Encerramos o texto anterior questionando a razão pela qual é natural apenas aos seres humanos, dentre as substâncias espirituais, o fato de estarem unidos naturalmente a corpos. Se o conhecimento intelectual é uma operação imaterial, e se tanto os seres humanos como os anjos pertencem ao gênero dos seres que conhecem as coisas intelectualmente, e se o conhecimento intelectual é essencialmente imaterial, por que é natural aos humanos serem corporais?
Trata-se, aqui, de estudar a natureza mesma do conhecimento angélico e do conhecimento humano. Anjos são inteligências espirituais. Eles são uma inteligência personificada, ou seja, a essência da sua existência é o conhecimento. Anjos conhecem-se por natureza, e eles são plenamente na própria inteligência. Assim, os anjos conhecem porque são, e são porque conhecem e se conhecem. O seu conhecimento tem a mesma medida do seu ser, e vice-versa.
Mas os seres humanos não são assim. Eles não conhecem por natureza, nem se conhecem como condição e consequência do próprio existir. Nosso intelecto é basicamente potencial, enquanto os anjos, que existem pela inteligência, têm-no de modo basicamente atual. Os seres humanos existem porque são individuados na matéria; e precisam da matéria para interagir com as coisas e, ao senti-las, aprender e inteligir. Anjos não têm os sentidos, nem aprendem por abstração. Anjos não raciocinam, não pesquisam, não investigam. Eles sabem. Mas como nosso intelecto é assim imperfeito, dependente da interação material para aprender, para passar da potência ao ato, nós realizamos toda esta operação para chegar ao conhecimento intelectual que é perfeito por natureza nos anjos.
Assim, o simples fato de que podemos chamar nosso intelecto humano de “imperfeito” aponta para a existência de algum padrão de comparação, algum intelecto que, em comparação com o nosso, pode ser chamado de perfeito, porque não depende da exploração sensível para conhecer. É o intelecto angélico, plenamente atual, e portanto plenamente independente da matéria. Eis porque não há nenhuma dependência natural entre os anjos e os corpos. Não há nenhuma razão pela qual os anjos precisassem, quisessem o fossem obrigados a encarnar de qualquer modo. Vale dizer, anjos não encarnam, porque são essencialmente imateriais e incorpóreos. Mas não é que os seres humanos encarnam… eles já são carne, porque não preexistem fora ou além de um corpo. A rigor, portanto, humanos nunca encarnam; humanos são carnais, e ponto. Só na carne eles existem humanamente como substâncias, então é impensável que os humanos possam fazer algo como um “movimento de encarnar”, como se existisse algo humano antes ou fora da carne. E anjos nunca encarnam. Encarnar não faz parte de sua natureza.
Colocados os critérios da resposta, São Tomás passará a examinar as objeções iniciais.
A primeira objeção cita, de uma vez só, Orígenes, São Bernardo e Santo Agostinho, em trechos em que eles parecem afirmar que toda e qualquer criatura precisa naturalmente de alguma corporeidade para atuar.
Tomás responderá que há um equívoco antigo que considera que todo ente, por ser ente e existir, é corpo. Alguns, seguindo este erro, chegaram a ensinar que não há nem sequer a possibilidade de conceber uma substância incorpórea, e chegam a atribuir corporeidade a Deus, considerando que ele é a alma do mundo, anima mundi. Este é um equívoco panteísta. Completamente estranho à fé católica, que sabe e ensina que Deus está acima de todas as coisas, e que portanto ele não é a alma do mundo, mas outro, totalmente outro, com relação à criação.
Tomás passa a falar, então, de Orígenes. Por um lado, diz Tomás, Orígenes soube evitar o equívoco panteísta de declarar Deus como anima mundi. Mas houve outros equívocos que ele cometeu, e um deles foi este, o de imaginar que só Deus, sendo outro, é essencialmente incorpóreo. E negar a incorporeidade essencial dos anjos.
Quanto a São Bernardo, diz Tomás, a afirmação dele de que só Deus pode operar em toda e qualquer situação sem precisar de nada corpóreo como instrumento não deve ser entendida como uma afirmação de que os anjos dependem da matéria para operar; trata-se da simples constatação de que os anjos podem interagir com os seres corporais, podem agir sobre a matéria para atingir determinados fins. Isto será debatido por Tomás nos artigos seguintes desta mesma questão.
Por fim, sobre a citação de Santo Agostinho, na qual ele parece comparar os anjos a corpos aéreos, São Tomás esclarece que, nesta passagem, Agostinho não está expressando uma opinião própria, mas apenas citando Platão, sem assumir a opinião dele como própria. De fato, diz Tomás, Agostinho se refere ao fato de que os platônicos costumavam se referir a certos “animais aéreos” que eles chamavam de demônios, sem que isto tenha relação necessária com os anjos que conhecemos pela revelação judaico-cristã.
O segundo argumento menciona São Gregório, que teria feito referência aos anjos chamando-os de “animais racionais”. Disto o argumento conclui que os anjos podem ter corpos, como animais. Mas São Tomás vai esclarecer que Gregório estava falando apenas metaforicamente, porque os anjos, sendo inteligentes, assemelham-se neste ponto aos seres humanos, que são animais racionais.
O terceiro argumento diz que os anjos são mais perfeitos que as almas humanas. Se as almas humanas vivificam um corpo, diz o argumento, então teríamos que admitir que os anjos também podem assumir um corpo e vivificá-lo, ainda mais perfeitamente que a alma humana.
Tomás desfaz rapidamente este equívoco “encarnacionista”, ou “reencarnacionista”. Só quem “vivifica”, de modo absoluto, é Deus, porque só ele pode dar a vida a alguma coisa além dele mesmo. E Tomás cita 1 Samuel 2, 6: é o Senhor que dá a vida e a tira. A alma humana não “vivifica” um corpo como se entrasse nele “de fora”. Não existe uma “encarnação” ou “reencarnação”. A alma é uma componente do ser humano, e surge com ele e existe com ele, formando, com o corpo, uma única natureza viva. O ser humano é uma unidade de corpo e alma, não uma alma que vivifica acidentalmente um corpo. A alma humana é incompleta, é apenas um componente de um todo que consiste em corpo e alma, e existe no corpo, com o corpo e para o corpo. Quando a alma se separa do corpo, o humano morre realmente, deixa de existir como espécime humano natural (embora a alma sobreviva de modo incompleto, na espera da ressurreição final, quando se reintegrará a seu próprio corpo e a mais nenhum outro). O anjo, porém, sendo uma substância espiritual, existe como ente perfeito em seu espírito, não precisa de um corpo para adquirir plenitude ontológica. E neste sentido, a perfeição do anjo consiste exatamente em ser naturalmente incorpóreo.
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