Como se distinguem os indivíduos? De duas maneiras, diz Tomás. A primeira é por serem entes com corpos diferentes. De fato, a porção de matéria que constitui um ente o identifica e individualiza, distinguindo-o de todos os outros entes. Mas há uma outra distinção possível: a distinção de formas, ou, para usar uma linguagem menos escolástica e mais contemporânea, de estruturas. Uma vaca não é um cavalo. É claro que na comparação de dois seres materiais, esta segunda forma de distinção é obscurecida pela primeira; este cavalo não é aquela vaca porque ele ocupa este lugar no tempo e no espaço, possui este corpo, enquanto aquela vaca possui aquele outro corpo, e ocupa aquele outro lugar no tempo e no espaço. Possuem, em suma, extensões físicas diferentes. Mas isto não diminui a importância do fato de que a própria estrutura inteligível do cavalo, como abstraída pela minha inteligência a partir dos cavalos concretos que encontrei por aí, é diferente da estrutura inteligível da vaca, e esta diferença independe de encontrar corporalmente vacas ou cavalos por aí. Eles são de diferentes espécies. Assim, os indivíduos corporais da mesma espécie diferem entre si pelo fato de terem corpos diferentes, ou seja, terem, cada um, sua própria matéria delimitada. Indivíduos de espécies diferentes distinguem-se materialmente por seus corpos, mas também distinguem-se formalmente pela própria espécie. Há, uma dupla distinção neste caso, portanto.

Mas e no caso de entes não materiais? Vamos tomar o exemplo de um triângulo e um quadrado, tais como eu os posso conceber em minha mente. Neste caso, materialmente falando, ambos são apenas pensamentos meus; estão, portanto, fisicamente, no mesmo lugar: na minha inteligência. Mas, mesmo não tendo corpos, porque são apenas entes de razão em minha mente, eu sei (e qualquer geômetra sabe) que um triângulo não é um quadrado, e um quadrado não é um triângulo, mesmo sem visualizá-los materialmente. É que o conceito de triângulo me ensina que ele é uma figura geométrica fechada cuja soma dos ângulos internos dá 180º, enquanto o quadrado é uma figura geométrica fechada de lados iguais cuja soma dos ângulos internos dá 360º. Eles são do mesmo gênero, ou seja, figuras geométricas, mas cada um é de uma espécie diferente: uma é a espécie das figuras geométricas fechadas com soma de ângulos internos em 180º, e outra é a espécie das figuras geométricas fechadas de lados iguais cuja soma dos ângulos internos dá 360º. Uma vez que ambos existem na minha mente, como entes de razão, não podem distinguir-se materialmente, mas apenas estruturalmente, ou seja, formalmente. Assim, há aqui apenas uma distinção possível: a distinção formal.

De fato, cada vez que eu conceber um quadrado conceitualmente, e qualquer ser humano conceber um quadrado conceitualmente, conceberemos ambos um só e mesmo quadrado. Se eu quiser conceber alguma coisa diversa daquilo que meu vizinho está pensando quando ele pensa num quadrado, tenho que pensar noutra espécie de figura geométrica: um triângulo, por exemplo. Ou seja, enquanto as coisas materiais da mesma espécie podem multiplicar-se por terem diferentes corpos, ou seja, podem multiplicar-se em razão da matéria, os entes imateriais da mesma espécie são sempre únicas e iguais a si mesmas: há apenas um quadrado, como ente de razão, em qualquer mente que o conceba. As espécies de coisas imateriais são constituídas por um e apenas um indivíduo. Se as coisas imateriais se multiplicam, isto se dá porque se multiplicam as espécies delas, portanto. Isto significa que não é possível haver dois anjos da mesma espécie, já que os anjos são essencialmente imateriais. Cada anjo é o único de sua espécie. Se houver mais de um anjo (e vimos nos textos anteriores que, de fato, há), há necessariamente indivíduos de espécies diferentes. Sempre que há mais de um anjo, ha mais de uma espécie de anjo.

