Começamos a examinar a natureza dos anjos. Este parece um assunto esotérico e, em certo grau, bem ultrapassado. Mas não é assim. Proponho, pois, um exercício intelectual aqui: independentemente de acreditarmos ou não na existência de anjos (e há bons elementos que indicam a possibilidade de sua existência, sendo, mesmo, matéria de fé para os católicos), enfrentemos estas questões, que debatem a natureza angelical, como uma espécie de exercício antropológico às inversas.

Lembrando que Descartes propôs, na sua antropologia, que a dimensão espiritual, o pensamento, é puramente imaterial, enquanto a corporeidade é pura extensão, deixando-nos às voltas com um dualismo muito mais radical do que o antigo dualismo platônico, parece muito interessante discutir como seria a existência e a estrutura de um ser inteligente, uma criatura mesmo, que fosse completamente incorpórea. Até para perceber em que medida o fato de sermos, nós humanos, criaturas inteligentes materiais (uma unidade, não uma dualidade) determina a nossa natureza, e como uma criatura inteligente e totalmente incorpórea seria diferente, radicalmente diferente de um ser humano.

Há, inclusive, correntes religiosas inteiras, bem populares, que defendem que somos essencialmente assim, seres puramente espirituais para quem a relação com a matéria é estritamente acidental. Vale dizer, grande parte das doutrinas espíritas e do new age considera que não há diferença ontológica, estrutural mesmo, entre aquilo que São Tomás chama de “anjos” e nós, humanos. O estudo desta seção da Suma vai demonstrar que seres inteligentes e essencialmente incorpóreos seriam radicalmente diferentes de um ser humano. Daí a importância destes debates que se seguirão.

Este primeiro artigo traz, logo, a seguinte hipótese controvertida: parece que os anjos não são seres absolutamente incorpóreos. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento afirma que, para que algo seja absolutamente incorpóreo, ele deve ser incorpóreo em comparação conosco, e também com relação a Deus. Mas o argumento busca uma citação de São João Damasceno, Padre da Igreja, que afirma que os anjos seriam “incorpóreos e imateriais com relação a nós; mas, comparados com Deus, eles seriam considerados corpóreos e materiais”. Assim, o argumento conclui que os anjos não são absolutamente incorpóreos.

O segundo argumento, resgatando Aristóteles em sua Física, diz que só um corpo está sujeito ao movimento. Mas o argumento cita de novo o Damasceno, que afirma que o anjo é “uma substância intelectual sempre em movimento”. Ora, diz o argumento, se ele está em movimento, então deve ser corpóreo, conclui.

O terceiro argumento cita Santo Ambrósio, que diz que toda criatura tem os limites próprios de sua natureza. Que os anjos são criaturas, diz o argumento, fica claro da própria Bíblia, que, no Salmo 148, 2, diz: “Louvai-o, todos os seus anjos”; e depois, no versículo 5, diz: “Louvem o nome do Senhor, porque ele mandou e tudo foi criado”. Ora, ter limites, ser delimitado, ter tamanho, peso, características próprias, é próprio das coisas corporais. Logo, conclui o argumento, os anjos são corporais.

O argumento sed contra também cita as Escrituras, que no Salmo 103 (104), 4, diz, sobre Deus: “Fazeis dos espíritos [anjos, sopros] vossos servidores”. Esta é, diz o argumento, uma descrição de incorporeidade.

Postos os elementos, São Tomás passa a nos oferecer sua própria resposta sintetizadora. Que veremos no próximo texto.