Deus é bom. Mais do que isto; Deus é o próprio bem, como nos ensina a teoria dos chamados “transcendentais do ser”; sendo o próprio ser, ele é também o próprio bem. Mas no artigo anterior nós vimos que o mal tem o bem como causa, e como isto se dá. Ora, se o mal tem o bem como causa, e se Deus é o sumo bem, não seria lógico apontar Deus, em última instância, como causa de todo mal?
Artigo importantíssimo. Principalmente hoje, quando se vê o crescimento de um ateísmo que não somente responsabiliza Deus pelo mal, mas proclama a necessidade de uma luta contra todo tipo de religiosidade como forma de banir o mal do mundo. Por outro lado, há o crescimento de uma “teologia do Deus bonzinho”, que quer negar inclusive o governo da Criação a Deus, de modo a evitar que ele seja visto como castigador e remunerador do mal – mesmo o restabelecimento da justiça pela punição do mal seria indigno da bondade de Deus, para estes. É importante, pois, acompanhar este debate, no qual Tomás estabelecerá que Deus é bom (é a própria bondade), mas está muito longe de ser bonzinho. Como estabelecer, pois, que há só um Deus, onipotente e providencial, e imputar-lhe a bondade, sem responsabilizá-lo pelo que há de mal no mundo?
Esta é, agora, a hipótese controvertida, para provocar o debate: parece que, em última instância, Deus, sumo bem, é a causa do mal. São três os argumentos objetores em favor desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento é bíblico. Cita duas passagens em que os Profetas afirmam que o mal tem sua origem em Deus. A primeira passagem citada é Isaías 45, 6-7: “A fim de que se saiba, do levante ao poente, que nada há fora de mim. Eu sou o Senhor, sem rival; formei a luz e criei as trevas, busco a felicidade e suscito a infelicidade. Sou eu o Senhor, que faço todas essas coisas”. A outra passagem é Amós 3, 6: “Tocará o alarme na cidade sem que o povo se assuste? Virá uma calamidade sobre uma cidade sem que o Senhor a tenha disposto?”. Destas duas passagens, o argumento afirma que a Palavra bíblica assegura que Deus é a causa do mal.
O segundo argumento é metafísico. Deus é a causa primeira, porque ele é aquele que dá causalidade às próprias causas. Portanto, se o bem é a causa do mal, e Deus é a causa de todo bem, diz o argumento, não haveria como fugir da conclusão de que Deus é, em última instância, a causa de todo mal.
Por fim, o terceiro argumento também tem natureza filosófica. Cita Aristóteles, que, a respeito da providência no governo das coisas, afirma que “a causa do naufrágio do navio é a mesma da sua salvação”. De fato, diz o argumento, do mesmo modo que é o bom capitão que salva o navio, é o mau capitão que, diante de uma emergência, não é hábil para salvá-lo e o faz perecer. O argumento prossegue, dizendo que, uma vez que Deus é o governo e a providência de toda a criação, ele é o responsável pela boa condução de todas as coisas até a sua salvação. Mas, seguindo o raciocínio aristotélico, diz o argumento, devemos imputar a Deus também, como “capitão do navio”, os males que fazem perecer as coisas.
O argumento sed contra traz uma citação com o peso de Santo Agostinho, grande estudioso do problema da origem do mal, que nos assegura que Deus não é o autor do mal, porque Deus não é a causa da tendência para o não-ser. Veremos como este argumento será matizado por Tomás na sua resposta sintetizadora, já que ele não exclui da ação de Deus o chamado mal ontológico, o limite criatural mesmo, necessário à harmonia do mundo e, no caso da dimensão ética, do próprio restabelecimento da justiça entre as criaturas. Mas estamos nos adiantando a Tomás. Vamos examinar com ordem a sua resposta.
Tomás vai agir por exclusão. Em que sentido podemos excluir Deus como causa do mal?
Ora, aquele mal que é causado pela deficiência da causa não pode ser remetido a Deus. Deus é a suma perfeição, logo, nunca poderia ser causa do mal como uma causa deficiente o faz. Um mau pintor produz um péssimo quadro; um mau escultor, uma má escultura. Um barro ruim produz um péssimo tijolo. Em nenhum destes sentidos Deus poderia causar o mal.
Mas há um sentido em que Deus poderia ser causa do mal; aquele mesmo sentido em que um cientista pode ser causa de um produto capaz de destruir ervas daninhas (o que é um mal para as ervas daninhas) a fim de aumentar a produtividade de uma lavoura.
