Depois de estabelecer, com critérios estritamente teológicos, as razões pelas quais é conveniente e adequado que haja multidões incontáveis de anjos na criação, em razão da manifestação da bondade infinita de Deus naqueles seres que lhe são mais especialmente semelhantes em tudo, São Tomás, munido destes critérios, passa a enfrentar os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento afirma que a possibilidade de numerar alguma coisa, ou seja, de contá-la, significa simplesmente poder quantificá-la; ora, quantificar é exatamente medir a quantidade, e a quantidade é algo que se relaciona com extensão. A quantificação, a própria multiplicação de alguma coisa, tem a ver com a possibilidade de acrescer e dividir, que tem relação com a matéria, com a possibilidade de medi-la. Mas os anjos são imateriais, o que tornaria impossível que eles se multiplicassem – uma vez que seria impossível que eles se dividissem, já que são imateriais. Assim, o argumento conclui que não pode haver uma multiplicidade de anjos.
Tomás responderá que, de fato, os anjos não se multiplicam pela proliferação de novos indivíduos com outros corpos, como acontece nas espécies de seres materiais. Somente as formas de seres materiais podem multiplicar-se em indivíduos diversos, da mesma espécie, com novos corpos materiais. Os anjos, como não têm corpos, não se multiplicam. Mas isto não impede que haja múltiplos anjos diversos entre si pela própria forma, como há diversidade de animais diversos entre si pela espécie, cuja enumeração não decorre da multiplicação de espécimes por reprodução, mas pela simples diversidade de suas formas. Assim, do mesmo modo que podemos afirmar, por exemplo, que há certo número de espécies diferentes de mamíferos na África, podemos dizer que há grande número de anjos totalmente diversos entre si pelas próprias formas. Vale dizer, cada anjo é o único de sua espécie, é distinto de todos os outros e não se multiplica. Mas há inúmeras espécies de anjos. Poder afirmar que há inúmeras espécies de anjos, e que em cada espécie de anjo há apenas um único indivíduo de sua espécie não é medir sua extensão, uma vez que os números não são apenas quantificadores de extensão material, diz Tomás. Os números, em especial os que medem a unidade e a pluralidade, são verdadeiros transcendentais do ser, porque, quando eu digo “ente”, estou dizendo “unidade”. Ente e uno são sinônimos, são a mesma coisa vista sob aspectos distintos. Assim, se digo “multiplicidade”, reconheço que há, ali, diversos entes, distintos entre si; isto é mais do que simplesmente medir extensões. A matemática, vista como transcendental do ser, é muito mais do que a matemática que é mera quantificadora de matéria. Por isto, quando eu afirmo que Deus é um, estou dizendo que não há outros seres, além de Deus, aos quais eu pudesse atribuir a divindade. E quando eu digo que os anjos são muitos, quero dizer que há muitos entes aos quais se pode atribuir a natureza angelical, reconhecendo-os, ademais, como diversos entre si. Isto tem um sentido muito diferente daquele que a matemática assume quando eu afirmo, por exemplo, que este elefante pesa 500 quilos, ou que este casal de coelhos reproduziu-se em 50 coelhinhos.
O segundo argumento admite esta noção transcendental da matemática, mas aduz um novo aspecto. De fato, é corretíssimo dizer que, vendo o uno como transcendental do ser, Deus é o uno por essência, vale dizer, ele esgota em sua unidade toda a divindade. Ora, prossegue o argumento, os anjos são os entes com mais semelhança a Deus; por isto, diz o argumento, também nisso devem assemelhar-se a Deus: em multiplicarem-se o mínimo possível. Assim, o argumento conclui que não devem existir multidões de anjos.
