No texto anterior vimos o debate a respeito da materialidade dos anjos ser colocado por Tomás. Lembremos que já ficou muito bem estabelecido ali que os anjos são incorporais. Por que, então, São Tomás achou agora necessário debater se, além de incorporais, eles também são imateriais?

De fato, podemos pensar em coisas incorporais que são materiais, como o ar, o vento, os gases em geral. E não é estranho à linguagem bíblica chamar os espíritos de “vento” ou “ar”. Também no grego clássico esta equiparação acontece, tanto que a mesma raiz que deu origem ao nome dos pneus dos automóveis também denomina o ramo da ciência teológica que estuda o Espírito Santo, a pneumatologia.

Mas logo no início de sua resposta sintetizadora, São Tomás vai esclarecer que foi Avicebrão, pensador árabe, quem pleiteou que os anjos, embora incorpóreos, seriam seres materiais. E ele parte de um raciocínio filosófico que toma um princípio errôneo, o de que as coisas que são distintas no nosso intelecto também são distintas na realidade. Mas este princípio é falso – basta pensar, por exemplo, numa lata de tinta e sua cor: podemos, de fato, distinguir entre a substância oleosa que chamamos “tinta” e a sua respectiva cor; mas, no plano da realidade, não existem duas coisas, como se existisse, por um lado, a tinta, e por outro, a sua cor como duas realidades ontológicas diversas. Mas é deste falso princípio que Avicebrão parte, para provar que os anjos têm matéria.

Tomemos como exemplos um anjo, substância incorpórea, e uma pedra, substância corpórea. Nas substâncias incorpóreas, como os anjos, diz Avicebrão, nosso intelecto pode distinguir algo que as unifica com as substâncias corpóreas e algo que as distingue. O que pode haver em comum entre um anjo e uma pedra, e o que pode haver de distinto entre eles?

Avicebrão afirma que eles se distinguem por terem uma estrutura diversa, ou seja, eles se distinguem como que por sua forma. Mas eles se unificam por serem entes, ou seja, porque esta forma distinta é realmente recebida na existência, já que tanto as pedras como os anjos são seres existentes. Ora, então o que os unifica é aquilo que recebe sua existência, dando-lhe concretude. E aquilo que recebe a existência de um ente, pela sua concretização, chama-se matéria. Assim, Avicebrão conclui que, uma vez que podemos distinguir mentalmente, na comparação entre o anjo e a pedra, algo que os distingue e algo que os unifica, então estas coisas devem ter existência real: o que os distingue existe como forma, o que os unifica, como matéria.

Mas que matéria seria esta? Que coisa seria esta que Avicebrão chama de matéria?

Ele diz que está falando, aqui, da matéria universal, vale dizer, tanto a pedra como o anjo teriam suas respectivas existências concretizadas naquele mesmo princípio indeterminado de concretude que a filosofia chama de matéria. É a mesma, portanto, para Avicebrão, a matéria que recebe a estrutura (forma) da pedra, como corpo, e a estrutura do anjo, como espírito incorpóreo. Assim, a existência dos anjos é recebida na matéria, espiritualmente, enquanto a existência da pedra seria recebida na mesma matéria, mas corporalmente. Por isto, as pedras seriam materialmente quantificáveis, teriam dimensões, enquanto os anjos, por serem incorpóreos, não as teriam, mas sua existência seria recebida de modo espiritual, não quantificável, também na matéria.

Mas isto não pode ser, diz finalmente São Tomás.

Uma pedra não pode ser composta da mesma matéria que outra pedra, lembra Tomás. Tomando a noção universal, ou seja, indeterminada, de matéria, duas pedras distintas têm matéria diversa, porque seus corpos são delimitados, de modo que não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Cada pedra tem, portanto, sua própria matéria delimitada (assignata). Mas como se daria isto se seres corporais e seres espirituais fossem recebidos na mesma matéria universal? Poderia acontecer que a mesma matéria delimitada corporalmente para uma pedra recebesse espiritualmente, ao mesmo tempo, a forma do anjo? Teríamos, então, um único e mesmo pedaço de matéria que, ao mesmo tempo, é o corpo de uma pedra e o substrato de um anjo? É claro que isto não seria possível, diz Tomás. Não podem existir pedras espirituais, ou anjos rochosos simultaneamente assinalados pela mesma porção de matéria, que teria, então, uma existência corporal como pedra e uma existência espiritual como anjo; a mesma matéria especificada não pode ser substrato de existência de dois entes diversos ao mesmo tempo. Assim, se Avicebrão estivesse certo, teríamos que admitir que uma seria a porção de matéria que formaria o corpo da pedra, e outro o que formaria o espírito do anjo.

Mas a matéria não pode se dividir em porções, em partes determinadas e assinaladas, senão pela quantidade. Se há quantidade, há porções de matéria. Não há nenhum outro critério, além da quantidade, que permita dividir a matéria em porções, em partes determinadas. Excluída a quantidade, a matéria é sempre indeterminada e indivisa.

