Vimos, na questão anterior, que podemos associar lugares a anjos, mas não da mesma maneira como associamos os lugares aos entes corpóreos. Anjos são associados a lugares porque exercem seu poder sobre eles, não porque são definidos como contidos em determinadas coordenadas geográficas.

Mas aqui uma questão sucessiva se levanta: se os lugares podem estar submetidos ao poder dos anjos, e se os anjos não estão aprisionados pelos limites materiais das coordenadas geográficas, então eles podem exercer seu poder sobre diversos lugares, simultaneamente? Qual seria, então, a diferença entre o poder dos anjos e a onipresença onipotente de Deus?

Para iniciar o debate, é proposta a hipótese controvertida de que os anjos podem estar em vários lugares simultaneamente. Isto significa afirmar que ele poderia exercer seu poder em vários pontos geográficos ao mesmo tempo. Há três argumentos no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento diz que o anjo é um ente mais poderoso do que a alma humana. Mas a alma, segundo Santo Agostinho, está toda em qualquer parte do corpo simultaneamente. Ora, se a alma, que é menos poderosa do que o anjo, pode estar em vários lugares do corpo simultaneamente, muito mais o anjo pode estar em vários lugares ao mesmo tempo, conclui o argumento.

O segundo argumento traz a ideia de que o anjo exerce o poder sobre algo que está em algum lugar; mas não sobre um ponto naquele algo, nem sobre uma parte daquele algo, mas sobre toda a sua extensão, e está inteiro exercendo o poder em tal extensão e em cada uma de suas partes. Imagine-se o Anjo de Portugal: ele exerce seu poder sobre Portugal inteiro, e o exerce sempre, simultaneamente e indivisivelmente em cada parte de Portugal. Disso o argumento conclui que o anjo está em vários lugares simultaneamente.

Por fim, o terceiro argumento cita São João Damasceno, que explica que o anjo exerce seu poder ali onde está. Mas na passagem da destruição de Gomorra, as Escrituras nos contam, em Gn 19, 25, que o anjo destruiu simultaneamente Sodoma, Gomorra, suas planícies e lugarejos adjacentes. Disso o argumento conclui que, tendo exercido o poder simultaneamente sobre todos estes lugares, o anjo estava simultaneamente em todos eles.

O argumento contrário também cita o Damasceno, desta feita numa passagem em que ele diz: os anjos, quando estão no céu, não estão na Terra.

Postos assim os termos do debate, vamos à resposta sintetizadora de São Tomás.

Anjos não são deuses, eles têm os limites criaturais quanto ao poder e quanto ao lugar de operar. Também quanto ao seu conhecimento, que é igualmente limitado. Somente Deus é ilimitado em poder (onipotente), ilimitado em presença (onipresente) e ilimitado em conhecimento (onisciente). Por isto ele pode operar simultaneamente em todos os tempos e lugares.

O anjo, por sua vez, tem poder finito. Uma vez que o lugar que se relaciona ao anjo é o lugar em que ele exerce seu poder, o alcance do anjo (digamos assim) também é limitado. Ele só pode atingir uma coisa de cada vez, sucessivamente, nunca simultaneamente. Por isto, a onipotência de Deus leva-o a relacionar-se simultaneamente com toda a criação; a criaturalidade do anjo, porém, determina que ele aplique o seu poder a um lugar de cada vez – o que significa que ele não pode estar simultaneamente em dois ou mais lugares. O anjo é uma criatura, um ser particular, e assim exerce seu poder de modo particular.

Não devemos, porém, deixar a nossa imaginação humana nos enganar, aqui. De fato, temos a tendência muito humana de imaginar um “lugar” geometricamente como um ponto, isto é, como uma coordenada precisa que define uma localização certa e definida, mas não tem dimensões. Assim, alguns defenderam, erroneamente, que o anjo exerce seu poder sobre um ponto geométrico, e é aí que podemos localizá-lo. Não é assim. O anjo, sendo incorpóreo e imaterial, não está sujeito à geometria, mas à relação. Ele aplica seu poder àquela coisa singular com a qual se relaciona, em toda a sua extensão, e não simplesmente num ponto determinado. Assim, por exemplo, o Anjo de Portugal exerce seu poder custodiando este corpo geopolítico que se chama “Portugal”, e não um ponto de cada vez dentro do mapa. O meu anjo da guarda exerce seu poder sobre mim, ou melhor, comigo, e não a um ponto geométrico em mim ou em torno de mim. Assim, concebendo a localização do anjo como uma relação com um corpo particular, e não como uma pressão num ponto geométrico, ficaria mais claro discernir que, quando ele exerce seu poder como relação com um ente particular, mesmo que muito extenso, ele não está na verdade exercendo algum tipo de multilocação ou onipresença, mas apenas relacionando-se de modo particular com algo geometricamente extenso.

Ainda que fosse verdadeira a ideia de que os anjos movem os céus, como acreditava Tomás com base na física de seu tempo, fica muito claro que o movimento cósmico tem sempre magnitude e direção, de modo que, mesmo neste caso, os anjos não estariam onipresentes, mas exerceriam seu poder de modo singular e localizado. Como se acreditava naquela física, eles estariam no oriente, movendo os corpos para o ocidente. O exemplo físico é certamente anacrônico, mas o princípio da relação singular fica esclarecido e transcende à ciência ultrapassada que lhe serve de exemplo.

Assim, há três maneiras pelas quais os entes se relacionam com os lugares: os entes materiais estão contidos e são definidos pelos lugares (a geometria se aplica a eles como parte do que são). Os anjos relacionam-se com os lugares pela singularidade do poder particular que exercem sobre uma coisa de cada vez. Deus, que é o único onipotente, onisciente e onipresente, não está sujeito a nenhum desses limites.

E isto, diz Tomás, já responde suficientemente às objeções iniciais.

De fato, diz Tomás, percebendo que a noção de “lugar”, quando aplicada à atuação do anjo, relaciona-o ao corpo do objeto de sua operação, nota-se que, uma vez que este corpo por vezes é extenso, pode-se ter a impressão de que ele está atuando em muitos lugares ao mesmo tempo. Mas, do mesmo modo que a alma humana está por inteiro em qualquer parte do corpo humano que anima, o anjo está por inteiro em qualquer parte do corpo do ente sobre o qual atua (como o Anjo de Portugal, por exemplo, está por inteiro em Portugal inteiro). Assim, o primeiro argumento fica respondido. O segundo argumento chega à conclusão equivocada porque não entende este princípio, e, imaginando que a atuação do anjo é pontual, afirma que ele está simultaneamente em vários lugares quando atua em um corpo extenso – quando na verdade não está, como vimos.

Por fim, o terceiro argumento quer deduzir que o anjo pode estar em vários lugares a partir da narração do Gênesis sobre a destruição de Sodoma e Gomorra. Mais uma vez, se concebermos a atuação angelical como uma relação com um corpo, ainda que social e político, entendemos como a atuação pode ser extensa sem ser múltipla.