Há, portanto, um outro sentido em que o mal poderia ser causado: aquele em que as próprias coisas, em virtude do bem do conjunto, têm um limite criatural. Existem por algum tempo, corrompem-se e deixam de existir, a fim de que outras possam vir a ser. Ora, neste sentido, Deus pode ser causa do mal. Ao criar, por exemplo, animais que se alimentam de vegetais, isto pode ser, visto por determinado ângulo, um dano aos vegetais. Animais carnívoros eliminam espécimes para alimentarem-se. São criados assim por Deus. Com o fim de promover o bem da criação, a ordem no universo, a própria ordem ecológica, Deus permite, pois, a supressão de indivíduos, de tal modo que o equilíbrio comum seja preservado. É neste sentido, diz Tomás, que as Escrituras dizem (1Sm 2, 6): “O Senhor dá a morte e a vida, faz descer à habitação dos mortos e de lá voltar”. Mas o fim desejado por Deus, aqui, não é a morte em si; esta é um aspecto que ele aceita, que ele permite, porque quer o bem do conjunto, embora não queira a morte por si mesma. É neste sentido que o Livro da Sabedoria diz (1, 13): “Deus não é o autor da morte”.
Além, porém, deste mal ontológico, desse limite criatural que Deus aceita pelo bem do conjunto de Sua criação, há uma outra dimensão do mal que se pode remeter a Deus: o chamado mal de pena. Este decorre do fato de que Deus quis as criaturas inteligentes, amou-as e as fez com livre arbítrio. Como regente e providência universal, porém, cabe a Deus garantir a justiça na sua criação. Assim, cabe a Deus atribuir aos atos moralmente maus a sua consequência adversa, punindo aqueles que, deliberadamente, afastam-se da medida da razão no seu agir. A justiça infinita de Deus faz com que ele seja o responsável pela consequência nefasta, que faz sofrer àquele que, no mau uso da sua liberdade, faz sofrer a si mesmo e aos outros. Assim, Deus, que é a própria medida da razão, jamais pode ser causa do mal de culpa. Mas pode ser – e em última instância o é – causa do mal de pena. Deus castiga, de fato. E o faz por uma imposição de justiça: trata-se de uma consequência necessária de querer que haja, e de fato haver criado, criaturas inteligentes.
Colocados, assim, os fundamentos de sua resposta, São Tomás enfrentará os argumentos objetores iniciais.
O primeiro cita dois trechos das Escrituras (Isaías 45, 6-7 e Amós 3, 6) em que se afirma que Deus é autor do bem e do mal. Mas São Tomás responde com muita objetividade: estes trechos proclamam que Deus é autor do mal de pena, que promove a justiça, mas não podem ser lidos como se Deus de algum modo fizesse alguma coisa que pudesse ser considerada como “mal de culpa”. Deus não erra.
O segundo argumento lembra que, na forma explicada na questão 2, quando se tratou das chamadas “vias” ou “provas” de Deus, ele é a causa das causas, a causa primeira, ou seja, aquele que dá causalidade às causas criadas – que são, por isto, chamadas de “causas segundas”. Ora, diz o argumento, se a causalidade das causas segundas decorre da causa primeira, então, quando elas causam o mal, esta causalidade segunda também pode ser remetida à causa primeira, e portanto é Deus, em última instância, que causa o mal, conclui o argumento.
São Tomás responde que a causa segunda recebe da causa primeira sua eficiência, mas não suas deficiências. Como um automóvel com o pneu furado recebe do motor a capacidade de mover-se, mas o faz inadequadamente por conta do defeito no pneu. A possibilidade de mover-se vem do motor, que funciona adequadamente, mas a deficiência na tração vem da falta de ar no pneumático. Do mesmo modo, a causa segunda depende integralmente da causa primeira naquilo que é ato e perfeição, mas as deficiências que causar dependem somente dela mesma. Imaginemos um carimbo defeituoso: ele receberá das mãos do carimbador a força para imprimir sua marca, mas os defeitos na imagem produzida por ele resultam dos defeitos que estão no carimbo, não no carimbador. Assim, tudo o que o resultado da causa segunda tem de perfeição e eficiência pode ser remetido à causa primeira, isto é, a Deus. Mas tudo que há, no efeito, de deficiência e falha, remete-se apenas à causa segunda eventualmente deficiente.
Por fim, o terceiro argumento diz que Aristóteles costumava dizer que o mesmo capitão tanto pode causar o naufrágio quanto a salvação do navio; e, uma vez que Deus causa a salvação, o argumento imputa a ele também causar o mal, a perdição. Este argumento parece muito próximo à chamada “teologia da dupla predestinação”, de Calvino, que imputa a Deus, e a Deus somente, tanto a salvação dos santos quanto a condenação dos ímpios, independentemente do que estes possam fazer. Assim, Deus seria responsável pela maldade dos maus, em última instância, havendo-os predestinado irremediavelmente ao mal.
São Tomás vai nos ensinar que o capitão só é responsável pelo naufrágio quando é ele quem o causa, por ter sido um mau capitão; mas podem existir naufrágios inteiramente imputáveis às condições marítimas ou atmosféricas, ou a defeitos na construção e estrutura do navio. Neste caso, mesmo o melhor capitão, que, no que dependesse dele, tivesse feito tudo adequadamente, veria sua nave afundar. No caso da salvação, o fato de que somos livres para rejeitar a Deus e à sua graça determina que, mesmo sendo ele um capitão perfeito, possamos naufragar por causas inteiramente atribuíveis a nós mesmos. Por isto, não há analogia entre o caso do mau capitão e o caso da perdição dos maus.
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