Sempre houve, na história da humanidade, uma grande tendência ao maniqueísmo dualista, ou seja, a imaginar que há um princípio divino para o bem e outro para o mal, ou algum tipo de dualidade positivo-negativo, como o Yin-Yang dos orientais; mesmo o grande Santo Agostinho andou enredado em tais erros, antes de sua conversão, como ele conta em suas “Confissões”. Este é o debate que será proposto aqui: existe algum princípio para o mal, algum “deus do mal”, algum “sumo mal” que seja oposto ao sumo bem que é Deus?

Ainda há, mesmo em alguns cristãos menos formados ou informados, a ideia de que o Diabo seria um ser assim, uma espécie de divindade que é a fonte originária de todo mal, em oposição linear a Deus, que é a fonte originária de todo bem. Trata-se de um engano; o Diabo é apenas uma criatura pervertida e poderosa, mas não é uma divindade.

Neste artigo, um tanto logo, há uma tentativa, nos argumentos iniciais, de provar a existência de um mal absoluto, uma espécie de anti-Deus, através de vias análogas àquelas pelas quais, na questão 02, caminhamos nas vias que provam a existência de Deus. Seria uma espécie de “vias de prova do mal absoluto”, que Tomás refutará genialmente na segunda parte do artigo.

A hipótese controvertida é a de que existiria uma divindade do mal, um princípio maligno em oposição a Deus; eis a hipótese: parece que existe um “mal supremo” que seria a causa primordial de todo mal, ou seja, seria a fonte à qual todo mal poderia ser remetido. Há nada menos do que seis argumentos objetores neste artigo, no sentido desta hipótese.

O primeiro argumento objetor parte da lógica: efeitos contrários têm causas contrárias. Ora, o bem é o contrário do mal. E há coisas más, como há seres humanos maus, porque assim nos ensina as Escrituras, no Livro do Eclesiástico (33, 15): “Diante do mal está o bem; diante da morte, a vida, assim também diante do justo está o pecador”. Ora, as coisas boas são, portanto, contrárias às más, e não podem, então, ter a mesma causa, o mesmo princípio. Assim, o argumento conclui que há um princípio para as coisas boas e outro princípio, distinto daquele e igualmente fundamental, para as coisas más.

O segundo argumento é ontológico. Se um dos contrários está na natureza das coisas, o outro também deve estar, diz Aristóteles. Imaginemos um boi, com longos chifres, e um bezerro, sem chifres ainda. O chifre, tanto na sua presença como na sua ausência, está na natureza do bovino, seja ele um touro chifrudo, seja um pequeno bezerro ainda sem chifres. Ora, diz o argumento, se o sumo bem está presente na natureza das coisas, já que o ente é, e sabe-se que o “ser” e o “bem” são transcendentais entre si, o sumo mal também tem que estar na natureza das coisas, relacionando-se com a deficiência particular que aquele ente apresenta (de forma analógica àquela com que o ser e o bem relacionam-se). Assim, o argumento conclui que há um sumo mal.

O terceiro argumento faz um paralelo entre a perfeição do sumo bem, por um lado, e a degradação do mal, por outro. Nas coisas, diz o argumento, podemos encontrar aquilo que é bom, e, comparando-as, podemos estabelecer que uma é melhor que a outra. Fazemos isto porque temos um padrão de perfeição que mede as coisas particulares, e este padrão é o bem absoluto, o sumo bem. Ora, existem nas coisas também aquilo que é mau. Mas existem coisas más e coisas ainda piores. Mas, para conseguir comparar o que é mau com o que é ainda pior, teríamos que admitir a existência de um padrão absoluto de maldade, que servisse de medida para o mal, de modo análogo ao padrão de perfeição que o sumo bem fornece para medir a bondade das coisas. Assim, o argumento conclui que há um mal absoluto, supremo, que é princípio de todo mal.

O quarto argumento parte da noção filosófica de participação, muito importante no pensamento escolástico, principalmente para Tomás. Aquilo que é por participação remete àquilo que é por essência. É assim que, por exemplo, uma barra de ferro aquecida ao fogo participa do calor, mas, afastando-se do fogo, perde-o, porque não está ela mesma em chamas, mas apenas participa do calor do fogo que está próximo. Assim, o calor está no fogo substancialmente, porque a reação que produz o fogo produz nele o calor. Mas está na barra de ferro por participação, e, afastando-se a fonte de calor, a barra esfria. Ora, o bem está em nós, criaturas, por participação do bem absoluto que é Deus. Mas, como vimos nos artigos anteriores, as coisas que se apresentam como más são essencialmente boas, diz o argumento, mas de algum modo participam da maldade, por estarem corrompidas. Logo, como tudo o que participa, participa de algo que é em outro por essência, deve haver algo que é mal por essência, para que as coisas particulares possam participar de sua maldade. Assim, o argumento conclui que há um mal supremo, causa de todo mal.

O quinto argumento quer lembrar que os artigos anteriores provaram que o bem é causa acidental, apenas acidental, do mal. Mas, prossegue o argumento, aquilo que é acidental refere-se àquilo que é essencial. Nem se poderia dizer, prossegue o argumento, que o mal fosse algo simplesmente acidental, porque isto implicaria admitir que ele é limitado, frágil, pouco ocorrente no mundo, quando sabemos que não é assim, que o mal está presente intensamente no mundo. Logo, é preciso encontrar uma causa essencial do mal; se a causa essencial do bem é o bem supremo que é Deus, deve haver uma causa essencial do mal que seja o mal supremo, em contrapartida.

O sexto argumento tenta argumentar com umaregressão ao infinito: de modo análogo àquele pelo qual provou-se que deve haver um primeiro ser absoluto que mova todos os seres e seja sua causa eficiente primeira, deve haver também um primeiro mal absoluto que provoque todo o mal que há no mundo. De fato, diz o argumento, vimos que o mal do efeito remete a uma causa deficiente. Mas esta causa, sendo deficiente, é, ela mesma, efeito de uma causa anterior igualmente deficiente. E assim sucessivamente: uma causa deficiente é efeito de outra causa deficiente anterior, e iríamos até o infinito nesta regressão, diz o argumento. Mas, se realmente esta cadeia de causalidade deficiente chegasse ao infinito, não haveria, na vida real, nenhum mal, porque não haveria um primeiro mal para desencadear a cadeia de deficiências, como um trem que fosse um encadeamento infinito de vagões jamais poderia mover-se, a menos que houvesse, em algum ponto, uma locomotiva para dar início ao movimento e encerrar a composição. Assim, conclui o argumento, deve haver um primeiro mal, supremo, que sirva como motor de todos os outros males e não seja movido por nenhum outro. Seria, diz ele, o mal supremo.

O argumento sed contra diz simplesmente que o mal sempre existe como um tipo de não-ser, como deficiência acidental num ente que, essencialmente, é e é bom. Mas a existência de todo ente, boa como é, remete ao sumo bem, causa de todo ser. Assim, não pode haver um princípio antagônico que seja causa de todo não-ser, porque o não-ser não é uma “contra-substância” para ter alguma causa substancial, muito menos absoluta. Assim, não pode haver um princípio absoluto oposto ao ser, que venha a ser causa primeira de todos os males.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.