São Tomás reconhece, em sua resposta, que os anjos, em sua natureza de pessoas espirituais, são as criaturas que mais se assemelha, em sua estrutura interna, a Deus. Ora, Deus é sumamente simples, não tem composição em si; a rigor, Deus não tem uma estrutura interna, que fosse formada por partes. Assim, é neste aspecto que os anjos devem mais assemelhar-se a Deus, em terem uma estrutura interna com o mínimo de composição, o mínimo de elementos estruturais. E de fato é assim: os anjos são compostos, apenas, de essência e existência, e não apresentam, em sua estrutura, nenhuma parte divisível. Em Deus não há sequer esta composição: nele, a essência e a existência são idênticas, já que Deus é sua própria existência. Assim, diz Tomás, é na simplicidade de sua estrutura interna, que tende à unidade, que os anjos assemelham-se a Deus, e não em serem poucos entes angelicais. Assim, o fato de que os anjos são seres de estrutura simples, que tendem à unidade no ser, é o que os torna semelhantes a Deus em sua estrutura, e não o fato de que os anjos são muitos. A multiplicidade de seres angelicais, portanto, não contradiz a semelhança a Deus que se encontra na simplicidade da estrutura metafísica de cada anjo.
O terceiro argumento é aquele que quer equiparar os anjos realmente existentes, dos quais temos conhecimento pela Revelação bíblica, com certas entidades pleiteadas por Aristóteles em sua cosmologia arcaica, que ele denominou de “motores imóveis”, e concebeu como substâncias separadas, imateriais, capazes de dar o primeiro empurrão nas esferas celestes, movendo o sol, a lua, as estrelas e planetas. O argumento diz que, uma vez que as substâncias separadas, que seriam os anjos, existem para empurrar os corpos celestes, eles deveriam ser apenas em número necessário para explicar os movimentos que vemos no céu, não mais nem menos.
São Tomás diz que não se poderia conceber que os anjos, seres puramente espirituais, pessoais e inteligentes, semelhantes em tudo a Deus, existissem apenas com o fim de empurrar os corpos celestes; isto seria admitir que aquilo que é mais elevado, a pessoalidade inteligente e imaterial, existisse em função daquilo que é menos elevado, as engrenagens materiais do Cosmos. Aqui se vê o quão profundamente o cristianismo está impregnado de pessoalismo, ou melhor, personalismo, de intuição da dignidade de pessoa, e sua superioridade sobre realidades não pessoais. Não seria concebível, diz Tomás, que Deus tivesse criado estas pessoas espirituais, tão semelhantes a si, para o fim apenas de empurrar corpos celestes. Assim, não é boa teologia condicionar o número dos anjos aos movimentos cósmicos, conclui Tomás, mostrando como a sua forte intuição da realidade leva-o a evitar até as armadilhas que as condições de conhecimento do seu tempo poderiam levá-lo a cair – ainda mais considerando a autoridade que a filosofia de Aristóteles tinha em seu pensamento. Não foi ruim, no entanto, diz Tomás, que Aristóteles tenha usado os movimentos celestes para postular substâncias separadas (que existem de fato, mas não como ele postulou); isto faz sentido, quando se sabe que a forma de conhecimento humano depende do sensível para atingir o inteligível, e com certeza o fato de que os grandes filósofos intuíram a existência de substâncias imateriais, separadas, ajudou a esclarecer o conhecimento bíblico revelado.
Por fim, o argumento neoplatônico, que vê o raio da sabedoria divina como essencialmente uno, e apenas a matéria como fonte de diversidade, de multiplicidade. Assim, o argumento admite e imaterialidade dos anjos, mas, uma vez que tem que explicar de algum modo a multiplicidade dos anjos (por causa do dado bíblico), acaba encontrando, com uma citação do Pseudo-Dionísio, mais uma vez no movimento dos corpos celestes a razão dessa multiplicação.
São Tomás responde que não é claro que os entes só possam se multiplicar em razão da matéria. Na verdade, como a pluralidade, como a unidade, são transcendentais do próprio ser, a diversidade dos anjos pode ter (e de fato tem) um fundamento que não é material, mas baseia-se no próprio plano divino de estabelecer hierarquias pessoais de entes espirituais que refletem, cada um a seu modo, as infinitas dimensões da própria sabedoria divina. Este é, pois, o motivo da multiplicidade dos anjos, e não qualquer fator material.
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