Na questão 50, artigo 1, debatemos se os anjos são incorpóreos, e ali já chegamos à conclusão de que eles são incorpóreos – e, como lembramos, no artigo segundo daquela mesma questão ficou estabelecido igualmente que eles são imateriais. Mas esta questão, a questão 51, quer dar um passo adiante e estudar mais detidamente a relação dos anjos com os entes corporais. Trata-se, pois, de indagar como exatamente os anjos relacionam-se com a matéria.
Que os anjos são substâncias incorpóreas, essencialmente incorpóreas, já ficou suficientemente esclarecido. Mas aqui o problema dá um passo adiante: será que os anjos podem existir essencialmente como seres substancialmente incorpóreos, mas estabelecer algum tipo de relação natural, embora acidental, com os corpos, de tal modo que eles possam assumir eventualmente uma corporeidade com a qual se expressem? Vale dizer, há alguma maneira de imaginar que os anjos são seres que se mantêm e subsistem como seres incorpóreos que eventualmente podem encarnar e desencarnar, sem perder sua substancialidade completa?
A teoria da reencarnação parece defender que não somente os anjos são assim, mas os próprios seres humanos também o são, e portanto entre os seres humanos e os anjos não haveria diferença substancial. Seríamos, humanos e anjos, entes essencialmente incorpóreos, substancialmente subsistentes de modo completo como entes puramente espirituais, mas que podem assumir sucessivamente corpos, para fins de missão, de evolução, de punição, enfim, assumir corporeidades que são naturais à sua essência, mas meramente acidentais quanto à sua substancialidade mesma. Vale dizer, anjos têm a possibilidade de ser corpóreos por acidente, e nós, humanos, nada mais seríamos do que anjos que, num determinado estágio, escolheram ou foram obrigados a encarnar. Se estamos encarnados, somos humanos. Se desencarnados, somos anjos. O que é, obviamente, um absurdo – humanos são uma coisa, anjos são outra coisa completamente diferente.
Eis, pois, a importância deste artigo, e sua profundidade para desmentir a teoria da reencarnação e estabelecer a diferença essencial entre anjos e seres humanos.
A hipótese controvertida aqui, para provocar o debate, é a de que os anjos unem-se a corpos materiais de modo natural. São três os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor elenca logo citações de três escritores eclesiais de altíssimo peso. Em primeiro lugar, cita Orígenes, para quem só a natureza de Deus, ou seja, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, tem a característica de existir sem a intervenção de qualquer tipo de matéria ou qualquer espécie de corpo. Em seguida, São Bernardo, que teria afirmado que “apenas a Deus se deve conceder tanto a imortalidade quanto a incorporeidade, já que a natureza de Deus é tal que não precisa, nem por si nem por outro, da mediação de qualquer corporeidade; qualquer criatura, porém, precisa desta mediação”. E por fim ninguém menos do que Santo Agostinho, que teria afirmado que “os demônios chamam-se de animais aéreos, porque se valem da mesma natureza dos corpos aéreos”. Assim, o argumento conclui que os anjos unem-se de modo natural a corpos.
O segundo argumento cita São Gregório, que chama os anjos de “animais racionais”. Todo animal, diz o argumento, é composto de corpo e alma. Assim, conclui, é natural que os anjos unam-se a corpos.
O terceiro argumento faz uma comparação entre os anjos e as almas humanas. E começa logo afirmando que os anjos são seres mais perfeitos que as almas humanas. Assim, prossegue o argumento, não seria defensável afirmar que aquilo que é mais perfeito não tivesse um poder que aquilo que é menos perfeito tem. Ora, conclui o argumento, as almas humanas são constituídas com o poder de animar naturalmente um corpo humano. Logo, os anjos também podem vivificar naturalmente um corpo.
O argumento sed contra vai citar o Pseudo-Dionísio, escritor eclesiástico também importantíssimo e respeitadíssimo, que garante que devemos entender os anjos como incorpóreos.
Em sua resposta sintetizadora, São Tomás lembrar-nos-á que tanto nós, humanos, quanto os anjos, estamos classificados no gênero das substâncias espirituais. Mas ter corpos não é parte natural da compreensão deste gênero, mas apenas constitui uma característica própria dos humanos. Mas o fato de que um ser que está no gênero das substâncias espirituais tem, por natureza, relação substancial com um corpo não leva a defender que todas as substâncias espirituais relacionem-se naturalmente com corpos.
Fazendo uma analogia, para compreendermos melhor, São Tomás toma o gênero animal. É próprio deste gênero envolver os seres vivos em geral, tanto, digamos, os cães, quanto as aves. Mas, embora haja animais naturalmente alados, como as aves, isto é um acidente que não se encontra naturalmente em toda e qualquer espécie de animal, mas é uma característica própria apenas das aves. A definição de animal não envolve a necessidade de ter asas, eis porque, no gênero animal, ter asas pode acontecer ou não, dependendo da espécie.
Assim, voltando para o gênero das substâncias espirituais, unir-se naturalmente a corpos não é uma característica genérica dos seres espirituais, mas uma característica própria apenas dos humanos.
De fato, a característica genérica dos seres substancialmente espirituais é a capacidade de inteligir, e esta não se relaciona a nenhum corpo – é uma característica incorpórea. Assim, ser naturalmente corpóreo é uma circunstância que atinge apenas uma espécie de seres espirituais, os seres humanos, assim como ter asas é uma circunstância que atinge naturalmente poucas espécies de animais.
No texto anterior, já havíamos debatido sobre a capacidade de inteligir. O objeto da capacidade de inteligir é sempre imaterial, porque é a species, a essência mesma do ente inteligido, abstraída das circunstâncias concretas de tempo e lugar. Assim, como a operação de inteligir segue a natureza daquilo que é inteligido, pode-se dizer que tanto aquilo que se intelige, quanto aquele mesmo que apreende intelectualmente, operam de modo imaterial, e portanto não o fazem corporalmente. Eis porque o ser corpóreo não precisa ser algo natural ao ser espiritual.
Mas se é assim, por que, então, é natural aos seres humanos, e não aos anjos, serem corpóreos, se os humanos também são do gênero das substâncias espirituais?
Veremos isto no próximo texto.
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