No texto anterior, concluímos com a descoberta de que, das quatro causas da filosofia clássica, duas não se aplicam ao mal: a causa final, já que é próprio do mal ser um desvio do fim, e a causa formal, já que o mal é a própria deformação. A causa material do mal é, como vimos também, o próprio bem, que é seu sujeito, à maneira, metaforicamente falando, de um hospedeiro que abriga um parasita. Restou-nos discutir a causa eficiente do mal.

Uma vez que o mal é um certo não-ser, temos que lembrar, diz Tomás, que ele não pode ser eficientemente causado de modo direto, mas sempre de modo reflexo, acidental. Assim, Tomás nos explica que o mal tem causa eficiente por acidente. E de duas maneiras.

De fato, diz Tomás, o mal pode ser causado no agir do próprio sujeito ou nos seus efeitos. Poderíamos, usando a linguagem clássica, falar num mal imanente e num mal transeunte, ou seja, num mal que atinge o próprio ente, nas suas capacidades, limitando-o de algum modo em suas perfeições, e num mal que ele pode produzir noutros entes, em razão do seu poder de causar alterações em outros seres, ou seja, de ser causa eficiente de transformações alheias.

Este mal imanente, que atinge o ente em seu próprio ser, diz Tomás, pode ter duas dimensões.

Ela pode vir de uma deficiência na própria constituição do ser, como no caso das crianças quanto ao poder de reprodução, já que ainda não têm o poder de reproduzir a espécie, ou, digamos, de um mal de nanismo ou de debilidade geral em razão de alguma patologia como a esclerose múltipla.

Pode haver, também, o que Tomás chama de alguma “debilidade instrumental”, quando o ente sofre alguma redução na sua capacidade de agir por algum defeito nalguma característica secundária, instrumental, como a falta de dentes prejudica a mastigação e, portanto, a alimentação do sujeito. Neste caso, o mal é resultado da debilidade ou carência acidental naquele aspecto do ente que, em si mesmo, é bom. O que deveria causar uma perfeição resulta, em razão de deficiência (imaturidade, formação inadequada) num mal que atinge o próprio ente.

Quanto aos efeitos que o agente causa, ou seja, o mal, digamos, transeunte (que ele provoca em outras coisas, não em si mesmo), de duas formas pode ocorrer também. O mal é provocado em outra coisa provocado pelo poder do agente, quer pela sua eficácia ou pela sua deficiência. Pensemos, aqui, num carvão muito calorífico. Alguém o acende numa churrasqueira e, exatamente porque ele é um carvão muito eficiente, muito capaz de produzir calor, acaba queimando a carne que deveria cozinhar. Mas isto não ocorre por um resultado mau em si. É exatamente por manifestar-se com perfeição que o resultado mau, a queima da comida, acontece. É um acidente, resultante do excesso na eficiência da coisa. É por acidente, pois, que o mal advém do bem, aqui.

O outro caso surge da deficiência. Pensemos agora num carvão mal fabricado e estocado inadequadamente. Aqui, colocado na churrasqueira, o carvão não aquece o suficiente para cozinhar o alimento. Mais uma vez o resultado substancial, o aquecimento do carvão em si, acontece, mas o resultado mau é acidental, pela deficiência do meio. Vê-se, portanto, que o mal da destruição do alimento, no primeiro caso, e da sua preparação inadequada, no segundo, ocorrem em razão de uma relação acidental entre o poder calorífico do carvão e o alimento exposto a ele. Assim, São Tomás conclui que o mal, por não ter substância, a rigor não tem causa, a não ser como causa acidental. Vale dizer, é acidentalmente, e não substancialmente, que o bem é causa do mal.

Colocados estes critérios, São Tomás passa a examinar os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento cita Mateus 7, 18, que diz que a árvore boa não pode dar maus frutos, para negar que o mal possa vir do bem.

