Esta é outro debate em que se mostra fortemente o conflito que existia – e inevitavelmente deve existir – entre a visão filosófica da Grécia antiga, especialmente em Aristóteles e Platão – e a teologia cristã, e como é forçado tentar simplesmente utilizar conceitos filosóficos em questões teológicas. E mostra, ainda, como São Tomás é hábil em evitar cair nas armadilhas do debate, e como, mesmo sem ter acesso à cosmologia de hoje em dia, conseguiu intuir e escapar de uma resposta datada e condicionada pelos pressupostos que examinava.
A questão está na noção de “substância separada”. Anjos são criaturas pessoais, seres inteligentes e espirituais, incorpóreos, que a Bíblia descreve em diversas oportunidades como em contato com Deus e influenciando na história. Mas, para Platão, as “substâncias separadas” eram simplesmente as ideias, que são as formas das coisas materiais, e que existiriam num reino elevado, a partir do qual serviriam de modelo a tudo o que existe por aqui materialmente. Assim, existiria ali a ideia de ser humano, a ideia de cão, a ideia de árvore, e assim por diante. Não há, pois, relação, aparentemente, entre a noção platônica de “substância separada” e a noção revelada de anjo. Por outo lado, Aristóteles, com sua visão do universo como composto de esferas nas quais se moviam os corpos celestes, teve que pleitear que diversos seres transcendentes serviriam como “primeiros motores” capazes de mover os corpos celestes; estes, por seu turno, fariam com que as coisas se movessem aqui na Terra. Em todo caso, a Bíblia, como veremos, faz menção a um enorme número de anjos, e certamente compatibilizar a Revelação com as noções platônica e aristotélica de “substâncias separadas” não é uma tarefa fácil. Em todo caso, vamos acompanhar o modo pelo qual Tomás o faz, e aprenderemos muito com ele, quer sobre filosofia clássica, quer sobre os anjos, mas principalmente sobre a maneira genial com que um grande cérebro consegue harmonizar os instrumentos filosóficos e teológicos que possui, por um lado, com a verdade revelada que recebeu, por outro.
O que está em debate, aqui, é a quantidade de anjos que existem. Parece uma questão desimportante, anacrônica mesmo, mas não é; é uma aula sobre criação, sobre teologia, enfim, sobre abordar o dado revelado com os instrumentos que a inteligência humana dispõe para compreendê-los: em uma palavra, sobre como receber a fé com inteligência. A hipótese controvertida, para provocar o debate, é a de que os anjos não teriam sido criados em grande número, mas seriam, na verdade, bem poucos. Há quatro argumentos no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento assume uma definição de “muitos”, ou “em grande número”, como associada estritamente às realidades materiais. Dizer que alguma coisa é grande, ou existe em grande número, significa dizer que ela existe como uma realidade capaz de se dividir, de se multiplicar, como um grande bolo é capaz de ser fatiado em muitos pedaços. Ora, continua o argumento, se os anjos são imateriais, e a multiplicidade é uma quantificação que se baseia na multiplicação do divisível, então não poderíamos de modo algum afirmar que existe uma multiplicidade de anjos, conclui.
O segundo argumento é teológico, mas com forte sabor platônico e, em especial, neoplatônico. De fato, Plotino valoriza muito a unidade como sinal de perfeição. O argumento parte justamente desta ideia: sendo Deus sumamente uno, quanto mais uma criatura se aproxima de Deus, tão mais ela deve tender à unidade, e menos deve multiplicar-se, diz o argumento. Mas se os anjos são, dentre as criaturas, as que mais se assemelham a Deus, já que são incorpóreas como Deus e inteligentes como Deus. Assim, o argumento conclui que elas devem tender também a ser o menos numerosas possível, para assemelhar-se a Deus, que é uno. Assim, o argumento conclui que não deve haver uma multidão de anjos.
O terceiro argumento parte de uma equiparação entre a ideia de substância separada como primeiros motores das esferas celestes, que é da física de Aristóteles, com a noção revelada de anjo, da teologia judaico-cristã. O argumento mistura as duas coisas, como se Aristóteles estivesse falando de anjos ao tratar dos tais motores imóveis que ele postula na sua física. E o argumento, equiparando as duas coisas, diz que os anjos têm como razão de ser impulsionar o movimento dos corpos celestes. Ora, prossegue o argumento, os corpos celestes, embora muitos, não são uma multidão incontável. Disso, o argumento conclui que não deve haver uma multidão incontável de anjos, mas só o número suficiente para impulsionar os corpos celestes.
O quarto argumento mistura a filosofia de Plotino sobre o “uno” e o “múltiplo” com a filosofia de Aristóteles sobre os “motores imóveis” dos corpos celestes para relacionar estas visões de mundo com a revelação judaico-cristã sobre os anjos. De fato, o escritor eclesiástico Pseudo-Dionísio, cristão de grande influência neoplatônica, diz que todas as criaturas subsistem pelo raio único e indiviso da sabedoria divina, que se multiplica na diversidade de seres criados, em razão da divisibilidade da matéria. Mas os anjos são criaturas puramente intelectuais, e portanto o raio da sabedoria divina, que é uno em sua origem, não poderia ser multiplicado pela matéria para formar uma multidão de anjos – já que anjos não têm matéria. Assim, resgatando a ideia de Aristóteles de que os corpos celestes são movidos por motores imóveis que são, eles mesmos, substâncias separadas, Pseudo-Dionísio conclui que são os corpos celestes que dividem o raio de sabedoria divina de modo a multiplicar os anjos. Assim, o argumento conclui que os anjos não seriam uma multidão, mas apenas tantos quantos necessários para movimentar os corpos celestes.
Mas o argumento sed contra simplesmente cita as Escrituras, que, no Livro de Daniel, diz: “Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam!”. Ou seja, o argumento reafirma que, de acordo com a Palavra Revelada, os anjos realmente são em grandíssimo número. Como conciliar, então, esta noção com os conceitos filosóficos, metafísicos e cosmológicos que estavam disponíveis no tempo de Tomás?
É o que veremos no próximo texto.
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