Tomás dá o exemplo com noções universais: podem existir várias coisas brancas, conforme corpos materiais sejam da cor branca. A própria brancura, tomada como abstração, porém, é uma só. Do mesmo modo a humanidade: há apenas uma humanidade, que se multiplica pelas individualidades dos seres humanos concretos, em sua corporeidade. Mas os anjos não têm corpo: assim, diferente da brancura e da humanidade, eles não podem multiplicar-se em indivíduos materiais distintos. Há apenas um anjo de cada espécie, e ele esgota toda a espécie que ele é.

Mas se os anjos fossem incorpóreos, mas não imateriais, como defendeu Avicebrão, e vimos no debate do artigo 2 desta mesma questão? Avicebrão defendia que os anjos não são seres simples como Deus, ou seja, seres em que, como em Deus, não haveria diferença entre a essência e a existência, caso em que seriam deuses. Assim, Avicebrão ensinava que nos anjos há uma composição entre aquilo que eles são, ou seja, sua essência, e aquilo que recebe sua existência, vale dizer, aquilo que os torna concretos, existentes, que seria como que sua matéria, embora não corporal. Independentemente de já ter sido provado que isto seria impossível, no debate daquele artigo, São Tomás diz que, mesmo que houvesse nos anjos algum tipo de matéria não corporal, ue fosse como que uma “receptora passiva e indeterminada da sua existência”, ainda assim esta matéria fantasmagórica e indeterminada não poderia causar, neles, que houvesse a multiplicação de anjos da mesma espécie. De fato, diz Tomás, mudando a matéria, muda o próprio gênero da coisa, e não simplesmente sua espécie. Por isto, as coisas que são feitas de matéria inanimada, por exemplo, são de um gênero diferente das coisas que são feitas de matéria vegetal, digamos, e estas são de outro gênero que aquelas feitas de matéria animal. Assim, se os anjos diferissem entre si pela matéria mesma que recebe sua existência (por mais absurda que seja esta hipótese), cada anjo seria de um gênero diferente. Mais fácil, pois, admitir que os anjos, sendo incorpóreos e imateriais, estejam todos no mesmo gênero das substâncias separadas, e distingam-se entre si por terem espécies diferentes.

Colocados os fundamentos, São Tomás passa a examinar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro diz que, na classificação em gênero e espécie, aquilo que pé comum a todos os do mesmo gênero é menos importante do que aquilo que é próprio aos de mesma espécie. Logo, a classificação numa espécie decorre de descobrir aquilo que é mais importante, mais relevante, num ser, para colocá-lo na mesma espécie de todos os seres que têm esta mesma diferença. No caso dos seres humanos, ter um corpo vivo e sensível faz com que sejamos do mesmo gênero dos animais, mas a inteligência, que é o que há de mais nobre em nós, nos coloca numa espécie determinada, diversa de todos os outros animais, e, portanto, constitui em nós o que há de mais próprio, de mais nobre. Ora, diz o argumento, a inteligência separada constitui o que há de mais nobre nos anjos; logo coloca-os todos na mesma espécie. Logo, diz o argumento, todos os anjos seriam da mesma espécie.

Sim, é verdade que a diferença, que constitui a espécie, é mais nobre do que o que há de comum e constitui o gênero, diz Tomás, do mesmo modo que aquilo que é determinado é mais nobre do que aquilo que é determinado (como um bloco de mármore esculpido por Michelangelo é mais nobre do que um bloco de mármore qualquer de uma pedreira), e aquilo que é próprio é mais nobre do que aquilo que é comum (como o ouro é mais nobre do que um pedaço qualquer de metal indefinido). Mas isto não significa, porém, que a diferença tem que ter uma natureza diversa daquilo que é comum, ou que o determinado tem que ter uma natureza diversa do que aquilo que é indeterminado. O mármore esculpido por Michelangelo não deixa de ser mármore, o ouro não deixa de ser metal. Assim, por exemplo, entre os animais não há diferenças de natureza entre, digamos, um invertebrado meramente reativo e com poucos sentidos, por um lado, e um tigre muito sagaz e ágil, de outro. Eles são de espécies diferentes por causa do grau em que a sensibilidade se manifesta em cada um deles, não porque a sensibilidade de um tenha uma natureza diversa da sensibilidade do outro. Assim, o fato de que todos os anjos são inteligentes não impede que o grau mesmo desta inteligência, tal como se manifesta em cada um deles, possa ser um critério muito adequado para classificá-los em espécies diferentes.

