Vimos, no texto anterior, a hipótese controvertida de que dois ou mais anjos podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo, ou seja, podem exercer simultaneamente seu poder sobre a mesma coisa. Vimos os argumentos objetores, em apoio a esta hipótese inicial Agora veremos a resposta sintetizadora de Tomás.

Dois anjos não podem exercer seu poder ao mesmo tempo no mesmo lugar, diz Tomás logo para iniciar. Cada vez que um anjo está em um lugar, ele está ali exclusivamente. São Tomás vai fazer uma explicação com base na teoria das causas de Aristóteles.

Cada uma das causas, diz Tomás, em qualquer um dos entes em que elas atuam, são apenas uma, se elas forem causas completas. Vale dizer, as coisas têm a sua forma, a sua matéria, a sua causa eficiente e seu fim. Sempre que estas causas forem capazes de explicar completamente a coisa, elas não são múltiplas. São Tomás dá o exemplo da causa eficiente: aquilo que é capaz de movimentar completamente a coisa é seu motor. Tomás dá o exemplo: se vários homens amarrarem cordas num navio para puxá-lo, o motor não é cada um dos homens, senão a resultante da força de todos. Por isto, se, como vimos nos artigos anteriores, o anjo exerce poder sobre um lugar de tal modo que ele contém o corpo que está no lugar em que ele exerce seu poder, isto significa que há a exclusão de qualquer outra causalidade no mesmo lugar. Se a coisa é totalmente contida no poder do anjo, isto significa que está excluída a possibilidade de que outro anjo atue sobre a mesma coisa no mesmo momento. Eis porque há sempre um, e apenas um, anjo ou demônio atuando sobre uma coisa num determinado momento.

E o que dizer dos relatos bíblicos como o de Mc 5, 9, quando Jesus interroga o espírito que possui o geraseno, e ele responde que seu nome é Legião, porque são “muitos”? O fato de que há uma legião de espíritos maus atormentando aquele homem não significa que eles o possuam simultaneamente, diria Tomás. Mas que todos exercem seu poder sobre ele oportunamente.

Colocados os fundamentos Tomás passa a examinar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento lembra que a regra de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar funciona somente para entes materiais, não para os anjos. Logo, eles podem estar no mesmo lugar ao mesmo tempo, conclui o argumento. Mas Tomás responderá simplesmente que não é o preenchimento do lugar com matéria que impede dois anjos de estarem ao mesmo tempo no mesmo lugar; mas o preenchimento do lugar com o poder do anjo que opera ali.

O segundo argumento diz que se o anjo e os entes corporais, que são tão diferentes, podem estar simultaneamente no mesmo lugar, (como no caso da possessão demoníaca de um ser humano) muito mais o podem dois ou mais anjos, que são semelhantes entre si, conclui o argumento.

Esse argumento não faz sentido, diz Tomás. De fato, o modo pelo qual um corpo e um anjo estão no mesmo lugar são diferentes: um deles, o corpo, ocupa o lugar preenchendo-o. O anjo, porém, ocupa-se do lugar abrangendo-o com seu poder. Logo, um corpo e um anjo podem ocupar o mesmo lufar, porque o modo é diferente. Mas dois anjos não o podem.

O último argumento cita Santo Agostinho, que diz que, embora o anjo não possa penetrar na mente de um ser humano, ele pode possuir o seu corpo; logo, a alma espiritual do ser humano e o anjo estariam no mesmo corpo ao mesmo tempo. Assim, o argumento conclui que dois entes espirituais podem estar no mesmo lugar ao mesmo tempo, e portanto dois ou mais anjos também o podem.

Sim, de fato estão, diz Tomas; mas novamente ele nos lembra que eles não estão ali do mesmo modo. A alma está ali como forma do corpo, elemento que compõe o próprio ente material. O demônio, por outro lado, está ali como quem exerce poder sobre o corpo, possuindo-o. Assim, o argumento não vale.

Podemos, pois, extrair alguns princípios interessantíssimos: sempre que o seu anjo da guarda estiver vivendo com você, ou seja, enquanto você se submete ao poder dele, nenhum espírito maligno exercerá seu poder contra você. Além disso, os demônios não podem conhecer sua mente jamais, salvo se você mesmo der conhecimento a ele. Assim, mantenha-se com seu anjo e nunca abra portas ao demônio.