Nas questões anteriores, debatemos a relação dos anjos com a matéria, em especial com os corpos. Agora vamos debater a relação com os lugares.

De fato, estamos acostumados com a noção cartesiana de corpo como extensão, e espírito como pensamento. Este dualismo nos leva a imaginar que os anjos não se relacionam com os lugares, ou seja, que eles não estão em lugar nenhum; ou, antes, que eles não se limitam por lugares. Mas a onipresença é uma característica exclusivamente divina, e, por isto, deve ser próprio dos anjos, em razão de sua criaturalidade, o limite, inclusive o limite espacial. Mas como falar de limite espacial para um ser que não tem corpo, e portanto, a rigor, não está inserido no espaço e no tempo?

É por isto que a hipótese controvertida, aqui, propõe que os anjos não estão em nenhum lugar. São três os argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento cita Boécio, que afirma que há uma opinião comum entre os sábios de que aquilo que é incorpóreo não pode ser localizado em algum lugar específico; cita também Aristóteles, que teria dito que nem tudo o que existe pode ser situado num determinado lugar, mas apenas aquilo que é corporal e mutável. Mas o anjo é incorpóreo, lembra o argumento. Então ele não pode estar em algum lugar, quer dizer, ser localizado numa determinada coordenada especial.

O segundo argumento define “lugar” como algo mensurável que está numa determinada posição. Ora, os anjos não podem ser mensurados em termos de massa ou extensão, e portanto não podem ser posicionados especialmente. Assim, o argumento conclui que os anjos não podem ser situados num determinado lugar.

Por fim, o terceiro argumento define “estar num lugar” com “ser definido por ele”. Mas aquilo que é menos perfeito, formalmente, não pode definir aquilo que é mais perfeito formalmente. Ora, os anjos são perfeitos como puras formas, independentemente de qualquer matéria, mas os lugares são referências materiais. Logo, se os anjos estivessem num lugar qualquer, eles seriam definidos como “o anjo deste ou daquele lugar”, e portanto um elemento material seria inserido na definição de um ser estritamente formal. Disto tudo o argumento conclui que não se pode apontar um lugar para os anjos.

O argumento sed contra apela para a autoridade da Igreja, que, na oração de coleta da Liturgia das Horas, nas Completas, reza: “que teus santos anjos que habitam nesta casa nos guardem em paz”, mostrando que relacionar os anjos com lugares faz parte da tradição da fé.

Postos os termos do debate, vamos à resposta sintetizadora de São Tomás.

É perfeitamente possível associar anjos a lugares, diz Tomás. Mas não no mesmo sentido que nós associamos coisas corporais a lugares. Quando nós dizemos que alguma coisa corpórea está num lugar, queremos dizer que as suas dimensões espaciais, ou seja, a massa que forma seu corpo, localiza-se espacialmente em determinada coordenada geográfica; vale dizer, estar num lugar é determinado por uma característica própria dos entes corpóreos, que é a extensão, quer dizer, a medida de suas dimensões físicas. Mas anjos, como sabemos, não têm dimensões físicas, e a medida de um anjo é a medida da sua inteligência, que determina o seu poder. Logo, dizemos que um anjo está num lugar quando o poder de um anjo se aplica a um determinado lugar geograficamente determinável. É neste sentido que falamos, por exemplo, no Anjo de Portugal, ou mesmo no Anjo de Israel.

Por isto, diz Tomás, temos que ter muito cuidado para não imaginar que o anjo seja, de qualquer modo, determinado ou mensurado pelo lugar no qual ele exerce seu poder. Não podemos imaginar, por exemplo, que o Anjo de Portugal tenha a extensão territorial de Portugal, enquanto o meu anjo da guarda seja do meu tamanho. Esta relação entre um ente e um lugar, que determina que o lugar dê a medida do ente, só é pertinente aos seres corpóreos. Também não podemos imaginar que o anjo seja contido pelo lugar em que ele está, como, por exemplo, uma massa de água é contida por uma barragem de concreto. De fato, quando o anjo exerce seu poder sobre um lugar, podemos dizer que é ele quem domina, determina a situação. Seria mais próprio dizer, neste caso, que o anjo contém o lugar no seu poder, e não que é, de qualquer maneira, contido por ele. Para dar um exemplo, se eu digo que uma casa fica no Brasil, significa que esta casa está contida neste lugar que se chama Brasil. Mas se digo que aquele anjo é o Anjo do Brasil, quero dizer, na verdade, que aquele anjo exerce o seu poder de proteção sobre o Brasil, isto é, o Brasil está contido no âmbito do seu poder angelical.

Quanto aos argumentos objetores iniciais, São Tomás considera que sua resposta já foi clara o suficiente para elucidá-los, e não os examinará separadamente.

De fato, o primeiro argumento cita Boécio e Aristóteles para dizer que aquilo que é incorpóreo não pode estar contido num lugar. Examinando a resposta sintetizadora de Tomás, diremos que, de fato, os anjos não podem estar contidos em lugares, mas podem contê-los (no sentido de abranger, de exercer seu poder sobre eles).

O segundo argumento diz que os anjos não podem ter dimensões espaciais, e por isto não poderiam ser associados a lugares. Mas, como vimos, os anjos são associados a lugares em razão da dimensão do seu poder, não de alguma dimensão material.

Por fim, o terceiro argumento diz que o lugar faz parte da própria definição das coisas corpóreas. Não seria possível que um lugar, que é uma dimensão material, definisse o próprio ser do anjo, que é essencialmente imaterial, ou seja, pura forma subsistente. Mas já vimos que não é o lugar que contém o anjo; mas ao contrário, é o anjo que contém o lugar no âmbito de seu poder.