Esta questão da corporeidade, relacionada com os anjos, é muito séria. De fato, a Bíblia está repleta de relatos em que anjos aparecem corporalmente, e os debates anteriores, excluindo que os anjos sejam corporais, ou mesmo que seja natural aos anjos alguma vez encarnar, deixou-nos numa situação um tanto difícil quanto às aparições bíblicas. De fato, restam-nos agora duas opções, que serão debatidas neste artigo: ou os anjos são capazes de fazer com que alguém veja corpos ali onde não há, provocando diretamente a imaginação dos humanos, ou eles de fato aparecem visivelmente; neste caso, eles teriam, de algum modo, de adotar corpos, assumindo-os, de forma a tornarem-se capazes de produzir impressões reais nos sentidos daqueles que, na descrição bíblica, entram em contato com eles. A discussão, portanto, passa pelo fenômeno da percepção dos anjos pelos seres humanos: é um fenômeno psicológico ou ocorre de fato na realidade exterior às mentes?
A hipótese controvertida, aqui, para debater esta polêmica, é a de que os anjos não assumem corpos, e portanto tampouco nos relatos bíblicos houve, de fato, a adoção de corpos sensíveis pelos anjos. São três os argumentos no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento afirma que nada pode ser meramente aparente, fingido, falso, supérfluo, na operação natural dos anjos, porque a natureza não finge, ela é sempre verdadeira. Ora, os anjos não precisam, por natureza mesmo, de corpos para operar, como vimos no debate anterior. Logo, conclui o argumento, os anjos nunca adotam corpos. Mas, ainda que imaginássemos que eles apenas movessem coisas materiais para formar um corpo provisório não permitiria dizer que eles assumem, ou adotam, um corpo.
O segundo argumento afirma que adotar, ou assumir, significa unir-se a alguma coisa, tomando-a para si. Mas nos debates anteriores vimos que os anjos não se unem a corpos como a matéria à forma – isto é o caso apenas dos humanos. O fato de que os anjos eventualmente movam coisas materiais não significa que eles adotem, assumam para si as coisas que movem, porque, neste caso, teríamos que admitir que todas as coisas que forem movidas por um anjo seriam por eles assumidas, o que não é verdade. As coisas que os anjos movem, diz o argumento, permanecem externas a ele, não são por eles assumidas ou adotadas. Assim, o argumento conclui que os anjos nunca adotam corpos.
Por fim, o terceiro argumento parte dos quatro elementos naturais que a física de então conhecia, a terra, a água, o fogo e o ar. Há relatos de anjos que desaparecem subitamente, diz o argumento. Mas se os anjos adotassem a água ou a terra para formar corpos reais que fossem por eles adotados para aparecer para nós, eles não poderiam fazer com que essa terra ou essa água desaparecessem subitamente. Quanto ao fogo, se os anjos formassem corpos de fogo, queimariam tudo o que deles se aproximasse. E, por fim, eles não poderiam usar o ar para formar corpos a serem assumidos por eles, porque o ar não pode formar figuras nem adotar textura ou cor. Assim, os anjos não poderiam, conclui o argumento, adotar corpos materiais.
O argumento contrário diz que o próprio Santo Agostinho nos assegura que os anjos apareceram a Abraão, nos episódios narrados no Livro do Gênesis, assumindo corpos.
Postos os termos do debate, vamos à resposta sintetizadora de São Tomás.
Houve quem defendesse, diz Tomás, que os anjos nunca adotam corpos, e todas as aparições angélicas relatadas nas Escrituras podem ser explicadas como visões proféticas, quer dizer, espirituais, sem nenhuma materialidade; tudo se resolveria pela capacidade angelical de estimular a imaginação dos profetas e videntes. E tudo se explicaria como fenômenos psicológicos. Um tipo de visão mediúnica, portanto.
Mas isto é estranho às Escrituras, diz Tomás. Visões proféticas, fenômenos psicológicos, caracterizam-se por configurarem-se diferentemente para cada sujeito que os experimenta. Assim, não haveria objetividade nestes relatos, mas múltiplas impressões subjetivas diferentes para cada um que as experimentou.
Ocorre que vários relatos bíblicos registram a interação com os anjos de um modo muito objetivo, concreto, de tal modo que os anjos são vistos igualmente por todos, na mesma situação. Esta objetividade, que é relatada como uma interação concreta no mundo real e externo às mentes, é muito diferente dos relatos bíblicos de inspiração divina ou angelical nos quais se conta uma experiência estritamente psicológica. Pensemos aqui nos sonhos de José, narrados no Evangelho de Mateus; são uma experiência de uma natureza muito diferente daquelas narradas, por exemplo, no Livro do Gênesis, quando anjos aparecem uniformemente a Abraão, Lot e aos habitantes de Sodoma. Aqui, o evento é objetivo, ocorre no mundo externo às mentes, e uniformemente para todos os envolvidos. Do mesmo modo o anjo Rafael aparece para Tobias no Livro de Tobias – como um evento concreto, externo, objetivo, experimentado uniformemente por todos os envolvidos.
