Vimos, então, que os anjos são capazes de assumir corpos materiais e de estabelecer relações reais com seres humanos, relações que são percebidas pelos órgãos sensoriais humanos com a concretude das coisas materiais. Vimos que São Tomás defende que estes corpos assumidos pelos anjos seriam constituídos de elementos gasosos que, condensados ou rarefeitos, apresentam-se fenomenologicamente aos humanos como um corpo humano real. Vimos também que estes corpos representam, materialmente, aquilo que nos anjos é uma realidade espiritual, como a visão, a possibilidade de relação, a comunicação. A questão que se põe, agora, é sobre a estrutura mesma destes corpos. Eles são biológicos, estão vivos como um corpo humano está? Eles assumem corpos vivos, ou seja, vivificam biologicamente os elementos que assumem para formar os corpos com que se apresentam?
É bom notar que a Suma foi escrita antes do advento da leitura histórico-crítica da Bíblia; São Tomás faz uma leitura muito literal dos eventos, que não considera gêneros literários nem o contexto do texto. Se há a narração do aparecimento físico de um anjo, há o aparecimento físico de um anjo, e não um recurso literário para comunicar alguma realidade que, de alguma forma, seria melhor comunicada com este recurso. Em todo caso, os princípios que Tomás enuncia ainda continuam válidos para estabelecer o contraste com a antropologia, da qual ele tratará adiante. [E bom saber o que seria o corpo para um ser puramente espiritual, de modo a poder estabelecer exatamente o que é o corpo para os seres humanos. Um anjo relaciona-se com um corpo que assume de modo completamente diferente daquele pelo qual um humano se relaciona com seu próprio corpo. E isto é importante para identificar desvios espiritualistas ou gnósticos, ou mesmo tomar consciência da natureza e do valor de um corpo humano.
A hipótese controvertida, para provocar o debate, é a de que estes corpos que os anjos assumem por ocasião das aparições relatadas na Bíblia eram biologicamente funcionais, ou seja, tinham de fato as mesmas funções biológicas que os corpos humanos. Há, aqui, seis argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento parte da ideia de que não há dissimulação possível no mundo angelical. Não há a possibilidade de simulações e fingimentos. Assim, conclui o argumento, se os corpos assumidos parecem vivos, conclui, eles necessariamente devem estar vivos, com todas as respectivas operações biológicas de um corpo vivo.
O segundo argumento vai no mesmo sentido; se não há fingimentos e simulações no mundo angelical, isto significa que, uma vez que os corpos assumidos pelos anjos têm órgãos da sensibilidade como olhos, narizes e bocas, eles devem também realizar as funções sensíveis, ou seja, devem cheirar, ouvir, ver, sentir o gosto. Assim, o órgão argumenta que, se os corpos assumidos realizam as funções de sensibilidade de um corpo humano vivo, eles necessariamente devem estar vivos, com todas as respectivas funções biológicas.
Também por aí vai o terceiro argumento. Caminhar é uma função própria de um corpo biológico, diz o argumento. Mas as Escrituras registram que os anjos, quando assumem corpos, deambulam normalmente com estes corpos. De fato, diz o argumento, há registros de anjos caminhando com Abraão em Gn 18, 16, e com Tobias em Tb 5, 7. Neste último texto, o anjo ainda afirma que, além de caminhar por ali e conhecer bem o caminho, ele costumava andar por ali muitas vezes. Disto o argumento conclui que, uma vez que caminhar é próprio de um corpo vivo e funcional, os anjos devem vivificar corpos biologicamente funcionais, quando os assumem.
O quarto argumento resgata que, além de caminhar, as Escrituras registram que os anjos são capazes de falar através dos corpos que assumem. Falar é emitir sons por estruturas biológicas, diz o argumento, citando Aristóteles. Disso o argumento conclui que os anjos de fato exercitam funções vitais, biológicas, nos corpos que assumem.
O quinto argumento cita a função de comer; de fato, para provar que estava corporalmente ressuscitado, diz o argumento, Nosso Senhor Jesus Cristo comeu com seus discípulos, como está registrado nos Evangelhos. Mas as Escrituras registram que os anjos comeram com Abraão, em Gn 18. Logo, conclui o argumento, os corpos assumidos pelos anjos, diz o argumento, apresentam funções biológicas reais, exercidas por eles.
Por fim, o sexto argumento parte da noção, retirada também do Livro do Gênesis, de que mulheres tiveram filhos com anjos (Gn 6, 4). Ora, diz o argumento, fazer gerar filhos em mulheres é função inegavelmente biológica. Disto, o argumento conclui que os anjos de fato exercem funções biológicas nos corpos assumidos.
O argumento sed contra resgata os debates dos artigos anteriores, para estabelecer que os corpos assumidos pelos anjos não são realmente corpos vivos. Logo, não exercem funções biológicas reais.
Postos os termos do debate, Tomás passa a oferecer sua própria resposta sintetizadora. Que veremos no próximo texto.
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