O velho problema do dualismo entre o bem e o mal é enfrentado várias vezes na Suma. Já o encontramos na questão 5, quando debatemos o bem em geral, e na questão 6, em que debatemos a bondade de Deus. Mas agora vamos examinar profundamente o que é o mal. O que é muito difícil de fazer, porque, se é verdade que o mal é uma privação e não está propriamente no ser, isto significa que, a rigor, a nossa linguagem tem problemas para comunicar-se sobre ele.
A nossa linguagem é adequada ao ser, e o expressa. De modo que é muito difícil falar daquilo que é não-ser, e existe a tentação permanente de expressá-lo por analogia com o bem. Mas essa analogia muitas vezes tende a ser compreendida univocamente; ou seja, ao usarmos uma linguagem que quer expressar o não-ser do mal através da analogia com o ser, tendemos a imaginar que o mal tenha, ele próprio, alguma espécie de consistência ontológica. Não tem. É esta purificação que Tomás vai fazer aqui.
É preciso, aqui, ter em mente toda a doutrina do ser e seus transcendentais. O bem não é, neste contexto, um mero valor, algo relacionado a uma estimativa ou um preço conversível economicamente, mas o próprio ser, sob o enfoque de uma vontade. E o mal? Seria ele também alguma dimensão do ser?
Este debate responde também a outra indagação importantíssima. Se há o mal, e se Deus é o criador de tudo o que existe, Deus criou o mal? Eis porque é tão importante descobrir a natureza do mal. Ou melhor, descobrir se, a rigor, o mal tem mesmo uma natureza, se ele é alguma coisa. Esta é exatamente a hipótese controvertida: parece que o mal é alguma coisa, que ele tem uma natureza própria, e portanto é um verdadeiro princípio que existe realmente, compõe e explica a própria criação.
É uma hipótese dualista, que vê a realidade como consistente de dois princípios, o bem e o mal.
A discussão tão importante traz cinco argumentos objetores. Os argumentos mostram a forte correlação do plano lógico com o plano ontológico, nesta discussão. Ou seja, como é fácil confundir aquilo que é com o discurso que nossa inteligência concebe para aprender e comunicar.
O primeiro argumento objetor vai exatamente nesta linha. No discurso lógico, diz o argumento, classificamos as coisas em gêneros e espécies. Ora, para ser classificado como pertencente a um gênero, portanto, é preciso que aquilo seja alguma coisa. Mas o mal, diz o argumento, é um gênero. Portanto, tem uma natureza em si mesmo. O argumento lembra que o próprio Aristóteles dizia, no livro das Categorias (parte da obra sobre lógica, de Aristóteles) que o bem e o mal não estão sob algum gênero, mas são eles próprios gêneros nos quais estão outros seres. Assim, o argumento conclui que o mal é alguma coisa.
O segundo argumento é retirado da lógica aplicada à ética. Quando classificamos as coisas em gênero e espécie, sabemos que as coisas sob um mesmo gênero diferem em razão da chamada “diferença específica”. Ora, diz o artigo, as diferenças específicas são sempre uma natureza, como os seres humanos são do gênero animal, mas diferem dos outros animais porque têm a natureza racional. Mas, na ética, diz o argumento, os atos que pertencem ao gênero dos atos voluntários diferem entre si especificamente em razão de serem bons ou maus. Logo, o mal é uma diferença específica, no gênero dos atos voluntários. E, portanto, o mal é alguma coisa, é uma natureza, conclui o argumento.
O terceiro argumento parte da ideia lógica de oposição. Como se pode dizer que o mal se opõe ao bem? Se eles se opõem como contraditórios, significa que não há possibilidade de termo médio entre eles. Ser solteiro ou casado, por exemplo. Também o ser e a privação são opostos, como alguém que enxerga ou alguém que é cego. Mas, diz o argumento, entre contrários não é assim, porque há o cinza entre o preto e o branco. No caso do bem e do mal, diz o argumento, eles não se opõem como o ser e a privação, mas como contrários, já que existe a possibilidade de voltar do mal para o bem, quando, por exemplo, alguém se converte. Existe um caminho entre os dois, diz o argumento, apenas se os dois forem contrários. E os dois só podem ser contrários se forem ambos naturezas, realidades mesmo, e não apenas uma hipótese de “ser e privação”. Disto, o argumento conclui que o mal é uma natureza.
O quarto argumento também explora este limite linguístico que possuímos para falar sobre o mal. Estamos todos acostumados a ver o mal agindo no mundo. Quem poderia negar que o mal age no mundo? Pergunta o argumento. Ora, prossegue, aquilo que não é uma natureza, que não é uma realidade existente em si, também não pode agir. Uma mera privação não age. Logo, o argumento conclui que o mal é uma natureza, efetivamente existente.
O quinto argumento parte da ideia de que somente aquilo que é existente, que é uma natureza dentre todas as naturezas existentes, pode concorrer para o bem do universo, para a sua perfeição como um todos. O argumento cita, então, Santo Agostinho, que afirma que a admirável beleza do universo é composta por todas as coisas; nela, mesmo aquilo que se chama “mal”, quando adequadamente ordenado e situado, realça ainda mais o bem. Ora, diz o argumento, se o mal é contado como algo que compõe e integra a perfeição do universo, então ele é algo positivamente existente, é uma natureza.
Como argumento sed contra, a autoridade do Pseudo-Dionísio, que afirma categoricamente: o mal não é existente, nem bom. Sim, completamos, a existência é um bem, já que é um transcendental do ser. Se o mal fosse uma existência, haveria algum bem nele, o que, diz o Pseudo-Dionísio, não pode ser.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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