Há muitos sentidos em que se pode dizer que uma substância se corrompe. Ela o faz quando perde a sua forma substancial. Assim, por exemplo, um copo de vidro se quebra, e então já não é mais um copo, mas apenas uma pilha de cacos de vidro – a matéria “vidro” já não guarda a característica forma côncava de um copo. Degradou-se, ou melhor, corrompeu-se.
A morte, por sua vez, é um tipo muito específico de corrupção, é a destruição do composto vivo, quer dizer, é a separação entre a forma viva e a matéria, com destruição da substância. Mas há ainda outro sentido em que se pode falar de morte, no caso dos seres inteligentes, ou seja, os seres pessoais: trata-se da perda da amizade com Deus, que é o único Vivente por direito próprio. Ao romper com Deus, o ente pessoal perde a vida no sentido sobrenatural, porque a vida, neste sentido, não é outra coisa senão o próprio Deus. É para expressar esta realidade que falamos em “pecado mortal” como aquele que destrói a vida sobrenatural da criatura pessoal. Mas nesta forma de morte não há propriamente corrupção da substância, mas a frustração de sua perfeição, com o impedimento de atingir aquele que é seu fim último. Mas deixemos de arrodear e voltemos a Tomás.
Aqui, neste artigo, discutiremos se as criaturas angelicais podem sofrer corrupção, quer dizer, se podem ser destruídas, mortas, aniquiladas, substancialmente corrompidas, deixar de existir; em suma, desaparecer. A hipótese controvertida propõe que sim, que os anjos podem ser corrompidos. São três os argumentos no sentido desta hipótese.
O primeiro argumento resgata uma citação de São João Damasceno no sentido de que os anjos, substâncias intelectuais, não são, por natureza, dotadas de imortalidade, mas apenas por graça de Deus. Assim, o argumento conclui que os anjos não são naturalmente imortais.
O segundo argumento resgata uma citação de Platão, na qual ele diz: “Ó deuses dos deuses, dos quais eu mesmo sou o autor e pai. Vocês são obra minha; por natureza, são corruptíveis, mas se eu quiser, incorruptíveis”. O argumento diz que a referência de Platão a “deuses dos deuses” pode ser interpretada como uma referência aos anjos. Assim, o argumento conclui que até Platão intuiu que os anjos não são incorruptíveis por natureza.
O terceiro argumento cita o Papa São Gregório, que afirmava que todas as coisas são conservadas na existência pela mão poderosa de Deus. Se Deus não conservá-las, portanto, elas voltam ao nada. Sabemos que os anjos são criaturas, diz o argumento. Assim, se não forem conservados por Deus a cada momento, dissolver-se-iam ao nada. Logo, conclui o argumento, os anjos não são naturalmente imortais, mas o são apenas por causa da atuação permanente de Deus em mantê-los na existência.
O argumento contrário cita o Pseudo-Dionísio, que afirma que não há deficiências na vida das substâncias intelectuais, ou seja, não há nelas o germe da destruição natural. Elas estão isentas d morte, da aniquilação, da corrupção que atinge todas as coisas materiais.
E com isto São Tomás concorda plenamente, e começa assim sua própria resposta sintetizadora. Os anjos são incorruptíveis. E há uma razão simples para isto: a corrupção das criaturas, sua destruição, sua morte, se dá quando o composto matéria-forma de que são constituídos é rompido, e a forma se separa da matéria. Vale dizer, a matéria daquele ente perde a forma que o atualizava, e ele deixa de existir. É assim que um cadáver é apenas a matéria de um ser humano; já não é uma pessoa humana. O carvão é constituído da matéria que antes tinha a estrutura, a forma de madeira, mas já não tem. Mas os anjos não são criaturas hilomórficas, vale dizer, não são compostos de matéria e forma (A palavra hilomórfico quer dizer exatamente ente composto de matéria e forma). Anjos são puras formas subsistentes. Assim, são entes sem matéria, e portanto não podem sofrer a separação entre matéria e forma que constitui a corrupção.
São Tomás passa, então, a explicar tecnicamente a razão pela qual o anjo é naturalmente indestrutível. E o faz em termos metafísicos. Acompanhemo-lo.
Aquilo que é próprio de um ser, ou seja, que pertence a ele em razão da sua essência mesma, sendo nele uma característica substancial, nunca pode ser separado dele. Mas aquilo que está nele como que por uma característica somada, acrescentada, pode ser dele separado. Diríamos, para usar uma nomenclatura que seria estranha a Tomás, que aquilo que compete analiticamente a um ser jamais pode ser separado dele. Pensemos na figura geométrica de um círculo. É próprio do círculo ser uma curva fechada, em que todos os pontos estão à mesma distância do centro. Assim, a curvatura não pode ser, digamos, extraída ou separada da figura geométrica do círculo, porque é parte da própria definição. Mas pensemos, agora, num anel de bronze perfeitamente circular. Este anel pode ser derretido, tornando-se bronze líquido, ou mesmo amassado com um martelo, tornando-se um amontoado irreconhecível de bronze. Neste caso, há uma perda da forma circular, e o bronze que resta já não é um anel. A existência do anel de bronze cessou; a forma circular própria do anel já não existe, houve uma separação entre a forma e a matéria do anel. Destruiu-se.
O que identifica, o que torna algo atual, quer dizer, efetivamente existente, é a sua forma, diz Tomás. Assim, aquela quantidade de bronze que, sendo antes apenas um pouco de minério liquefeito pelo artesão, toma, por seu labor, a forma circular para fazer surgir um anel de bronze, passou a ser atualmente um anel, não por ser de bronze (matéria), mas por ser circular (forma). Perdida a forma, a matéria que fica já não é um anel, mas uma quantidade amassada e desfigurada de bronze.