São Tomás vai fazer, com Agostinho, uma exegese bíblica bem interessante: o Senhor está, neste trecho, falando da boa vontade e da má vontade. De fato, diz Tomás, é a boa vontade que qualifica o ato moral como bom, e por isto da boa vontade jamais sairá um ato moralmente mau. Mas a má vontade produz o ato mau, embora a vontade seja um atributo próprio da criatura racional (que é boa). Assim, mesmo neste caso o mal (o ato moralmente mau) procede do bem (a criatura racional, cujo fato de existir é bom).

O segundo argumento afirma que, havendo dois contrários, um não pode ser causa do outro; logo, o bem não poderia ser causa do mal, por serem contrários. Mas São Tomás vai responder que, de fato, como o bem é causa eficiente do mal por acidente, ele não causa diretamente o mal que lhe é contrário, mas outro. Assim é que o ser humano, cujo existir é bom, pode causar o mal moral. Mesmo no caso do mal contrário, ele pode ser causado por acidente, como o aquecimento de um gás pressurizado provoca, ao liberar sua pressão, por uma característica acidental dos gases, o resfriamento da geladeira e do condicionador de ar. Note-se que aqui, como em outros pontos da Suma, São Tomás usa os exemplos da ciência do seu tempo, que eu tento atualizar sem perder o sentido.

O terceiro argumento afirma que um efeito deficiente decorre sempre de uma causa deficiente. Ora, diz o argumento, uma causa deficiente é, por isto mesmo, má. Logo, o mal tem como causa o mal, conclui.

Sim, diz Tomás, de fato o mal tem como causa algo deficiente, mas isto ocorre de modo diferente conforme este seja um mal natural, ontológico, ou um mal moral, quer dizer, um mal decorrente da ação livre de um ser inteligente.

No caso do mal natural, ele ocorre por uma causa eficiente defeituosa, como vimos na resposta sintetizadora; seria o caso, digamos, de um carimbo com um erro de impressão, que produz uma imagem sempre distorcida. Ou por uma causa material defeituosa, como no caso do carvão úmido. Há, aí, de fato, algum aspecto mau na causa, que, sem torná-la essencialmente má, causa acidentalmente o mal.

No caso do mal voluntário, a situação é um pouco diferente. A malícia do ato decorre de uma vontade que não se submeteu à medida adequada no agir. Como veremos quando estudarmos a parte segunda desta primeira parte da Suma, a medida adequada para a vontade é sempre a inteligência. Quando a vontade procede com desatenção à regra justa do agir, ela não se torna necessariamente culposa, porque é próprio da vontade esta liberdade, ou melhor, esta indeterminação perante aquilo que a inteligência lhe apresenta. Mas a culpa decorre exatamente do fato de que a vontade pode levar o sujeito a atuar mal, escolhendo mal a sua atuação. A culpa reside na vontade, ao escolher mal. Mas a própria possibilidade de escolher mal não faz da vontade algo mau: o livre arbítrio criatural, que inclui a possibilidade de escolher mal em decisões prudenciais, é parte da bondade mesma da vontade. A liberdade se realiza exatamente na indeterminação a priori da escolha, e a culpa se configura no descompasso entre a regra da razão e a efetiva ação. Por ora, soa um tanto obscuro. Mas isto será aprofundado mais à frente, aqui na Suma. São Tomás está lançando, aqui, os fundamentos para desenvolver um estudo da moral, adiante.

Por fim, o último argumento cita o Pseudo-Dionísio, que afirma que o mal não tem causa. Logo, o argumento conclui, o bem não é causa do mal.

Ao que São Tomás responderá secamente: sendo uma espécie de não-ser, de fato o mal não tem uma causa substancial, porque ele não é uma substância, mas uma deficiência. Mas ele tem uma causa acidental, como vimos na resposta sintetizadora acima; ou seja, algo que explica, do ponto de vista das chamadas “quatro causas do movimento”, as razões pelas quais o bem esperado não se realizou, ou realizou-se apenas deficientemente.