Como surge o mal? Eis o que vamos descobrir nesta questão. Este primeiro artigo questiona a causa próxima do mal. De onde ele surge? Sendo o mal uma deficiência, como poderia ele vir do bem, que é uma perfeição? Mas de onde vem o mal, afinal? Esta pergunta constitui exatamente a hipótese controvertida aqui, para iniciar o debate: parece que o bem não pode ser causa do mal. São quatro os argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese.

O primeiro argumento lembra o versículo bíblico de Mateus 7, 18, que diz que “Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos”. Ora, deste versículo o argumento tira a conclusão de que, conforme a Revelação, o bem não poderia ser causa do mal.

O segundo argumento é lógico; diz que um contrário não pode ser causa do outro. A escuridão não causa a luz, como o preto não pode causar o branco. Mas o mal é o contrário do bem, diz o argumento. Logo, conclui o argumento, o bem não pode ser causa do mal.

O terceiro argumento é metafísico. Ele diz que um efeito segue a natureza da causa. Logo, um efeito deficiente pressupõe uma causa igualmente deficiente. Mas “ser deficiente”, no sentido de ser privado da perfeição esperada, é ser mau, ontologicamente. Logo, o argumento conclui que só o mal é causa do mal.

O quarto argumento cita o Pseudo-Dionísio, que afirma que o mal não tem causa. Ora, se o mal não tem causa, segundo este importante pensador, então não se pode afirmar, conclui o argumento, que o bem é causa do mal.

O argumento sed contra cita Santo Agostinho, que afirma: de onde mais poderia nascer o mal, senão do bem? Ora, qualquer que seja a origem do mal, ela existe, e a sua existência é um bem. Logo, conclui o argumento, o mal tem como causa o bem.

Postos os termos do debate, São Tomás passará a dar sua própria resposta sintetizadora.

É preciso admitir, diz ele, que todo mal tenha, de algum modo, causa. É certo que o mal é uma deficiência; com isto, ficaríamos tentados a dizer que, uma vez que o mal é um modo de não ser, ele não precisaria de causa. Não é, porém, qualquer deficiência, como vimos naquele exemplo de que o fato de que uma pedra não enxerga não representa nela um mal, já que a visão não é um bem esperado, na pedra. Assim, diz Tomás, o mal nada mais é do que a falta de um bem esperado, que naturalmente deveria existir. Ora, toda vez que um bem esperado naturalmente deixa de acontecer, há alguma causa que o retira do seu curso natural. Analogicamente, diríamos, a situação seria parecida com a gravidade: é natural que os objetos pesados sejam atraídos para o chão. Salvo se alguma causa externa vem a contrariar esta tendência natural. Assim, é natural que uma potência, seguindo o curso ordinário das coisas, venha a atingir a sua própria perfeição, se não for impedida de algum modo.

Ora, é a este impedimento, que atrapalha a consumação da perfeição esperada, que se chama aqui de “causa do mal”. E este impedimento, sendo algo, age. Ora, ser algo e agir são bens. Logo, o impedimento que causa o mal é, em si mesmo, algo de bom, porque é e age. A questão é saber que tipo de causa é esta. Hoje em dia, quando falamos em causa, pensamos logo na causa eficiente; mas a filosofia clássica, como a medieval, admitiam muitos tipos de causas (sendo quatro as causas clássicas, que são a causa material, a causa formal, a causa eficiente e a causa final). Ora, diz Tomás, é preciso, então, debater exatamente como o bem entra como causa do mal.

Vamos discutir, então, a teoria da causalidade, como aplicada ao próprio mal. Vimos, na questão anterior, que o bem é o sujeito do mal, vale dizer, é como que o hospedeiro no qual o mal subsiste como parasita. Ora, o mal consiste exatamente em não atingir o fim devido ou esperado; assim, não podemos falar numa “causa final” para o mal; ele consiste exatamente em desviar-se dela. Mesmo aquelas coisas que não têm razão de fim, mas apenas de meio, quando sujeitas ao mal perdem o bem que poderiam ter como meio, que é o chamado bem útil: uma ferramenta apodrecida já não tem serventia como meio para o artesão. Quanto à causa formal, também não se pode falar numa “causa formal” do mal. Ele é, antes, uma deformação, ou seja, a falha em atingir a forma adequada. Quanto à causa material, ou seja, aquilo de que o mal é feito, temos que lembrar, aqui, que o sujeito do mal é o bem, como já estabelecemos na questão anterior. Assim, a causa material do mal é o bem, no qual ele subsiste como um parasita num hospedeiro.

Das quatro causas, vimos, portanto, que o mal não tem a causa final, nem a formal. Sua causa material é o bem.

E quanto à causa eficiente do mal? É o que veremos no próximo texto.