No outro texto, introduzimos o debate sobre a natureza dos corpos assumidos eventualmente pelos anjos. Seriam eles corpos biológicos?
Não, responde Tomás.
Mas como eles são capazes de produzir certos fenômenos que parecem próprios de funções biológicas?
Há certos fenômenos, diz Tomás, que são comuns ao mundo físico inanimado e ao mundo biológico. Por exemplo, o falar, que é, em última instância, produzir sons. Também no mundo inanimado há fenômenos capazes de produzir sons, como o correr da água, o sopro do vento, dentre outros. O movimento, que nos seres vivos se manifesta como andar, pode encontrar-se nos entes inanimados como causados pela gravidade ou mesmo por outras tensões, ou até mesmo por empuxos externos. Assim, diz Tomás, os anjos podem exercer operações, na matéria que assumem para aparecer como corpos, sem que tais operações sejam biológicas, a partir da capacidade que a matéria tem de produzir estes mesmos fenômenos independentemente da vida (no sentido biológico do termo). Não há, porém, nestes corpos, funções biológicas efetivas, porque, como lembra Aristóteles, os atos correspondem às potências, e atos biológicos deveriam corresponder a potências biológicas, que não estão presentes nos anjos. Os anjos não têm vida no sentido biológico, e por isto não poderiam produzir nos corpos assumidos aquilo que não têm. Os corpos que os anjos eventualmente podem assumir não são, portanto, corpos vivos, porque os anjos não são formas de seres vivos, como a alma humana.
Colocados os princípios, São Tomás passa a revisitar as objeções iniciais, para respondê-las adequadamente.
O primeiro argumento objetor afirma o princípio de que não cabe nenhuma dissimulação, nenhuma mentira, no que diz respeito aos anjos. Mas se o corpo que eles assumem parecesse vivo sem o ser de verdade, isto seria falso, e portanto indigno dos anjos. Daí o argumento conclui que os corpos assumidos eventualmente pelos anjos estão vivos de fato.
As escrituras costumam descrever realidades espirituais sob símbolos materiais, diz Tomás. Isto não significa nenhuma falsidade, mas apenas uma forma de comunicar o espiritual sob figuras sensíveis, adequadas à compreensão humana. Sarça ardente, nuvem de fogo, pomba, água, arca, diversas realidades sensíveis, usadas inclusive para manifestar o poder invisível de Deus. É um meio de comunicar, não de enganar. É por isto que o corpo assumido pelos anjos comunica a vida espiritual deles, através da aparência de vida humana nos corpos, sem que esta vida humana seja efetiva, mas apenas sinal. E, de fato, é mais conveniente que seja assim, diz Tomás. Uma vez que os anjos não são vivos no sentido biológico do termo, se o corpo que eles eventualmente assumira,m viesse a manifestar vida biológica real, não seria signo de anjos, mas faria deles seres humanos, o que eles não são. Neste caso é que haveria incongruência.
O segundo argumento diz que, uma vez que nada é em vão na operação dos anjos, não seria admissível que os corpos que eles assumem aparentassem ter os órgãos dos sentidos, como narizes, ouvidos e bocas, sem que houvesse a respectiva sensibilidade desses órgãos. Assim, como a existência de órgãos do sentido verdadeiramente funcionais é uma marca de vida biológica, então o argumento conclui que estes corpos estão biologicamente vivos.
De fato, diz Tomás, a sensibilidade é uma operação biológica. E por isto não podemos admitir que os anjos de fato sintam, com os órgãos desse corpo que eventualmente assumem. Mas nem por isto são vazios: são expressões visíveis de poderes reais dos anjos, como a visão espiritual que eles têm, e que é expressa pelos olhos dos corpos, ou mesmo a capacidade de relação com o ambiente, expresso pelas mãos, ou a capacidade de comunicação, expressa pela boca e ouvidos. Mais uma vez, trata-se da expressão visível de realidades espirituais efetivas.
O terceiro lembra as passagens bíblicas em que os anjos caminham, ou seja, são vistos deambulando fisicamente, corporalmente. Logo, como caminhar é uma operação biológica, o argumento conclui que os anjos de fato exercem funções e operações biológicas reais nos corpos que assumem.
São Tomás vai explicar que, no caso dos animais, que tem a capacidade natural de caminhar, aquilo que move não é substancialmente diferente daquilo que é movido. De fato, o princípio de movimento é a própria forma do ser, a forma substancial animal, que é uma alma. O corpo de um ser biológico tem, portanto, na sua própria alma o princípio do seu deslocamento – não como se o corpo fosse outro com relação à alma, mas porque o corpo e a alma estão substancialmente unidos naquele ente, que, por isto mesmo, é um animal.
