No texto anterior, vimos a hipótese controvertida deste artigo, de que haveria dois princípios de mesma hierarquia, igualmente fundamentais, o princípio do bem que é Deus, e um princípio do mal, contraposto a Deus e capaz de explicar a existência do mal na criação. Vimos os seis argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial. Veremos agora a resposta sintetizadora de São Tomás.

Ele inicia logo negando que haja dois princípios para a criação; não há um princípio do mal. Há apenas um princípio de tudo, que é Deus, e que é o sumo bem.

E São Tomás vai, didaticamente, apresentar três motivos pelos quais não é sequer pensável um princípio do mal. São eles:

1. O primeiro princípio é princípio de tudo o que existe. Ora, tudo o que existe é, pelo simples fato de existir, essencialmente bom. Ora, o mal não é uma existência, mas uma deficiência numa existência esperada. Logo, ele existe apenas como acidente num ente essencialmente bom; mas aquilo que existe em outro não tem substância, logo não tem essência. Por isto, não há nada que seja mau por essência, porque todo mal existe num bem como seu sujeito, como vimos no artigo anterior. Assim, se não há, na vida concreta, algo que seja mau por essência, tampouco existe fundamento para admitir um mal absoluto, algo que seja ao próprio mal consubstanciado, como Deus é o bem consubstanciado. Logo, não pode existir um princípio substancial do mal.

2. O segundo motivo é que o chamado “primeiro princípio” do bem encerra em si todo o bem. Ele é o bem supremo, sem nenhuma mistura de mal. E mais, nele preexiste como próprio todo o bem que existiu, existe ou existirá. Mas se houvesse um “princípio do mal” oposto ao princípio do bem, ele teria que ser o mal absoluto, sem nenhuma mistura de bem, e seria integralmente e perfeitamente mau, preexistindo nele todo o mal que existiu, existe ou existirá. Mas, como nós vimos nos artigos anteriores, o crescimento do mal num ente consome nele, progressivamente, o que há de bom. Mas, como já vimos, a existência é sempre um bem. Logo, se o mal cresce a ponto de consumir esta existência que dá suporte a ele, o ente que apresenta este mal perde o bem de existir. Uma vez que ele não existe, o mal que havia nele também já não pode existir. Portanto, não pode haver, ao mesmo tempo, o mal absoluto que exista sem nenhuma mistura de bem, simplesmente porque a existência é um bem e um mal sem mistura de bem não pode apresentar o bem da existência. Logo, o mal absoluto simplesmente não pode existir.

3. A terceira razão é que a própria noção de mal é contraditória com a noção de primeiro princípio. Por dois motivos, diz Tomás. Primeiro porque, como vimos, o mal é causado pelo bem, ainda que acidentalmente, como foi debatido num artigo anterior. É certo que o mal é causado em razão da deficiência da própria causa, ou seja, daquele mal que existe na causa boa, maculando-a. Ora, se aquilo que causa o mal é essencialmente bom, mas acidentalmente mau, não pode ser um primeiro princípio, porque primeiro vem aquilo que é substancial, depois vem aquilo que é acidental. O primeiro princípio, portanto, é uma causa essencial, que é substancialmente boa; todo mal, sendo acidental, vem sempre depois. O que vem depois, portanto, não pode ser primeiro princípio, pelo próprio motivo de que um primeiro princípio não pode vir depois, ou já não é primeiro.

Mas é fato que vários pensadores, alguns muito profundos, professaram a existência de dois princípios. Erraram, diz Tomás. E por que erraram? Erraram porque não pensaram com profundidade suficiente.

De fato, se examinarmos as coisas particulares, em seu poder de causar, vemos que elas produzem efeitos bons e efeitos maus. Assim, se examinarmos apenas os efeitos particulares das coisas, veremos que algumas coisas são benéficas em seus efeitos, outras são nocivas em seus efeitos. E como o benéfico e o nocivo são contrários, estes pensadores generalizaram suas conclusões para identificar uma causa universal benéfica e uma causa universal nociva. Erraram.

É certo que existem naturezas que muito facilmente produzem o mal, mesmo no plano ontológico. Pensemos, por exemplo, no fogo; pensemos, por exemplo, num animal violentamente peçonhento. É muito fácil passar aligeiradamente dos efeitos nocivos que estes entes provocam para a ideia de que eles são intrinsecamente nocivos, e portanto decorrem de uma causa intrinsecamente má. Este é, no entanto, um raciocínio errado. De fato, o que há de mais profundo num ente não é a sua capacidade de causar, mas o fato mesmo de que ele existe. Assim, o princípio que unifica os entes não pode ser o fato de causarem efeitos bons ou maus, mas o fato mesmo de existirem, já que aquilo que não existe, não tem causalidade. Ora, não podemos qualificar uma serpente de “um ser intrinsecamente mau” por ser constantemente causa da morte de crianças em países pobres, como não podemos qualificar os tubarões de “seres intrinsecamente maus” por serem grandes predadores, ou classificar as árvores frutíferas como intrinsecamente boas por nos fornecerem alimentos. Nem sequer poderíamos dizer que a peçonha das serpentes vem de um princípio mau, enquanto seu cuidado com a prole vem de um princípio bom. Nem mesmo poderíamos dizer que o efeito de matar a vítima vem do mal, mas a consequência de que a vítima morta serve de alimento ao predador vem do bem. Este utilitarismo levado ao nível de metafísica não considera aquilo que unifica todos estes aspectos: sua unidade de existir. Não é a natureza adversa de um efeito que caracteriza o ente, mas a sua existência mesma num todo, com o qual se relaciona agindo e sofrendo, fazendo parte da admirável ordem que resulta no bem de tudo, no bem universal que é fundamento, e que não muda de natureza em razão do eventual mal particular.

Depois de nos dar esta admirável resposta, que é, sem dúvida, às vezes difícil para nós de acompanhar e absorver, dada a sua profundidade, São Tomás responderá às objeções iniciais. É o que veremos no próximo texto.