Nos textos anteriores, examinamos a hipótese controvertida de que há dois princípios para a realidade criada, o princípio bom e o princípio mau, ambos absolutos e igualmente fundamentais. Vimos os argumentos objetores neste sentido e o argumento sed contra, que reafirma a existência de um único princípio absoluto de tudo, que é o bem por essência. Vimos a resposta sintetizadora de Tomás, que explica o motivo pelo qual só pode haver um princípio fundamental, que é o bem absoluto, já que o mal é um não-ser, uma deficiência, da qual não pode existir princípio absoluto. E explica ainda como os antigos pensadores puderam, apressadamente, concluir pela existência de dois princípios, em razão de um exame apressado da realidade.

Forte agora nestas explicações, Tomás vai examinar e responder aos argumentos objetores iniciais. Os argumentos são (nada menos do que) seis.

O primeiro argumento é exatamente aquilo que São Tomás afirma, na sua resposta sintetizadora, ser a causa pela qual muitos se equivocaram e afirmaram a existência de dois princípios fundamentais antitéticos, o bem e o mal, como explicação da realidade. O argumento diz que efeitos contrários têm causas contrárias; cita inclusive a Bíblia neste sentido (Eclo 33, 15). Assim, uma vez que há efeitos bons e maus na realidade, o argumento conclui que deve haver um princípio bom e um mau causando tais efeitos.

Não é assim, diz Tomás. As coisas que causam eventualmente efeitos bons e maus têm, em comum, a característica de serem entes. Logo, embora oponham-se nos efeitos que causam, unificam-se, num grau superior, por pertencerem ao gênero das coisas existentes. Ora, há, portanto, uma unidade que tem razão de princípio, por ser mais elevada do que a dualidade bem-mal: a unidade no ser. Esta unidade é suficiente para afirmar que o princípio fundamental que unifica e explica tudo o que existe, e que pode causar eventualmente efeitos bons e maus, é o ser; e, como vimos em textos anteriores, o ser e o bem são conversíveis entre si; o que é, é bom. Logo, o bem é princípio fundamental único de tudo. Não há um princípio fundamental do mal.

O segundo argumento diz que, se um contrário está na natureza de alguma coisa, o outro também estará. Se é da natureza de uma parede ser branca, também o será ser preta, porque é da natureza das paredes terem cores, inclusive contrárias. Assim, prossegue o argumento, se o bem está na natureza das coisas, o mal também deve estar. Logo, aquilo que está na natureza das coisas é chamado de “princípio”, e existe, portanto, um princípio do mal, diz o argumento.

São Tomás explica que é próprio das criaturas serem compostas de atos e potências, ou seja, de características realizadas, presentes, e de características potenciais, mas ainda não presentes. Assim, a mesma característica, numa criatura, pode encontrar-se como perfeição ou como mera promessa, potencial, como é o caso do boi adulto que tem chifres, enquanto o bezerro ainda não os tem, mas tem a aptidão para tê-los. Por isto, o mal não se manifesta naquilo que é ato, perfeição consumada, mas naquilo que ainda é potência, e não chega a desenvolver-se ou se desenvolve inadequadamente. Ora, o princípio fundamental, que é Deus, não tem potências, no sentido de potenciais, de promessas ou capacidades ainda não desenvolvidas, mas é todo ato, todo perfeição. Assim, o absoluto é todo perfeição. Donde Tomás conclui que o mal é sempre relativo a uma potência, opondo-se ao respectivo ato. Portanto ele não é um ato oposto a outro ato, mas uma potência que não chega a ser ato, ou chega apenas inadequadamente. Se ele manifesta-se apenas nas potências, então ele não pode ser um princípio oposto ao ato, porque ele não pode ser perfeição nem absoluto. Ele será sempre deficiência e relativo.

O terceiro argumento é o do padrão de comparação; de fato, uma das vias para chegar a Deus, como vimos na questão segunda, é a via da perfeição: sabemos que uma coisa é boa e a outra é melhor ainda porque podemos compará-las a um padrão de perfeição absoluta, que é Deus, bem absoluto. Ora, diz o argumento, sabemos que há coisas ruins e outras piores ainda. Mas se podemos medir a maldade das coisas, deve haver um padrão de maldade absoluta com o qual as comparamos, e com isto o argumento conclui que há um mal absoluto.

Isto não procede, diz Tomás. O bem se mede pela aproximação ao bem perfeito, e o mal se mede pelo afastamento do bem perfeito. Assim, o padrão de medição, para o bem e para o mal, é a perfeição absoluta do bem que é Deus; para o bem, pela aproximação. Para o mal, pela distância. Assim, não há necessidade de pleitear um mal absoluto como padrão de medida para o mal. Primeiro, porque este mal não existe. Segundo, porque o raciocínio do argumento é equivocado.