Assim, quando um ente não é material, mas subsiste apenas por sua forma, como é o caso dos anjos, ela não pode perder sua existência, porque não há a possibilidade de separar, nela, a matéria e a forma – simplesmente porque ela não tem matéria. Eu posso destruir um anel de bronze subtraindo dele a circularidade. Mas não posso destruir o próprio conceito de círculo como pura forma. Ele existirá enquanto houver alguma coisa circular no universo, ou enquanto houver alguma inteligência capaz de pensar nele. No caso dos anjos, como seres inteligentes que são, a sua forma existe na sua própria inteligência e na inteligência de Deus. Assim, tanto quanto o conceito geométrico de círculo, ou mesmo a ideia do número dois, os anjos, por sua própria natureza, jamais podem deixar de ser. Com uma diferença: o número dois, ou o conceito geométrico de círculo, existem nas inteligências sem serem, eles próprios, inteligentes. Mas os anjos, como pessoas inteligentes, conhecem perfeitamente a si mesmos, e assim existem como forma na inteligência que eles mesmos são.
Eis, pois, a razão pela qual eles são naturalmente imortais, naturalmente indestrutíveis.
Há mais um indício de que os anjos não são sujeitos à corrupção, que é o modo de agir, ou seja, a própria maneira pela qual os anjos agem, como eles operam. Os anjos são essencialmente inteligências subsistentes, e portanto seu agir, seu operar, consiste em inteligir. Mas inteligir é aprender essências, assimilar a substancialidade das coisas. E estas são abstratas, quer dizer, o objeto da inteligência, a realidade inteligível, não é concreta, vale dizer, não está inserida num determinado tempo e espaço, mas é abstrata, vale dizer, retirada de um contexto espácio-temporal e generalizada; uma vez, pois, que aquilo que é objeto de conhecimento está fora do tempo, então aquilo que conhece, vale dizer, aquele que é o sujeito do conhecimento, necessariamente também está. Assim, toda substância intelectual, pelo fato de ser intelectual, e portanto de operar fora do tempo e do espaço, é indestrutível, é imortal. Há sérias implicações disto também para a antropologia, mas veremos isto apenas muito adiante.
Colocados os termos da sua resposta, São Tomás enfrentará agora as objeções iniciais.
O primeiro argumento objetor cita São João Damasceno, para quem a imortalidade dos anjos não seria natural, mas graça de Deus.
São Tomás vai nos explicar que São João damasceno fala, aqui, da vida plena, entendida como alcançar a perfeição, a plenitude da contemplação divina. Não da simples existência, ou seja, da possibilidade de aniquilação física. Há, portanto, diz Tomás, necessidade de esclarecer que os anjos são naturalmente imortais como criaturas, ou seja, não serão aniquilados nem eliminados, não serão retirados da existência jamais, e isto é algo que decorre do seu ser mesmo. Mas a vida plena em Deus, compreendida como a visão beatífica de Deus, a contemplação final, o repouso da imutabilidade na perfeição, é algo que, mesmo para os anjos, depende da graça. São Tomás nos garante que voltaremos a este tema no futuro.
O segundo argumento traz uma citação de Platão, na qual ele fala de certos “deuses dos deuses”, que seriam corruptíveis por natureza, mas incorruptíveis por vontade divina do seu criador. O argumento interpreta que ele está falando dos anjos e deduz que eles não são incorruptíveis por natureza, mas apenas por uma expressa concessão divina.
São Tomás nos ensina que esta interpretação é equivocada. Platão não falava, neste trecho, dos anjos, mas dos corpos celestes, que ele acreditava serem corruptíveis por natureza, mas indestrutíveis por especial concessão de Deus. O argumento faz, portanto, uma extensão descabida.
O último argumento cita São Gregório, que ensina que tudo, toda a criação, sucumbiria se Deus não a mantivesse na existência. E disso conclui que também os anjos estão nesta situação. Assim, conclui o argumento, eles não seriam naturalmente indestrutíveis.
Mas ocorre que há, também aqui, uma confusão de conceitos, diz Tomás. O fato de que todas as coisas criadas dependem de Deus, não apenas para começar a existir, mas para manter-se na existência, não envolve a discussão a respeito da natureza mesma das coisas criadas. De fato, diz Tomás, a criação inteira está submetida ao governo divino. Disto não fogem os anjos. Eles têm uma existência necessária, não contingente, mas, ainda assim, uma existência criada. Como já foi discutido na questão 44, artigo 1, as coisas existem contingentemente porque elas foram criadas para serem contingentes, e as coisas que são necessárias, elas o são porque foram criadas para serem necessárias. Por isto, por exemplo, Deus criou os números de tal modo que a adição de dois mais dois necessariamente dá quatro. Assim, que alguma coisa seja de existência necessária não significa que ela não é uma criatura. E se ela é uma criatura, então existe porque Deus a criou, ou seja, a sua existência mesma depende de Deus, não só num primeiro momento, mas no mais íntimo do ser desta criatura. Assim, dizer que os anjos dependem de Deus para existir não significa dizer nada sobre a sua natureza concreta, mas dizer algo que se aplica a toda e qualquer criatura. Quanto à natureza angelical, não existe nela nenhuma composição que pudesse ser rompida para causar sua destruição, porque eles não são compostos de matéria e forma. É neste sentido, diz Tomás, que dizemos que os anjos não são naturalmente destrutíveis, ao tempo em que reconhecemos que sua existência mesma depende completamente de Deus.
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