seu poder. Mas é próprio dos seres materiais o deslocamento espacial. Anjos, por seu turno, não são entes materiais. Como podem exercer, então, seu poder sobre coisas que se deslocam, se a eles próprios o deslocamento, como movimento corporal, é algo conceitualmente estranho?
É isto que vamos debater agora. Se na questão anterior tivemos uma série de debates sobre, digamos, a geometria, ou geografia, angelical, nesta questão debateremos sua dinâmica.
É essencial compreender que, sempre que debatemos alguma coisa sobre os anjos, estamos, antes de mais nada, tentando compreender os seres humanos; como eles são é como normalmente não somos. Assim, a importância de estudar os anjos decorre não somente de tratarem-se da única categoria de criaturas inteligentes além dos humanos, mas de que os maiores equívocos religiosos, como a ideia de reencarnação ou as gnoses em geral, vem do baixo discernimento sobre a natura humana e a natureza angelical.
Essencial, pois, debater a maneira pela qual os anjos deslocam-se pela realidade material. É o que estudaremos nesta questão 53.
Neste artigo primeiro, a hipótese controvertida inicial, para promover o debate, é a de que os anjos não podem deslocar-se, movimentar-se de lugar para lugar pelos espaços do mundo criatural.
São três os argumentos objetores iniciais em favor desta hipótese controvertida.
O primeiro argumento objetor parte da geometria aristotélica, numa tentativa de aplicar os princípios da “Física” de Aristóteles à realidade angelical. O argumento afirma que, segundo Aristóteles, ter alguma extensão é um pressuposto para que algum ente se desloque. Um ente sem extensão, indivisível, como um ponto, não poderia, nem mesmo conceitualmente, deslocar-se, diz Aristóteles. De fato, deslocar-se é estar parcialmente numa posição, que o corpo tende a abandonar, e ao mesmo tempo estar parcialmente em outra posição em que o corpo tende a chegar. Ora, o anjo não tem nenhuma extensão; assim, diz o argumento, ele não poderia estar parcialmente numa posição e parcialmente em outra, porque ele, não tendo extensão, não pode dividir-se entre diferentes posições. Disso o argumento conclui que o anjo não pode deslocar-se espacialmente.
O segundo argumento lembra que mover-se é mudar. E mudar é algo próprio daquilo que não é perfeito: aquilo que já é perfeito não muda; não há razão para mudar-se o que já atingiu a perfeição. Ora, dentre os anjos, temos os demônios e os anjos do céu. Estes últimos atingiram a plena bem-aventurança completa e portanto são perfeitos. Logo, os anjos bem-aventurados não teriam razão para mudar, e portanto são imóveis, conclui o argumento.
O terceiro argumento vai no mesmo sentido; alguém se desloca, diz o argumento, porque sente falta de alguma coisa que espera encontrar em outro lugar. Mas os santos anjos não são carentes de nada. Então não há razão para que eles se desloquem, conclui o argumento.
O argumento sed contra compara a situação dos santos anjos com.a situação de Jesus após a crucificação. Jesus, humano que era, tinha corpo, alma e divindade. Sabemos, diz o argumento, que Jesus, morto, desceu à mansão dos mortos e, em seguida, ressuscitou corporalmente. Ora, se a alma separada de Jesus foi capaz de descer à mansão dos mortos e retornar ao corpo na ressurreição, ela foi capaz de deslocar-se. Ora, se a alma separada de Jesus foi capaz de deslocar-se, também os Santos Anjos poderiam, diz o argumento.
Sim, os santos anjos podem deslocar-se espacialmente, diz São Tomás. Os anjos de fato podem deslocar-se do lugar onde estão até outro lugar.
Mas precisamos sempre lembrar que a noção de “estar num lugar” é diferente para um ente corporal, por um lado, e um anjo, por outro. Estar num lugar é uma noção equívoca, ou seja, não tem o mesmo significado quando referida a um corpo ou a um anjo.
Um ente corpóreo está num lugar porque o lugar o define, ou seja, ele se submete a uma posição espacial e temporal apenas por ser um ente material. O lugar o define: esta pedra aqui, existe neste momento e neste lugar. Por isto, quando um ente corporal se move, ele está como que preso, pautado pelo tempo e pelo espaço: move-se daqui para ali, percorrendo a distância que separa o ponto de partida do ponto de chegada, através do espaço intermediário entre estes pontos e com o tempo que for necessário, dada a sua velocidade.
Mas com os anjos não é assim. É o que estudaremos no próximo texto.
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