A discussão, aqui, diz respeito à quantidade de anjos que podem existir. Vimos, no último texto, que esta discussão se prende a três aspectos: o critério de multiplicação para os seres imateriais (como se pode multiplicar o número daquilo que, em si mesmo, é indivisível), a relação que muitos teólogos da época faziam entre os anjos bíblicos e os motores imóveis de Aristóteles e as formas separadas de Platão e, por fim, qual o critério que justificaria que a unidade do poder criador de Deus, sumamente uno em sua inteligência, pudesse multiplicar-se em entes imateriais inteligentes que, supostamente, são semelhantes a ele em pessoalidade e imaterialidade.
Vimos, ainda, que, aplicados os critérios estritamente filosóficos então conhecidos, haveria dificuldade de dar as razões pelas quais a Revelação bíblica declara (por exemplo em Daniel 7, 10) que os anjos são milhares de milhares, ou mesmo milhões de milhões. É exatamente esta purificação, que resguarda a verdade da Revelação contra a tentação de forçá-la a harmonizar-se com dados filosóficos estranhos a ela, que São Tomás fará agora em sua resposta sintetizadora, que passaremos a examinar.
São Tomás passa exatamente a contar esta história, a partir do resgate da noção filosófica de substância separada, que a teologia cristã adotou para falar de anjos.
Tomás lembra que, para Platão, o termo substância separada designava as formas, ou seja, as ideias das coisas materiais, que existiriam concretamente num reino separado e mais real que a nossa realidade material. Nossa realidade seria, então, uma espécie de cópia mal feita da realidade na qual existem as formas como substâncias separadas. Assim, para Platão, haveria tantas substâncias separadas quantas fossem as formas, ideias ou species das coisas sensíveis. Mas elas não seriam, é bom acrescentar, formas pessoais, como a fé cristã vê os anjos.
Sabe-se, porém, que Aristóteles foi um grande crítico desta noção de Platão de que as ideias subsistissem algures como substâncias separadas. As formas, para Aristóteles, subsistem nas próprias coisas ou em aluma inteligência, como abstraídas das coisas que a inteligência conhece. Esta abstração, porém, levando ao conhecimento da própria essência da coisa, faz sempre referência ao fato de que a coisa conhecida é material. Assim, a essência, como conhecida pela inteligência, não exclui a materialidade da coisa conhecida, já que conhece a coisa como sendo material em primeiro lugar. Então as formas das coisas materiais, como existentes nas inteligências, não poderiam constituir-se em substâncias separadas. Mas a filosofia de Aristóteles também conhece substâncias separadas da matéria; são elas que, como motores imóveis, fazem mover os corpos celestes. A física aristotélica, deparando-se com corpos celestes que se moviam pelos céus (alguns sem padrões regulares, como os planetas) e tendo que evitar o chamado regresso ao infinito nos movimentos, postulou a existência de seres suprassensíveis, verdadeiras substâncias separadas, responsáveis por mover estes corpos ou esferas celestes, Assim, estes seres, embora tendo natureza superior àquela dos seres materiais ou mesmo dos corpos celestes, ordenam-se a mover os corpos celestes como motores primeiros, dando movimento ao cosmos inteiro. Eles seria, portanto, em número igual ao dos movimentos celestes que eles causam. Ou seja, diante dos limites da visão cosmológica da época, seriam, no fundo, poucos.
Mas parece bem claro que estes entes aristotélicos são em tudo diferentes dos anjos mencionados na tradição bíblica, diz Tomás. Ocorre que pensadores teológicos, como o Rabbi Moisés Maimônides, tentaram harmonizar a Revelação dos anjos na Bíblia com o pensamento de Aristóteles. Pleitearam, então, o seguinte: quando a Bíblia fala de anjos, ela se refere a estes entes aristotélicos que movimentam as esferas celestes; mas referem-se também a pessoas humanas que anunciavam as coisas divinas, como mensageiros (já que a raiz da palavra “anjo” significa exatamente “mensageiro”) da Palavra ou da vontade de Deus, ou mesmo ainda a fenômenos e forças naturais que expressam esta vontade na prática. Não há, porém, diz Tomás, como equiparar a Revelação escritural da existência e natureza dos anjos com as forças e fenômenos naturais, que são, aliás, desprovidos de inteligência e pessoalidade. E aqui se vê claramente, acrescento, a distância entre o mundo cristão desmistificado, explicado através das causas naturais, e a visão pagã antiga de um mundo cheio de deuses.
Portanto, diz Tomás, devemos buscar outra explicação para a multiplicidade dos anjos, atestada na Bíblia. De fato, diz ele, as Escrituras nos atestam que os anjos existem em número impensavelmente grande, superando mesmo em número todos os seres materiais. Neste ponto, São Tomás recorre, inclusive, ao testemunho do Pseudo-Dionísio, que afirma que “os exércitos das inteligências supremas e bem-aventuradas são numerosos, e superam em muito a capacidade que a nossa matemática material e limitada teria para contá-los”.
São Tomás procura explicar essa multiplicidade através daquela ideia de que a criação existe para expressar, na essência limitada de cada ser criado, alguma faceta da bondade infinita de Deus. Por isto, diz Tomás, é muito adequado que aqueles seres que, por sua natureza inteligente, pessoal e imaterial, mais adequadamente manifestam as perfeições divinas, sejam também os que existem em maior multiplicidade. De fato, diz ele, impressiona-nos sempre contemplar a grandeza de Deus na grandeza de certas criaturas, que, pelo seu porte majestoso, espelham-na para nós. Impressiona-nos ainda mais contemplar a grandeza do Cosmos, de suas galáxias majestosas, de suas estrelas cintilantes; e aquilo que nos parece o excesso de criaturas majestosas ou de um universo incrivelmente grande e diverso é capaz de nos fazer contemplar a interminável beleza e bondade de Deus. E, assim como a realidade do Cosmos ultrapassa incontavelmente o conjunto das realidades terrestres, também a realidade das criaturas espirituais, mais semelhantes ainda à própria divindade, deve ultrapassar até mesmo a multiplicidade dos corpos materiais celestes com toda a sua infinidade cósmica. E isto sem recorrer a nenhuma equiparação indevida com realidades filosóficas estranhas à Revelação cristã, ou seja, sem acomodações indevidas.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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