Chegou, então, a hora de revisitar os argumentos objetores iniciais e responder a eles com os elementos estabelecidos na resposta sintetizadora, admitindo o que neles há de verdadeiro e bom e corrigindo o que há de equivocado.
O primeiro argumento retoma o conceito de “gênero” e “espécie”, lembrando que Aristóteles costumava dizer que o gênero é determinado pela matéria e a espécie, pela forma. Pensemos nos animais: todos compartilham a mesma matéria, carne e ossos, mas é a sua forma especial que faz com que sejam classificados como humanos, cães, gatos, bois, etc. Ora, prossegue o argumento, os anjos têm gênero e espécie; deste modo, devem ter matéria e forma.
São Tomás, em sua resposta, explicará que o que coloca alguma coisa numa espécie não é simplesmente a sua forma, mas a sua diferença. Assim, um ente é classificado numa espécie em razão de possuir uma diferença relevante, que o torna diverso em grau dos outros entes do mesmo gênero. Pensemos nos números matemáticos; são todos do mesmo gênero, ou seja, são medidas de quantidade. Mas a adição ou subtração de quantidades estabelece a diferença entre os números, e portanto o número um é especial com relação ao número dois, e assim por diante. No caso dos entes materiais, diz Tomás, há um elemento que determina o que eles têm em comum; é a matéria. Assim, a matéria coloca todos os entes materiais no mesmo gênero. Mas o fato de que eles têm estruturas diferentes, ou seja, têm formas diversas, estabelece que os entes classifiquem-se em espécies diferentes. Assim, diz Tomás, é neste sentido que se diz que os entes materiais estão no mesmo gênero em razão da matéria, e em espécies diferentes em razão da forma. Mas isto é próprio apenas dos entes materiais. Nas coisas imateriais, é a estrutura, a própria forma portanto, que estabelece tanto o gênero quanto a espécie. É certo que, mesmo nas coisas imateriais, cada ente apresenta um grau diferente de perfeição e organização. Assim, enquanto consideramos os entes imateriais naquilo que eles têm de comum entre si, indistintamente, nós os conhecemos genericamente, ou seja, como um gênero. Assim, os números estão no gênero da medida das quantidades, e os anjos estão no gênero dos entes imateriais pessoais. Mas quando consideramos aquilo que os diferencia, que os torna individuais, distintos, então nós os conhecemos especificamente, distintamente, como espécies. É assim que o número um e o número dois, embora pertençam ambos ao gênero dos números, são espécies diferentes de números, porque o primeiro quantifica a unidade e o segundo, a tríade. No caso dos anjos, o seu grau de perfeição, as suas aptidões pessoais, os especificam. E assim sabemos que, por exemplo, o arcanjo Miguel não é Rafael ou Gabriel, e nenhum deles é Lúcifer, para ficar apenas naqueles que são nomeados na Bíblia. Portanto, é a inteligência que conhece que determina se os considera naquilo que têm em comum, e portanto os apreende como gênero, ou naquilo que têm de próprio, e os apreende como espécie. Não há nenhuma relação, aqui, com a questão da matéria e da forma. Respondida, pois, a primeira objeção.
O segundo argumento diz que onde existem as propriedades da matéria, também deve existir a própria matéria. Ora, prossegue o argumento, a matéria tem, como propriedades, o fato de receber e o fato de sustentar. A matéria recebe as formas, concretizando-as, de modo análogo àquele pelo qual uma folha de papel recebe as ideias que antes existiam apenas na nossa mente. E a matéria sustenta, ou suporta, a existência, no sentido de que ela é o sujeito das transformações: é assim que sabemos que este pedaço de carvão veio daquele pedaço de madeira, embora a madeira e o carvão sejam substâncias diferentes; é que ambos têm a mesma matéria determinada, aquela que antes se estruturava como madeira e agora se estrutura como carvão. Ora, diz o argumento, a forma pura não pode ser sujeito de nada, como a ideia que está em nossa mente não pode entrar no mundo real e ser comunicada se não se corporifica em alguma matéria. Mas o anjo é um ser efetivamente existente, ou seja, ele é sujeito. Logo, deve ser material em algum grau, conclui o argumento.