Mas os corpos que os anjos eventualmente assumiram nos encontros registrados nas escrituras não se moviam assim. Eles se movam como que empurrados desde fora; aquilo que os move, ou seja, o anjo, é outro com relação ao corpo. É verdade que se pode dizer que os anjos, movendo estes corpos, estão especialmente aqui e não ali, e neste sentido eles não poderiam mover simultaneamente vários corpos em vários lugares diferentes. Mas isto não faz com que o anjos seja substancialmente um com o corpo movido.
Anjos são criaturas, não são como Deus, que está em todas as partes e pode mover tudo sem que ele próprio se mova. Os anjos, ao moverem os corpos que assumem, estão ali e não em outro lugar, já que experimentam o limite da criaturalidade. E São Tomás vai lembrar que, de acordo com a física antiga, os filósofos gregos acreditavam que seres espirituais moviam os corpos celestes em sua trajetória pelo Cosmos – e estavam localizados sempre a leste dos corpos movidos, já que, devido à rotação da Terra, todos os corpos celestes parecem mover-se de leste para oeste, e, portanto, a força que os move parece ser algo situado no leste. É claro que esta física já não nos interessa, mas o princípio continua válido: anjos não vivificam corpos, mesmo se forem capazes de movê-los. É por isto que anjos não encarnam, mas relacionam-se com a matéria apenas de fora, como que a empurrá-la. Um encarnacionismo, ou reencarnacionismo, seria, portanto, impensável no plano criatural. Ou se é corpo animal, e se tem a alma como parte do ente, ou se é anjo, substancialmente espiritual, e a relação com o mundo material é sempre externa.
O quarto argumento objetor menciona a capacidade de falar, que estes corpos apresentam. Falar é uma operação vital, e portanto os corpos assumidos pelos anjos exercem efetivamente funções biológicas.
Mas não é assim, diz Tomás. Não é que os anjos falem por mecanismos biológicos dos corpos assumidos, mas, do mesmo modo que podem manipular os elementos para figurar corpos, também podem manipular o ar para gerar sons.
O quinto argumento trata do fato de que as escrituras relatam anjos fazendo refeições; comer, diz o argumento, é uma função biológica tão notável que Nosso Senhor Jesus Cristo, ressuscitado, querendo provar que de fato estava vivo, comeu com seus discípulos. Logo, os corpos assumidos pelos anjos exercem de fato funções biológicas, conclui o argumento.
Jesus comeu realmente, com seu corpo ressurrecto, diz Tomás. O seu corpo é realmente um corpo humano, embora em estado de glória, e por isto é capaz de relacionar-se com a matéria ingerida e processá-la, ainda que de maneira diferente daquela que nós digerimos, dada a perfeição do corpo glorioso.
Mas no caso dos anjos, não há um ato real de ingerir e digerir, mas apenas uma aparência de ingestão, pela manipulação da matéria, que simboliza a alimentação espiritual mencionada em Tb
Tb 12, 18-19, quando o Arcanjo Rafael explica: “Quando eu estava convosco, (…) Parecia-vos que eu comia e bebia convosco, mas o meu alimento é um manjar invisível e minha bebida não pode ser vista pelos homens”.
Quanto ao episódio do Gênesis em que Abraão oferece alimento aos anjos, ele o faz pensando que eles fossem seres humanos, profetas em quem ele via a própria presença de Deus. Fê-lo, portanto, por um ato especial de veneração a Deus, e assim este ato foi recebido pelos anjos, não como um ato de alimentação física.
Por fim, o sexto argumento é o mais curioso e anacrônico deste artigo. Trata da crença medieval na existência de demônios íncubos e súcubos, capazes de manter relações sexuais com seres humanos e até de provocar gravidez nas mulheres. Disto o argumento conclui que os corpos assumidos eventualmente pelos anjos, mesmo pelos maus anjos, são realmente biológicos, pois são capazes mesmo de gerar uma gravidez numa mulher.
A resposta de Tomás parte da explicação sobre o Gênesis, capítulo 6, versículo 4, no qual há menção a gigantes, a filhos de Deus que se uniam às filhas dos homens e geravam heróis. Não há menção direta a anjos aí, nem se precisa interpretar a passagem como referindo-se a eles, diz Tomás. De fato, pode-se interpretar no sentido de que estes “filhos de Deus” eram os filhos de Seth, enquanto as “filhas dos homens” eram as descendentes de Caim, a demonstrar que não havia separação entre estas linhagens, e que havia a geração de filhos dignos, chamados de “gigantes” e “heróis”.
Quanto a íncubos e súcubos, Tomás concede que até Santo Agostinho os mencionou, e por isto não seria Tomás a desmenti-lo. Mas quanto a demônios produzindo gravidez, São Tomás não admite. Com muita firmeza, ele explica que a gravidez pressupõe o sêmen masculino humano. Recomenda investigar, então, qual a origem do respectivo sêmen, para chegar à descoberta de quem é o pai da criança. Ou seja, esse papo de súcubo e íncubo não deve distrair ninguém da verdade de que todo bebê tem mamãe e papai, muito humanos. Bom conselho!
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