Esta é exatamente a linha da segunda objeção. Para este argumento, não se pode diferenciar uma espécie de outra apenas pelo grau em que determinado aspecto se manifesta num ente ou noutro, mas apenas se eles fossem diversos na natureza mesma da sua diferença. Então o argumento considera que o fato de que os anjos têm graus diversos de inteligência não pode determinar que, por causa disto, eles sejam de espécies diferentes.

São Tomás vai explicar que, de fato, o grau de uma faculdade não determina a classificação de um ente em espécies diferentes, quando a variação deste grau se dá em razão da boa ou má utilização, da diferença de uso de uma só e mesma capacidade potencial. Assim, um homem rude pertence à mesma espécie de um homem sábio, porque ambos diferem apenas pelo uso mais ou menos intenso da mesma capacidade intelectual, que é a capacidade intelectual humana. Mas quando esta capacidade difere em razão da própria estrutura do ente, ou seja, da sua forma (no sentido metafísico), como uma lesma não conseguiria, em razão de sua estrutura mesma, ser rápida como um guepardo, então os graus da mesma faculdade podem determinar a classificação em espécies diversas. É assim que o gênero animal, que rata dos seres vivos dotados de sensibilidade, tem tantas espécies diversas entre si em razão do grau mesmo desta sensibilidade, como no exemplo das lesmas e dos guepardos. É por isto que os anjos, em razão do grau mesmo de sua inteligência, estão em espécies diversas.

O terceiro argumento objetor diz que almas humanas e anjos opõem-se entre si. Mas as almas humanas são todas da mesma espécie, e são múltiplas. Logo, os anjos, opondo-se às almas, devem ser, por simetria, múltiplos da mesma espécie, também.

Sim, almas humanas são opostas aos anjos, porque são a forma de um ser material, enquanto os anjos são substâncias separadas puramente espirituais. Mas o fato de que almas humanas multiplicam-se em indivíduos da mesma espécie não implica que, por simetria, os anjos também devam ser múltiplos da mesma espécie, como se isto fosse um bem absoluto do qual os anjos não devessem ficar privados. De fato, diz Tomás, o bem da espécie prepondera sobre o bem do indivíduo; é este o fundamento pelo qual um ser humano pode, por exemplo, ser chamado a expor sua vida em trabalhos perigosos e insalubres, como a guerra de defesa, as profissões militares ou hospitalares, em favor da vida de outros, muitas vezes desconhecidos e até maus. Ora, diz Tomás, se o bem da espécie prepondera sobre o bem do indivíduo, a multiplicação de espécies, que é o caso dos anjos, deve ser um bem maior, se comparada com a multiplicação de indivíduos da mesma espécie, como no caso dos seres humanos. Assim, a simetria não funciona.

Nesta mesma linha vai o quarto argumento objetor. Ele põe a seguinte afirmação: quanto mais perfeita é a natureza de uma coisa, tanto mais ela tem que se multiplicar. Ora, se cada espécie de anjo tivesse apenas um exemplar, ela violaria este princípio. Assim, é necessário que haja vários exemplares de cada espécie de anjo.

Mas não é assim, diz Tomás. A multiplicação material de exemplares não é consequência de perfeição ou de valor. Na verdade, a multiplicação material, como ele já explicou na questão 47, artigo 3, não pode ser um objetivo para Deus, simplesmente porque, se fosse necessário que as coisas materiais fossem multiplicadas por causa de seu valor, isto nunca teria fim: quando seria o limite de multiplicação? Em tese, as cisas materiais podem multiplicar-se infinitamente, indeterminadamente, e para Deus nada pode ser indeterminado. Assim, Deus não age como se fosse um fabricante capitalista, que tenta produzir mais e mais exemplares dos seus produtos, numa ambição inesgotável pela acumulação material. Deus não age assim. Ele age mais como um grande artista, que cria mais e mais ideias, mais e mais obras de arte únicas e irrepetíveis, do que como um fabricante em linha que, como Henry Ford, fabrica mais e mais da mesma coisa. É por isto que a multiplicação de espécies de anjos, como unidades irrepetíveis de pessoalidade espiritual, manifesta muito mais a perfeição de Deus do que a multiplicação material de exemplares da mesma espécie. A objeção, portanto, não procede.