Este é exatamente o argumento de Avicebrão, diz Tomás. Mas ele está equivocado, como já vimos na resposta sintetizadora. De fato, diz Tomás, as formas encontram-se como efetivamente existentes de duas maneiras: numa porção de matéria ou numa inteligência. Não há outra maneira para a forma existir. Ora, aqueles entes de razão, como os entes matemáticos, existem apenas nas inteligências. O número três, a noção de raiz quadrada, a definição de triângulo, estas realidades existem apenas nas inteligências. Mas as coisas materiais existem nas inteligências como universais e na criação como materiais. Mas uma é a maneira que eles existem nas inteligências, outra é a maneira que eles existem na matéria. Nas inteligências, elas existem como abstrações, ou seja, como puras formas inteligidas, como informação imaterial inteligível. É assim que as coisas são recebidas e subsistem nas inteligências. Mas na matéria elas são recebidas como indivíduos concretos, e subsistem naquela porção de matéria que as individualiza. É diferente, pois, o modo de recepção e o modo de subsistência das coisas na matéria e numa inteligência, e Avicebrão estava errado em simplesmente equiparar as duas maneiras de existir. No caso dos seres inteligentes e imateriais, a sua forma é recebida na sua própria inteligência, ou seja, eles são porque conhecem e se conhecem. Os anjos existem imaterialmente na própria inteligência que são, e que recebe sua forma e a sustenta inteligentemente, vale dizer, de modo imaterial. Os anjos não precisam, pois, que sua forma seja recebida na matéria para subsistir: ela subsiste como inteligência que se conhece a si mesma. Portanto, subsistem imaterialmente.
O terceiro argumento diz que a forma é ato, e toda potência está na matéria. Ora, prossegue o argumento, nenhuma criatura pode ser puro ato, porque só Deus é puro ato, sem nenhuma mistura de potência. Toda criatura tem que ter em si alguma composição de ato e potência, porque é esta composição que a faz criatural, que a faz não divina. Logo, conclui o argumento, os anjos também têm que trazer em seu ser esta composição de ato e potência; vale dizer, conclui o argumento, eles têm que ser materiais em alguma medida.
São Tomás começa reafirmando que as criaturas de fato devem trazer em si alguma composição de ato e potência, pelo simples fato de serem criaturas. Mas isto não significa que deva haver sempre, nelas, a composição de forma e matéria. É que a composição criatural não e dá apenas pela dualidade forma-matéria. Há uma outra dualidade, mesmo nos seres materiais: a dualidade essência-existência. Assim, as coisas materiais estão sujeitas a uma dupla composição: elas são compostas de essência e existência, por um lado, e de matéria e forma, de outro. Pensemos num projeto arquitetônico: enquanto ele está na fase de concepção, ele existe apenas nas plantas, maquetes e especificações do arquiteto. Depois da construção da respectiva obra, ele passa a existir em matéria (concreto, vidro, madeira) e forma (a estrutura arquitetônica concebida). Assim também as criaturas. Antes da criação, elas existiam como concepção na mente de Deus. Ou seja, apenas sua essência era objeto do pensar divino. Depois de criadas, elas ganham a existência. Se forem materiais, passam a existir em matéria e forma. Se forem puramente espirituais, existem como pura forma, mas não como pura existência, já que recebem seu existir do ato criador de Deus: os anjos não dão a si mesmo seu próprio existir, nem existem por necessidade, mas são criados por um ato deliberado de amor divino. Assim, diz Tomás, embora os anjos não tenham nenhuma composição de matéria e forma, eles têm a composição de essência e existência, vale dizer, uma é a maneira pela qual eles são (este é anjo, aquele, arcanjo, este é Miguel, aquele é Rafael…), outro é o próprio fato de que existem aqui e agora, por força de um poder criador que não é deles, mas de Deus, e que os colocou na existência como que de fora. Eles recebem de Deus a existência que atualiza o seu potencial para existir. Antes de serem criados, os anjos também eram pura concepção com potência para existir. Agora, depois de criados, são compostos do fato de que existem com o fato de que são isto e não aquilo. Somente em Deus a essência e a existência coincidem perfeitamente: Deus é seu próprio existir, e não o recebe de fora. Neste sentido, apenas Deus é puro ato.
Por fim, a quarta objeção parte da ideia de que a matéria é aquele princípio que delimita e concretiza a forma, definindo-a na existência. Tomemos a ideia abstrata de cão: um cão, como ideia, como mera forma universal, abstrata, não existe como um indivíduo concreto. Todo indivíduo concreto tem sua determinação por ser material. Vale dizer, o cão efetivamente existente tem uma raça, uma cor, uma idade, uma localização espacial, um temperamento, enfim, uma individualidade que o limita. Esta individualidade, que o impede de ser uma abstração de cão e o determina como Totó ou Rex, vale dizer, como ente criatural, é dada pela matéria, diz o argumento. Assim, se os anjos são concretamente criaturas individuais determinadas, devem necessariamente ser materiais.
