No texto anterior, vimos os termos do debate a respeito da possibilidade de aniquilação do bem pelo mal. Vimos que a hipótese controvertida é a de que o mal, ao se apresentar, consome completamente o bem. Começamos, então, a estudar a resposta sintetizadora de São Tomás.
O mal nunca pode aniquilar completamente o bem sem deixar, ele mesmo, de apresentar-se. Se ele aniquila o bem no qual se apresenta, ele próprio deixa de apresentar-se, como um buraco na meia que, aumentando de tamanho, consuma completamente a meia. Neste caso, a meia deixa de existir e, com ela, o próprio buraco.
O bem é um transcendental do ser, enquanto o mal é um não-ser relativo, ocorrente em algum ser, ali onde uma perfeição era esperada. Assim, terminamos o texto anterior registrando que há três maneiras pelas quais o mal e o bem se relacionam num ente; a primeira maneira é aquela em que o mal, ao manifestar-se, elimina completamente o bem correlato, naquele aspecto no qual o mal se manifesta. O exemplo, aqui, é o da cegueira completa, ou da escuridão absoluta. Nos dois casos, há uma eliminação do bem correlativo: na cegueira, há a eliminação da capacidade de enxergar, e na escuridão total, há a ausência completa de luz.
A segunda relação é entre o mal e os outros aspectos daquele ente, diversos daquele no qual o mal se manifesta. Ou seja, o bem do ente como hospedeiro, como sujeito do mal. O exemplo, aqui, é o da dignidade da pessoa cega. O fato de que foi atingida pelo mal da cegueira não compromete em nada o bem que ela manifesta por ser humana. Vale dizer, naqueles aspectos do ente que não foram atingidos por aquele mal, não há a supressão, nem sequer a diminuição, do bem do ente.
Há uma terceira maneira de relacionarem-se o bem e o mal, num ente; é a capacidade que o ente tem para realizar (ou melhor, para atualizar) o bem que está, nele, em potência. Há, aqui, uma redução do bem, naquele aspecto atingido pelo mal, que torna o ente menos apto para atingir seus fins, embora não elimine completamente esta capacidade, como na primeira hipótese acima. Não se tratam, diz Tomás, de uma mera redução quantitativa, mas de verdadeira redução qualitativa, tornando o ente menos capaz de atingir seus fins. Assim, diz Tomás, aqueles entes que têm em si grande aptidão para atingir suas próprias perfeições são seres mais perfeitos, e, portanto, melhores. É assim que um mármore de Carrara tem mais aptidão para ser talhado do que uma rocha de uma afloração arenosa, que não tem solidez e tende a se desmanchar. É assim que um carvão armazenado num lugar úmido e fechado reduz sua capacidade de queimar, com relação a um carvão seco e bem armazenado. Ora, diz Tomás, quanto mais houver, no ente, aquelas qualidades que o tornam apto a atingir sua
A pergunta que se segue, aqui, é a respeito do limite do mal, neste caso. No primeiro caso, aquele aspecto atingido pelo mal é eliminado. No segundo caso, os aspectos do ente que não foram atingidos pelo mal são preservados. Aqui, o ente é reduzido, pelo mal, em sua capacidade de atingir a perfeição. Quão intensa pode ser esta subtração?
Quando estamos tratando de aspectos do ente cuja qualidade pode ser mensurada, diz Tomás, uma vez que estas qualidades não se podem multiplicar ao infinito, tampouco podem reduzir-se infinitamente. O exemplo aqui é exatamente o do carvão: a capacidade de inflamar-se, no carvão, tem um limite quantitativo. Assim, a sua redução também tem um limite quantitativo: o carvão pode molhar-se até o ponto de liquefazer-se, e perder definitivamente sua capacidade de inflamar-se. No carvão, a aptidão para inflamar-se não pode ser reduzida infinitamente. Ela tem um limite quantitativo como perfeição; terá, também, um limite quantitativo para a sua corrupção.
Há, porém, aquele mal que atinge um aspecto do ser que não é, de nenhum modo, quantitativo. Aqui, Tomás usa a translucidez do ar para figurar o que ele está tentando dizer; podemos tornar o ar opaco com cortinas de fumaça, podemos interpor inúmeros corpos sólidos opacos entre o ar e a fonte de luz, reduzindo a zero a translucidez. Podemos continuar este processo indefinidamente, acrescendo obstáculos opacos entre a fonte de luz e o ar; em nenhum caso, porém, este mal que aumenta indefinidamente pode suprimir do ar a sua translucidez. Retirados os obstáculos opacos, o ar volta a conduzir a luz perfeitamente. Trata-se, pois, aqui, de uma característica própria, substancial, do sujeito, que está sendo atingida pelo mal; este mal pode aumentar indefinidamente, sem nunca retirar dele aquilo que o caracteriza. O exemplo da translucidez do ar pode nos parecer anacrônico, diante das descobertas da física moderna sobre a natureza do ar e da luz; mas o que há, aqui, é uma metáfora para a realidade espiritual. Diferentemente do mal material, do mal que atinge o ser em seus aspectos quantitativos, e que tem um limite na própria substancialidade corporal dos seres materiais, aquele mal que atinge os seres em seus aspectos espirituais, ou melhor, estritamente formais, pode aumentar indefinidamente sem suprimir a própria dignidade da coisa. E Tomás nos esclarece agora que ele fala da realidade do pecado: o pecado é aquele mal que retira do ente a sua transparência para Deus, afastando a criatura espiritual do Criador. Não há dúvida de que o pecado pode crescer indefinidamente, pode multiplicar-se numa curva que tende ao infinito; em qualquer caso, porém, ele não destrói a própria natureza criatural do ente. Perdoado o pecado, convertido o pecador, sua natureza volta à integridade do bem e ele volta a ser transparente a Deus; isto se chama santidade. Removido o pecado pela redenção em Jesus, o ser humano torna-se verdadeiramente santo em Jesus e por Jesus.