Nestes casos, diz Tomás, houve, por parte dos envolvidos, a possibilidade de interagir sensivelmente com os anjos, vê-los, tocá-los, ouvi-los, de tal forma que foram mesmo confundidos com pessoas humanas. Enfim, houve a interação dos personagens de modo corporal.
Mas os anjos não são essencialmente corporais, nem mesmo, como vimos, encarnam circunstancialmente para existir eventualmente de modo corporal. Resta-nos, pois, concluir que os anjos são capazes de adotar corpos, assumindo-os para permitir uma relação real, objetiva e sensível com os seres humanos.
Postos os critérios para a resposta, São Tomás revisitará agora os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento diz que, uma vez que já ficou provado que os anjos não têm corpos, não precisam deles e não lhes é natural serem corpóreos, seria impensável que assumissem eventualmente corpos desnecessários ou falsos, porque a natureza nada faz contra a sua verdade. E a verdade da natureza angelical é a incorporeidade. Disso o argumento conclui que os anjos não adotam corpos.
São Tomás vai responder que, de fato, os anjos não são corpóreos, nem eventualmente encarnam, nem mesmo precisam de corpos para qualquer fim que diga respeito a sua própria natureza. No entanto, eles eventualmente adotam figuras corporais por causa de nós, humanos, a fim de estabelecer conosco algum tipo de relação objetiva, que respeite a nossa própria natureza sensível e que seja, de algum modo, uma antecipação da comunhão espiritual que teremos todos no Reino de Deus. Ademais, ao assumirem corpos no regime do Antigo Testamento, diz Tomás, eles de certa forma antecipavam figurativamente a encarnação do Filho de Deus, pela qual o próprio Deus assume a natureza humana para estabelecer relação conosco. Todas as aparições corporais de anjos no Antigo Testamento estão, afinal, ordenadas para a Encarnação da Pessoa divina do Filho.
O segundo argumento inicia estabelecendo que “assumir” ou “adotar” alguma coisa significa tomar para si, ser um com aquilo que é assumido. Mas os anjos não são corporais, ou seja, não existem como criaturas de matéria e forma, como os humanos. Assim, diz o argumento, eles não podem “assumir corpos”, no sentido de serem um com os corpos; por outro lado, mesmo que os anjos possam mover coisas materiais, o fato de que eles movem alguma coisa não significa que eles “adotam” ou “assumem” aquilo que movem; o que eles movem permanece externo a eles. Assim, diz o argumento, seria errado dizer que os anjos adotam corpos.
Em resposta, São Tomás diz que, quando o anjo assume um corpo e aparece visivelmente a um ser humano, como nas narrativas bíblicas, este corpo não está unido a ele no mesmo sentido que o corpo humano depende da alma e vice-versa. Mas tampouco está numa mera posição de alguma coisa movida de fora, como o martelo é movido pelo trabalhador. Decerto o corpo permanece como algo externo à essência do anjo, mas ele é capaz de fazer figurar materialmente aquilo que o anjo tem espiritualmente, como certas realidades materiais figuram realidades espirituais na Bíblia, diz Tomás. Como o fogo figurou o Espírito Santo em Pentecostes, ou a sarça ardente figurou o próprio Deus no capítulo 3 do Livro do Êxodo, no diálogo com Moisés. Por isto, as realidades figuradas materialmente por este corpo representam as realidades espirituais do anjo: a visão espiritual do anjo é figurada por seus olhos, a capacidade de mover corpos, por suas mãos, e assim por diante. Por isto, o corpo representa o anjo verdadeiramente, embora não o componha de nenhum modo. É neste sentido que podemos falar que os anjos “assumem” ou “adotam” corpos materiais.
Por fim, o último argumento nota que os relatos bíblicos dão conta de que anjos aparecem e somem subitamente em suas aparições corporais. Ora, diz o argumento, se eles assumissem corpos de substâncias sólidas ou líquidas, não conseguiriam aparecer e desaparecer subitamente sem deixar um rastro dos elementos materiais que adotaram. Por outro lado, se os corpos fossem formados de elementos gasosos, não teriam solidez, nem sequer poderiam formar figuras sólidas ou com cores definidas e perfeitas, já que os gases não têm estas propriedades. Assim, o argumento conclui que anjos não podem assumir corpos.
A resposta de São Tomás parece indicar que ele defende que os anjos tomam elementos gasosos para formar o seu corpo visível; ele defende, inclusive, que há a possibilidade de encontrar, na natureza, elementos gasosos capazes de apresentar as características de visibilidade e condensação que as aparições de anjos exigem. O fato é que a física que São Tomás conhecia era bastante limitada, e isto é inegável. Mas também é inegável que São Tomás defende que os anjos realmente são capazes de provocar aparições materiais, físicas, pela manipulação de elementos concretos, nas quais eles realmente têm as qualidades que aparentam ter (embora estas qualidades sejam expressões materiais de qualidades angélicas estritamente espirituais)e não simplesmente visões e fenômenos psicológicos ou mediúnicos. Quanto aos materiais físicos utilizados, a riqueza da física moderna talvez levasse Tomás a ponderar aspectos que ele não poderia ter ponderado então, dispondo apenas dos quatro elementos clássicos. Mas isto não é o mais importante, senão a reafirmação da objetividade, da possibilidade real de relação sensível dos humanos com os anjos.
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