Este artigo é uma daquelas joias preciosas que a nossa caminhada pela Suma faz com que encontremos aqui e ali. Desde o início deste blog, eu tenho usado a imagem da visita turística por uma antiga catedral para caracterizar nossa incursão neste patrimônio que é a Suma. Esta seção sobre os anjos é um daqueles desvãos empoeirados e aparentemente abandonados e inúteis, mas que esconde, aqui e ali, uma pérola, um tesouro de inestimável valor, esperando para quem venha garimpá-lo. Este é o valor deste artigo. Aqui, veremos como os anjos podem relacionar-se conosco. É muito interessante ver quantas consequências podem ser tiradas de um artigo tão breve, tão aparentemente baseado numa ciência física anacrônica, mas com uma lição insuperável sobre a possibilidade de nossa relação com estas criaturas inteligentes, únicas criaturas inteligentes além de nós humanos, e que têm o privilégio de serem puras inteligências e de nos ver, enquanto nós somos inteligências animais cegas a eles. Nós não enxergamos os anjos, mas eles são reais e relacionam-se conosco, enxergando-nos. Muito útil, portanto, saber exatamente como se dá esta relação. Quantos anjos podem relacionar-se conosco? O que eles podem saber de nós? Informações importantíssimas. Para o bem e para o mal.

Como os anjos relacionam-se conosco? Como pode se dar uma possessão demoníaca? Os anjos podem nos ver, conhecer nossos pensamentos? Quantos anjos exercem influência em nós a cada momento? É quase como se estivéssemos mergulhados numa guerra, ou ao menos num grande debate, no qual somos cegos, surdos e mudos, e nem sequer tenhamos consciência dos amigos e inimigos envolvidos, mas estamos lá de qualquer jeito. Há como saber, ao menos, quantos deles estão simultaneamente em relação conosco? E o que eles podem fazer conosco nesta relação? Este artigo nos dará pistas importantes sobre isto. Como um velho pergaminho preciosíssimo escondido no desvão de uma velha catedral, vamos tentar entendê-lo e principalmente vamos nos apropriar dele!

Claro que as respostas não estão todas aqui; mas certamente há pistas importantíssimas. Como em tudo o que está na Suma. A suma é pra ser lida assim: sem ansiedade, sem querer respostas imediatas, deliciando-se em descobrir pedacinhos e ir formando imagens. O contrário da comunicação instantânea de hoje em dia.

Vamos ao debate. A hipótese controvertida, aqui, para iniciar a polêmica, é a de que muitos anjos podem estar simultaneamente no mesmo lugar, ou seja, muitos anjos podem exercer poder sobre a mesma coisa ao mesmo tempo. Abrindo uma digressão, trata-se de discutir, entre outras coisas, quantos anjos e demônios podem estar disputando simultaneamente o poder sobre você. Mas vamos voltar ao debate.

Os argumentos objetores querem, portanto, provar a ideia de que vários anjos podem efetivamente exercer poder sobre a mesma coisa (o mesmo ente ou até a mesma pessoa humana) ao mesmo tempo.

O primeiro argumento lembra que é uma regra da física que dois corpos não podem ocupar simultaneamente o mesmo lugar do espaço, simplesmente porque cada corpo preenche de matéria o lugar onde está, impedindo que outro corpo o ocupe simultaneamente. Mas os anjos não têm corpo, como já vimos nos artigos anteriores. Disto o argumento conclui que nada impede que muitos anjos ocupem o mesmo lugar, ou seja, exerçam poder sobre a mesma coisa simultaneamente.

O segundo argumento parte da ideia de que se compararmos um anjo com um ente corpóreo, eles são enormemente diferentes entre si, muito mais do que se compararmos dois anjos um com o outro. Mas um anjo e um corpo, dessemelhantes como são, podem ocupar o mesmo lugar no espaço – um, o ser corporal, preenchendo-o, e o outro, o anjo, exercendo poder sobre ele. Ora, diz o argumento, se dois seres tão dessemelhantes como o anjo e um corpo podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo, então nada impediria que dois seres semelhantes, como dois anjos, também o pudessem.

O terceiro argumento resgata de novo aquela citação de Santo Agostinho sobre a situação da alma no corpo. A alma, sendo ela formal, espiritual e indivisível, está inteiramente e sempre em qualquer parte do respectivo corpo que ela anima e que com ela forma um ente. Ora, sabemos que os anjos não têm acesso ao nosso intelecto; o que está em nosso intelecto só pode ser conhecido diretamente por nós mesmos e por Deus. Mas os anjos têm acesso aos nossos corpos e podem exercer poder sobre eles, num fenômeno conhecido como possessão demoníaca. Neste caso, exercendo poder sobre um corpo humano, dizemos que o respectivo demônio está nesse corpo. Ora, se duas realidades espirituais (a alma do ser humano possuído, por um lado, e o demônio que o possui, por outro) podem estar no mesmo lugar, quer dizer, no corpo do ser humano possuído pelo demônio, com muito mais razão vários anjos ou demônios podem ocupar simultaneamente o mesmo lugar, vale dizer, podem exercer ao mesmo tempo seu poder sobre o mesmo ente corpóreo.

O argumento contrário é ontológico: cada ser humano é constituído de um corpo e uma alma. Não há a possibilidade de duas almas constituírem o mesmo ser humano. Duas almas não podem, portanto, estar no mesmo lugar ao mesmo tempo. Por muito mais motivo não se pode imaginar que dois anjos possam estar no mesmo lugar ao mesmo tempo.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.