No artigo anterior, chegamos às razões pelas quais é muito razoável, teologicamente, que os anjos sejam muitos. Mas terminamos com uma intuição que agora iremos aprofundar: como um anjo difere do outro?

De fato, temos, na biologia, uma noção muito clara sobre o que é uma espécie: trata-se daquela classificação em que diversos seres do mesmo tipo são agrupados. No caso dos seres que se reproduzem sexuadamente, trata-se daqueles seres que, caso cruzem entre si, são capazes de gerar prole fértil. Mas estamos acostumados à ideia de que cada espécie é constituída por um número grande, e sempre multiplicável, de exemplares. Assim, uma manada de cavalos é constituída por diversos cavalos da mesma espécie, que têm em comum sua estrutura morfológica (sua forma, na linguagem clássica), e individualizam-se porque têm corpos diferentes (multiplicam-se pela matéria). Mas, no caso dos anjos, como pode acontecer esta multiplicação, se eles não têm matéria que permita individualizá-los entre si?

É certo que seres da mesma espécie, como o exemplo da manada de cavalos, individualizam-se pela matéria. Quando são seres materiais de espécies diferentes, há dois elementos que permitem identificá-los como indivíduos diversos: não só seus corpos são diversos, como sua estrutura morfológica, sua forma, é diversa também. Isto é evidente no caso dos seres materiais. Mas como esta classificação poderia funcionar com seres imateriais? Será que anjos têm espécies? São todos da mesma espécie? Como um anjo pode ser diferente de outro, se não têm corpos e, na nossa experiência cotidiana, qualquer individualização está sempre ligada a um corpo?

A hipótese controvertida, aqui, nega que a espécie possa ser este critério de individualização, entre os anjos. Parece que os anjos não se diferenciam pela espécie, diz a hipótese inicial, para provocar o debate. Há quatro argumentos controvertidos, no sentido desta hipótese inicial.

O primeiro argumento lembra que a classificação de algum ser numa espécie consiste em declarar qual é seu gênero e identificar a diferença que o faz pertencer àquela espécie. Por exemplo, os seres humanos são do gênero animal, e têm, como diferença com relação a todos os outros animais, o fato de serem racionais. Assim, a diferença específica, que coloca os seres humanos na espécie dos animais racionais, é a razão. O argumento prossegue, então, para afirmar que esta diferença específica, que faz com que aquele ente seja incluído numa espécie, é o que há de mais nobre na constituição daquele ser; para retomar o nosso exemplo, o que há de mais nobre neste animal que é humano é o fato de que é racional. E é isto que determina que ele seja da espécie humana. Ora, segue o argumento, aqueles seres que têm a mesma diferença específica devem ser classificados na mesma espécie. Ora, conclui o argumento, o que há de mais nobre nos anjos é a sua inteligência, e nisto eles se equiparam: todos os anjos são inteligentes. Logo, diz o argumento, todos os anjos são da mesma espécie.

O segundo argumento vai na mesma linha: todos os anjos são inteligentes. Mas, ainda que descobríssemos que alguns anjos são mais inteligentes que outros (como de fato são), não poderíamos dizer que eles pertencem a espécies diferentes somente por diferirem no grau de inteligência. Diferenças de grau, que não se constituem em diferenças qualitativas de natureza, diz o argumento, não são capazes de fazer com que os entes mudem de espécie. Assim, conclui que os anjos são todos da mesma espécie.

O terceiro argumento é metafísico. As almas, como formas vivas de entes inteligentes que são constituídos de corpos materiais, opõem-se aos anjos, puros espíritos de seres imateriais. São, pois, seres opostos: um caracteriza-se pela materialidade; outro, pela imaterialidade essencial. Mas um dos opostos (ou seja, a alma) pertence a seres que são todos da mesma espécie. Logo, diz o argumento, o outro oposto, os anjos, devem logicamente pertencer somente a uma espécie, também. É o que conclui o argumento.

O quarto argumento parte da abundância que deve existir na perfeição. Quanto mais perfeito é um ser, diz o argumento, mais ele está apto a multiplicar-se, a ampliar sua existência. Ora, se cada anjo fosse de uma espécie diferente, só haveria um anjo de cada espécie, e com isto seria impossível que as espécies angélicas se multiplicassem em número – o que evidenciaria uma contradição com a perfeição que se espera deles. Assim, diz o argumento, deve existir muitos anjos da mesma espécie.

O argumento sed contra parte de uma noção lógica de Aristóteles: quando classificamos diversos seres na mesma espécie, não conseguimos mais estabelecer uma hierarquia entre eles: são todos do mesmo nível hierárquico, não pode haver superior e inferior entre seres da mesma espécie. Mas entre os anjos há hierarquias, como se vê da Bíblia e como se vê dos escritos do Pseudo-Dionísio, que atesta que “entre anjos da mesma ordem há superiores, intermediários e inferiores”, diz ele. Dessas autoridades o argumento conclui que os anjos não são da mesma espécie.

Na sua resposta sintetizadora, Tomás começa colecionando as diversas opiniões errôneas sobre o tema. São três:

1. Há quem diga que todas as substâncias espirituais (até mesmo as almas humanas, que são apenas a parte espiritual de seres essencialmente materiais) seriam da mesma espécie. Ou seja, os seres humanos e os anjos seriam da mesma espécie, para esta corrente.

2. A segunda corrente entende que, do mesmo modo que todos os seres humanos são da mesma espécie, também o seriam todos os anjos. Assim, haveria apenas uma espécie de anjos, como há apenas uma de seres humanos.

3. Por fim, há quem defenda que as categorias de anjos representam as diversas espécies de anjos; assim, haveria a espécie de anjos, de arcanjos, de serafins de querubins, e assim por diante.

Mas Tomás não concorda com nenhuma das três correntes. É o que veremos no próximo texto.