o texto anterior vimos a hipótese controvertida de que haveria vários universos, e esta hipótese baseia-se na ideia de que, se um é bom, vários seriam ainda melhores. Mas há, aqui, dois graves problemas: 1. A tendência psicológica de fuga do aqui e agora, para buscar realidades alternativas que não passam de devaneios, e evitar viver esta vida concreta, tal como ela é, e 2. Há a tentativa de explicar o mundo excluindo Deus, já que toda a intencionalidade, toda a integração, todo o sentido do universo fica explicado como um acaso, uma situação que não se repete nos possíveis universos paralelos, e que o nosso é somente um dentre milhões de outros, e que, por uma circunstância casual, o nosso coincidentemente tinha as condições certas para ser um cosmos, para desenvolver-se em ordem. Milhares de outros não o têm, e o acaso passa a tomar o lugar de Deus como explicação última. Mas explicar a estrutura do universo, tão finamente estruturada, como seleção de acaso no meio de milhares de outros que são, por definição, inacessíveis à inteligência humana, estanques em si mesmos, é uma explicação mais fantástica do que o fenômeno que se busca explicar.

E é exatamente a partir da ordem cósmica que São Tomás inicia sua explicação. A ordem cósmica evidencia um universo que está estruturado cuidadosamente, no qual as coisas estão intrinsecamente relacionadas de tal modo que somente encontram sua explicação nesta relação. A ordem única do universo faz com que este, como um todo, aponte para o mesmo fim; uma unidade que se refere a uma outra unidade mais elevada, que não só o explica como o dirige. Trata-se de uma unidade, um conjunto ordenado que tem na ordem divina, essencialmente unitária, sua origem e seu destino. Assim, não faria sentido que Deus tivesse criado vários conjuntos, estanques entre si, descoordenados e sem sentido. Os que pleiteavam esta hipótese, dizia Tomás em seu tempo, eram os que, então como agora, negavam a preexistência de uma sabedoria ordenadora que desse sentido ao mundo. De fato, a teoria dos multiversos esteve relacionada, tanto na Grécia antiga como no tempo de Tomás, e ainda mais agora, com o ateísmo, o niilismo e o apego ao acaso. Este é o nosso universo, este é o nosso cosmos, esta unidade plural que tem sentido e aponta para Deus.

Quanto à possibilidade de existirem outros mundos com vida no nosso universo, segue sendo uma hipótese aberta. Dada, porém, a uniformidade das leis da física, postulado inconteste da ciência contemporânea, quaisquer mundos que contenham vida estão incluídos na ordem fundamental do nosso universo, seriam criaturas de Deus e, se forem seres inteligentes, são tão necessitados da graça quanto nós. Tudo isto, porém no atual momento, é mera especulação. Assim, este olhar que a nossa civilização lança ao espaço sideral, este misto de esperança e temor de encontrar outros seres inteligentes, no fundo pode ser lido teologicamente como a intuição de que a redenção humana deve vir de fora. Mas não de fora da terra e de dentro do universo criado; de mais além. De Deus mesmo. Outras criaturas inteligentes eventualmente existentes, se existirem, sejam elas mais avançadas ou mais atrasadas, serão tão necessitadas de Deus quanto nós.

Colocados os critérios de sua resposta, Tomás passa a examinar os argumentos objetores iniciais, para respondê-los diretamente.

O primeiro argumento objetor diz que Deus não age sem razão; mas as mesmas razões que existiram para que Deus criasse um mundo existem para que ele tenha criado muitos, e por isto defende que a existência de múltiplas ordens criadas é concebível.

Ocorre que a própria unidade existente no cosmos aponta para a unidade de Deus; e a unidade de Deus aponta para a unidade da criação, a unidade e a organização do cosmos aponta para a unidade de Deus como origem e como fim. Isto não é um dado revelado, mas algo acessível à razão humana. De fato, lembra Tomás, muitos filósofos deduziram a unidade de Deus, mesmo antes e fora do cristianismo ou mesmo das religiões abraâmicas, e cita Aristóteles e Platão dentre estes. A unidade de Deus, portanto, implica a unidade do cosmos, e esta aponta para aquela.

O segundo argumento diz que, se algo é ótimo, dois ótimos são ainda melhores que um só. E assim, seria de se esperar que Deus tivesse criado vários mundos. Mas este não é, diz Tomás, um bom argumento. A simples multiplicação das coisas materiais não é, em si mesma, um fim para a existência das coisas. Assim, o argumento do tipo “se um é bom, dois é melhor” não pode funcionar indefinidamente para descrever um fim para o agir de Deus. De fato, se a multiplicação das coisas boas fosse, por si mesma, um fim, e pautasse o comportamento de Deus, então não haveria limite para esta multiplicação: Deus seria uma máquina automática de multiplicar universos ao infinito; e sabe-se que um fim que tende ao infinito é um falso fim, porque não pode justificar uma ação. Um fim que tende ao infinito não é justificativa para começar a agir. Seria, pois, uma imperfeição se Deus estivesse compelido a agir para multiplicar o cosmos ao infinito. Desta forma, este argumento não pode justificar a existência de mais de um universo criado.

O terceiro e último argumento diz que as coisas materiais podem multiplicar-se por terem diferentes corpos, mantendo a mesma forma; é assim que há vários seres da mesma espécie. Assim, sendo o cosmos uma entidade corporal, material, poderia ser multiplicado imaginando-se a existência de outros conjuntos cósmicos com outra matéria, para além deste nosso.

Mas não seria possível existir um outro cosmos material para além ou fora do nosso, diz Tomás. Para isto, teríamos que conceber um outro lugar, em um outro tempo, e mesmo a relação recíproca entre as massas, de tal modo que seríamos obrigados a admitir o espaço e o tempo como entidades absolutas, que ultrapassam os limites cósmicos – o que é uma concepção errônea, já que espaço e tempo são também criaturas – ou teríamos que admitir que um cosmos exerce influência no outro, de gravitação, de leis físicas, o que faria deles, no fim, um único e mesmo conjunto criado. O argumento não se sustenta, portanto.

Eis o nosso mundo, eis o nosso universo. Foi este que Deus criou, é neste que temos que viver. Aceitar isto é o começo da salvação.