Assim, para admitirmos que os anjos têm, em sua composição existencial, a mesma matéria que compõe o corpo das pedras, teríamos que admitir que eles têm algum tipo de quantidade em sua estrutura, seja como dimensão física, seja como peso. Mas neste caso, eles já não seriam espirituais: ora, ser espiritual significa exatamente não ter dimensões nem peso. Logo, conclui Tomás, os anjos não podem ter, em sua composição, nada de material. Não no sentido de matéria que se aplica ao princípio de composição dos seres corpóreos. Avicebrão está errado, portanto.

Mas há outra razão pela qual os anjos, como seres cuja substância é a própria inteligência, não possam ser materiais. Aqui, vamos raciocinar a partir do próprio objeto da inteligência, acompanhando o modo pelo qual a inteligência opera.

(Haveria muito o que dizer, aqui, sobre a antiga discussão da existência separada das formas ou ideias, como proposta por Platão. Platão propunha que as formas existiam concreta e realmente num reino separado, o “reino das formas” ou “reino das ideias”, e as coisas materiais apenas participam imperfeitamente daquelas formas, reproduzindo-as imperfeitamente na matéria. Aristóteles propunha que as formas ou ideias existem primeiramente nas coisas materiais de modo individual, e em segundo lugar nas inteligências, que as abstrai e concebe os universais. Tomás e a tradição cristã, sintetizando estes dois filósofos, dizem que as formas ou ideias existem sempre numa inteligência ou na matéria; em primeiro lugar, elas existem como arquétipos na inteligência de Deus, e em segundo lugar na matéria; em terceiro lugar, na inteligência das criaturas, por abstração. Assim, os anjos são formas inteligentes, quer dizer, são formas que existem na sua própria inteligência; este conceito será aprofundado ao longo destas questões do Tratado sobre os anjos).

Cada ser opera, diz Tomás, conforme a sua própria substância. Ora, os anjos são substâncias estrita e puramente intelectuais. Mas o intelecto nunca é material; de fato, é próprio do intelecto apreender as formas universalmente, e é próprio da matéria individualizá-las. Ora, se o intelecto apreende as formas universalmente, abstraindo-as da matéria que as individualiza, é claro que as formas não estão nos intelectos de modo material, mas de modo imaterial, universal. Logo, se existe um ser que é, em si mesmo, uma substância intelectual, ou seja, cuja essência é ser uma inteligência, este ente não pode ser, em nenhuma medida, material. E os anjos são isto mesmo: entes cuja essência é a inteligência. Logo, são seres cuja essência é ser imaterial.

Para concluir, e voltando a Avicebrão, São Tomás vai criticar, agora, a concepção deste pensador, que afirma que aquilo que é distinto no intelecto é também forçosamente distinto na realidade. Isto é falso. Nosso intelecto faz muitas distinções que não existem na realidade, mas apenas no nosso próprio modo de inteligir. Diferentemente dos anjos, nós não somos entes puramente intelectuais, ou seja, entes intelectuais por essência. Somos entes materiais com natureza intelectual, animais racionais. Assim, nosso modo de inteligir é o modo de inteligir de um ser composto: nós, que somos coisas materiais, entramos em contato sensível com as coisas materiais, compostas como nós de matéria e forma. Deste contato sensível, abstraímos a essência da coisa, que inclui, abstratamente, o fato de que são coisas compostas. Mas esta abstração na nossa inteligência não é composta, mas estritamente abstrata e imaterial. Assim, diz Tomás, nós apreendemos de modo simples, no nosso intelecto, aquilo que em si mesmo é composto. Mas as coisas materiais não-humanas são inferiores a nós, diz Tomás, porque não são realidades intelectuais, mas seres apenas materiais. Por isto, quando são apreendidas por nós, que, por termos inteligência, estamos numa posição superior à delas, elas passam a existir em nós de um modo mais elevado, inteligente, do que existem em si mesmas. Mas quando nos deparamos com entes imateriais, simples, puras inteligências, a situação se inverte: nossa inteligência não os consegue apreender diretamente, porque não conseguimos entrar numa relação sensorial com eles. Por isto, quando nós nos deparamos com a informação de que há inteligências imateriais, como os anjos ou o próprio Deus, nosso intelecto, que sempre apreende de modo composto, começa a fazer composições que não existem na realidade. Como os anjos não estão presos aos limites materiais, nós começamos a imaginá-los como seres semelhantes a nós, mas com asinhas que os fazem voar por aí, e assim por diante. Também com relação a Deus: na sua simplicidade absoluta, Deus é, a um só tempo, a sua bondade, o seu poder, o seu amor, a sua existência. Na nossa imaginação, porém, nós o concebemos como sendo bom, poderoso, existente e assim por diante, como se estes atributos fossem distintos nele, já que são em nossa inteligência. Este é, porém, um limite da nossa inteligência, não um atributo real de Deus ou dos anjos. Não há, nos anjos, partes ou figura, como não há, em Deus, uma bondade diversa da sua própria existência. Por isto, Avicebrão está errado em afirmar que aquilo que é distinto em nossa inteligência também o é na realidade: a nossa inteligência limitada faz uma série de distinções que não existem na realidade, com o intuito de conceber aquilo que, na verdade, está acima de suas próprias forças naturais.

Depois desta aula magna, São Tomás passa a enfrentar os argumentos iniciais. Isto veremos no próximo texto.