Tomás discorda. Toda criatura, diz ele, é determinada e concreta em si mesma, exatamente em razão de que é a sua essência criatural, esta e não outra, que recebe de Deus a existência. Mas nada impede, prossegue Tomás, que haja, nas próprias criaturas, aspectos de indeterminação (ou, usando a linguagem clássica, aspectos em que a criatura é ilimitada) ao lado dos aspectos que a determinam e limitam. Pensemos, aqui, nas criaturas materiais; tomo como exemplo a minha cadelinha Pipoca, que está aqui ao meu lado. A forma canina, sua estrutura de canídeo, determina que este ente aqui seja um cão e não, digamos, um gato. Mas a sua matéria é, de certo modo, indeterminada: de fato, agora mesmo Pipoca está trocando de pelo, e a casa está repleta de pelos soltos de cão, obrigando-me a usar o aspirador de pó com frequência. Mas, ainda que ela troque todos os pelos por outros pelos, ainda que as suas células progressivamente morram e sejam substituídas por outras, ainda que toda a matéria que hoje compõe o seu corpo venha a ser progressivamente substituída ao longo da vida, a minha cadelinha Pipoca continuará a ser esta cadela aqui, e não nenhuma outra. É a sua estrutura, o modo de estruturar-se, ou seja, a sua forma, que dá a determinação a ela, e é o fato de que esta forma canina tenha sido recebida na matéria que determina que Pipoca seja a minha cadelinha, e não, digamos, a cadela de Napoleão ou de Simão Pedro. Mas a minha cadelinha Pipoca não esgota todas as possibilidades de ser cão. O meu vizinho tem um cão pastor enorme, que atualiza outras potencialidades da forma canina que não estão presentes em minha cadelinha Pipoca. Isto significa que Pipoca é limitada, determinada, como cão.
Neste sentido, os entes imateriais são limitados, de certa forma, por serem este ente e não aquele, mas são de certa forma ilimitados exatamente por serem imateriais. Explico. Tomemos o conceito de “triângulo”. Se concebemos o triângulo como puro conceito, quer dizer, como “uma figura geométrica cuja soma dos ângulos internos dá 180 graus”, este conceito não se limita a este ou aquele triângulo: ele descreve todos os triângulos que já existiram, que podem vir a existir e que existem. Neste sentido, o conceito, como entidade imaterial, é ilimitado, vale dizer, refere-se ilimitadamente a todo e qualquer triângulo. Mas se eu desenho um triângulo num pedaço de papel, ainda que ele satisfaça plenamente ao conceito de triângulo, ele está limitado a ser este triângulo aqui, com uma certa medida, com uma certa cor, com uma certa textura, com a existência no tempo e no espaço. Ele não esgota as possibilidades do “ser triângulo”, uma vez que infinitos outros triângulos podem ser desenhados, e serão sempre diferentes deste. Serão sempre outros com relação a este. No entanto, é certo que o triângulo, como ser de razão, é também uma realidade criatural. Em certo sentido, portanto, os seres de razão, que existem indeterminadamente nas inteligências (na de Deus e nas nossas) são infinitos enquanto não se materializam neste ou naquele exemplar. O próprio conceito de triângulo, como figura fechada cuja soma dos ângulos internos dá 180 graus, esgota e abrange todas as possibilidades de ser triângulo. Mas este triângulo aqui, que desenhei no meu caderno, é apenas um exemplar finito e limitado de triângulo. São Tomás, ao responder este argumento objetor na Suma, usa como exemplos a brancura como conceito e a existência de coisas brancas, aqui onde usamos o conceito de triângulo e os triângulos concretamente desenhados por uma pessoa específica num determinado pedaço de papel. Mas a noção é a mesma.
Assim, diz Tomás, um ente pessoal, inteligente e imaterial como o anjo, pode ser dito “criaturalmente limitado” se olhado do ponto de vista de Deus. De fato, Deus o criou como este anjo e não aquele; digamos, como Miguel e não como Rafael. Neste sentido, sua natureza angelical é limitada, pelos limites mesmos de sua essência. Seria como se disséssemos que o triângulo, conceitualmente falando, limita-se a ser um triângulo e não, digamos, um quadrado. Mas, olhando desde baixo, ou seja, como seres humanos que tentam compreender os anjos, a natureza do anjo é, de certa forma, ilimitada, indeterminada; quando concebo o arcanjo Miguel, concebo com ele toda a possibilidade de ser Miguel, já que não há nem jamais haverá dois arcanjos Miguel. Comparemos, aqui, a natureza de Miguel com a natureza de Adão, o primeiro ser humano: Adão deu origem a inúmeros filhos de Adão, todos compartilhando a natureza humana de Adão em algum dos seus aspectos, cada um sendo humano de um modo limitado e concreto. Miguel será sempre e completamente Miguel: uma vez que um anjo jamais terá nenhuma matéria em sua composição, não há a possibilidade de que haja dois exemplares do mesmo anjo, cada um com uma faceta limitada e concreta daquela natureza angélica em especial. Miguel esgota a “miguelidade”, porque ele é tudo, sem limites, o que o Miguel deve ser. Cada anjo é, portanto, único em sua espécie, exatamente porque não é determinável, não é limitável em exemplares. Como criatura, ele é infinito em sua especificidade.
Este é, creio, um dos artigos mais complexos que já examinamos até agora.
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