O quarto argumento é o da participação. Todo o bem que há nas criaturas, todo o ser, toda a verdade, toda a unidade, são participações do ser, do bem, da verdade e da unidade de Deus. Logo, diz o argumento, se também o mal que encontramos não é absoluto, mas apenas participado, então deve haver uma fonte absoluta do mal, no qual o mal das criaturas participe, como há uma fonte absoluta do bem, no qual o bem das criaturas participa; é o que conclui o argumento.

A maldade dos seres, diz Tomás em resposta, não ocorre por participação, mas por privação na participação. Para entender, vamos a uma metáfora: uma barra de ferro, colocada junto a uma fogueira, passa a participar do seu calor, sem estar, no entanto, em chamas. Afastando-se da fogueira, a barra esfria. Isto poderia ilustrar o que ocorre com os entes que são criaturas: eles apenas participam do ser. Apenas Deus é o próprio ser. Assim, atingindo seu fim, sua própria perfeição, eles estão mais perto do plano de Deus para eles, e portanto participam ainda mais do ser. Afastando-se da sua perfeição, ou sendo privados dela, afastam-se de Deus e participam menos do ser. Por isto, diz Tomás, não é necessário pleitear nenhuma fonte do mal que seria participada pelas coisas más. O mal decorre do participar-se menos do próprio bem.

O quinto argumento diz que é necessário ir do acidental ao essencial. Parar uma investigação apenas nas suas causas acidentais é não chegar a descobrir toda a sua verdade. Ora, diz o argumento, vimos que o bem é causa acidental do mal. Neste caso, prossegue o argumento, será necessário descobrir qual é a causa essencial do mal, que só pode ser algum princípio que seja, ele mesmo, mau por essência. O argumento prevê, neste ponto, que se pode rebater negando que o mal tenha alguma causa essencial, ou seja, reduzindo-o a uma característica estritamente acidental, secundária, limitada, da criação. O mal é muito concreto, diz o argumento, e não é apenas um aspecto secundário da criação; se o fosse, o bem seria prevalecente, já que aquilo que é acidental sempre se manifesta apenas naquilo que é substancial, e não em todos os casos. Assim, teríamos que admitir, diz o argumento, que o mal ocorre minoritariamente no universo, o que não é verdade, argumenta. Assim, afirma que há um princípio substancial do mal, como há um princípio substancial do bem, conclui.

Mas o mal de fato é um aspecto acidental na criação, responde Tomás. Ele ocorre num ente, ou seja, tem sempre um bem como suporte, e ocorre ali onde um bem é esperado. Não se pode, pois, procurar uma causa substancial para o mal, como se ele fosse algo que existisse por si mesmo, que tivesse consistência independentemente de algum bem que lhe é suporte. De fato, diz Tomás, o bem é que ocorre na maioria dos casos, enquanto o mal ocorre por acidente, e apenas nas criaturas que são geradas e destruídas; mesmo nestas, diz Tomás, o bem prevalece, e o mal, o defeito, a incompletude, a frustração, ocorre apenas numa pequena parte de entes. No caso das criaturas inteligentes, diz Tomás, especialmente dos seres humanos, o mal ocorre propriamente como mal moral, e de fato pode ser dito como prevalecente, porque o bem do ser humano está na inteligência e na vontade, e são poucos, minoria mesmo, os que se guiam pela razão e não pelos apetites irracionais, instintos, inclinações sensíveis desordenadas, enfim.

Por fim, o sexto argumento tenta chegar a um mal supremo, absoluto, como primeira causa do mal, através de um raciocínio de regressão ao infinito. O mal é sempre efeito de uma causa deficiente, diz o argumento. Esta causa deficiente, por seu turno, originou-se numa outra causa deficiente, e assim por diante. Ora, diz o argumento, não se pode prosseguir até o infinito na causalidade. Assim, é necessário postular um primeiro mal, princípio não principiado do mal, capaz de causar todo o mal que há.

Mas na busca das causas do mal não existe regressão ao infinito, diz Tomás. Na verdade, tudo aquilo em que o mal se apresenta é ente, e é substancialmente bom, e eventualmente é acidentalmente mau. O mal está nele por acidente; acidente que consiste numa distância, numa ausência, numa deficiência, num tipo de não-ser, portanto. Ora, o não-ser não precisa de causa substancial, porque o não-ser não é, e as causas explicam apenas o que é. Logo, o fato de haver uma primeira causa não causada do bem é suficiente para evitar a regressão ao infinito, também no caso do mal.

Acabamos, então, esta seção dedicada à relação entre Deus e suas criaturas, bem como à estrutura fundamental da criação em geral. Em seguida, iniciando o estudo das criaturas em especial, estudaremos estas criaturas maravilhosas, fascinantes e desconhecidas que são os anjos. Será um estudo interessantíssimo, porque, estudando o que são os anjos, podemos ter uma ideia melhor sobre o que são os seres humanos, através das respectivas diferenças entre nós.