Note-se que, neste ponto, o pensamento escolástico foi abandonado pelos reformadores protestantes; eles veem o mal do pecado como aquilo que destrói, que aniquila irremediavelmente a natureza humana, após a queda; a redenção oferecida por Jesus não eliminaria o pecado, mas apenas o encobriria externamente por um “manto de justiça” que ocultaria de Deus, pelos méritos de Jesus, o pecado que remanesceria como mal substancial na alma humana após a queda. Vê-se, aqui, mais uma vez, a distância entre a visão eminentemente positiva, otimista, de Tomás e do pensamento escolástico, por um lado, e a visão pessimista do cristianismo reformado, e sua rejeição à ideia de santidade como uma renovação interna verdadeira. Mas isto é assunto para outro momento.
Postos os critérios, São Tomás passa a enfrentar as objeções iniciais.
O primeiro argumento objetor diz que o bem e o mal são contrários, e que um contrário é sempre completamente aniquilado quando o outro se manifesta. Assim, o mal aniquila completamente o bem, quando se manifesta, diz o argumento. Mas São Tomás responde que há muitas dimensões de bem no ente; o mal elimina apenas aquela dimensão em que ele se manifesta, mas não as outras dimensões de bem, que são, por assim dizer, o que possibilita que o ente continue a existir como sujeito daquele mal.
O segundo argumento cita Santo Agostinho, quando afirma que o mal prejudica porque priva do bem. Ora, diz o argumento, o bem não é divisível nem quantificável, mas homogêneo e uniforme em si mesmo. Assim, ao atingir o bem na coisa, o mal o eliminaria simplesmente, diz o argumento.
São Tomás explica que o mal atinge o ente em suas capacidades. Ora, as capacidades do ente têm duas dimensões, ou seja, elas podem ser vistas em relação ao ato ou em relação ao ente. Ora, diz Tomás, não há dúvida de que o mal elimina o bem com relação ao ato, mas não com relação ao ente. Assim, por exemplo, a capacidade de ver é uma característica dos animais, mas não das pedras. Assim, um animal cego continua sendo um ente que tem, substancialmente, a capacidade de ver, mas a perdeu circunstancialmente por um acidente. Por isto, ver continua sendo um bem associado substancialmente a ele, mas o ato de ver não pode acontecer porque o seu sentido da visão foi atingido pelo mal da cegueira. Além disso, pode ter ocorrido aquilo que São Tomás explicou na resposta sintetizadora, acima: o mal atinge a predisposição para o ato, impossibilitando sua atualização ou mesmo diminuindo-a, como no caso de uma doença ocular que reduza a translucidez dos olhos do animal. Mas, removido o obstáculo (por meio, digamos, de uma cirurgia reparadora), o bem de enxergar, que é uma potência substancial naquele ente, volta a exibir sua perfeição. É por isto que Jesus pode curar a cegueira de um ser humano, mas não poderia fazer com que uma pedra passasse a enxergar. Neste sentido, diz Tomás, podemos perfeitamente afirmar que o bem, embora não seja quantificável, e seja homogêneo e uniforme, pode ser diminuído pelo mal sem ser eliminado.
Por fim, a terceira objeção afirma que é próprio do mal, enquanto se manifesta, retirar ou diminuir de algum modo o bem. Ora, diz o argumento, daquilo que sempre se tira, um dia o bem se esgota, mormente quando se fala do bem criado, que é limitado. Assim, conclui o argumento,o mal tende à eliminação completa do bem naquilo em que se manifesta.
Aqui também São Tomás vai lembrar que o bem e o mal não se relacionam de modo quantitativo, mas qualitativo. Mas mesmo que estivéssemos falando de modo quantitativo, seria possível imaginar uma redução que tendesse à eliminação, mas que pudesse durar ao infinito. Se fôssemos imaginar uma redução quantitativa, de fato poderíamos imaginar, por exemplo, algo que fosse sempre reduzido à sua metade: num primeiro momento, perderia a metade, depois a metade da metade, depois a metade da metade da metade, de tal modo que a quantidade reduzida fosse sempre diminuída proporcionalmente e sempre restasse alguma coisa para ser diminuída. É assim, de fato, que as coisas materiais, corporais, podem sempre ser divididas, infinitamente, sem nunca chegarem a ficar sem dimensão.
Mas a relação entre o bem e o mal é qualitativa, e portanto devemos pensar nela também qualitativamente. De fato, diz Tomás, se pensarmos, por exemplo, nos pecados, não é possível quantificar quanto bem se retira da alma ao pecar uma vez, ou duas, ou três, ou inúmeras vezes, nem qual pecado é mais grave e capaz de reduzir mais intensamente o bem naquela alma, como se o pecado posterior não pudesse ser mais grave que o anterior, por atingir uma alma já diminuída no bem. Não há essa matemática do mal, espiritualmente falando. De fato, uma vez que o bem de um ente espiritual (para seguir no exemplo dado por Tomás) tende ao bem infinito, que é a sua perfeição em Deus, pode, em tese, macular-se indefinidamente pelo mal, sem com isto perder a sua própria bondade essencial. Neste sentido, mesmo Satanás, que degradou-se pela opção completa e irrevogável pelo mal, não perdeu o bem que ele é, por ser um ente, uma criatura, um existente.
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